BARRA VELHA INESQUECÍVEL

Foram muitas. Todos os anos. Janeiro. Uma passadinha em Curitiba, dois ou três dias, depois um monte de dias de férias em Barra Velha (Santa Catarina).
Conjunto Albina, era o nome do prédio. Até o nome era bom: o da tia Minó e da avó do papai. Nada com o nome da tia Minó pode ser menos do que maravilhoso.
O prédio tinha dois andares, 10 apartamentos. Sala compridona, junto com a cozinha. Um quarto grande, arejado, com uma camona gostosa. Varanda na sala e no quarto. O outro quarto era mínimo, sem ventilação: uma cama de casal e uma beliche. Um banheiro razoável. Nos fundos, área de serviço.
Poderia pegar minhas fotos e contar quantas férias passamos lá, mas não tenho tempo agora. Começou quando Serginho tinha 2 meses (isso mesmo – DOIS meses) e foi até ele ter uns 16 ou 17 anos.
Da varanda, a gente via o mar. Em noite de lua cheia, vovó, invariavelmente, ia até lá e gritava para nós:
– Gente, olha que beleza o marrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!!
Aí, a gente descia com ela e ia até o banquinho que ficava perto da praia. Conversávamos até cansar e voltávamos para nosso ninho.
No início, eu e Sérgio não podíamos pagar nosso próprio apartamento, então ficava todo mundo em um só: papai, mamãe, vovó, Cristina, Clarice, Henrique, alguma namorada do Henrique, eu, Sérgio, Serginho. Nos fins de semana, tia Celina e Ildefonso. Aliás, a tarde de sexta-feira era dedicada a esperar a chegada deles. Depois, Flávia e Daniela também (estrearam aos quatro meses).  Era uma festa. Além disso, nossos amigos e parentes tinham toda a liberdade de chegar e ficar o tempo que quisesse. Uma vez, o Waldo dormiu na varanda, porque não tinha lugar para pôr mais colchão dentro da “mansão”.
Nós passeávamos o tempo todo. De manhã, praia. Depois, mamãe fazia o almoço. O resto do serviço era por escala, muito bem planejada e colada na porta da geladeira amarela. Dois para arrumarem a cozinha, um para limpar a casa e outro para lavar o banheiro. Acabado o serviço, uma sonequinha e… pé na estrada. Blumenau, Camboriú, Piçarras, São Francisco do Sul, Pomerode, Jaraguá do Sul, Brusque, nada escapava à nossa fúria turística. Bastava ter uma feira e lá íamos nós.
Os carros ainda não tinham ar condicionado, a BR 101 ainda não era duplicada. Mas nós éramos animados o suficiente para sair de Barra Velha e viajar 40km até Itajaí para tomar sorvete no abacaxi ou comer pizza. Vovó e os bebês junto. Lembro de uma vez em que já era mais de 1 da manhã e Flávia e Daniela, com 2 anos, estavam animadíssimas junto com a vovó, que já estava perto dos 90, comendo pizza em Itajaí.
A BR era tão movimentada, eu morria de medo das viagens, mas enfrentava pelo prazer dos passeios. Vovó comentava:
– Não entendo por que os que estavam lá têm que vir para cá e os que estão aqui têm que ir para lá. Por que a gente não fica cada um no seu lugar?
Brincadeira, claro, porque ela sempre foi uma das primeiras a pular no carro quando o negócio era explorar o estado de Santa Catarina.
Descobrimos preciosidades, principalmente gastronômicas: pizza na pedra em Itajaí, Alírio (frutos do mar na praia de Penha), o café colonial do Hotel Glória em Blumenau, a Macarronada Italiana em Camboriú, o eisbein do Froshin em Blumenau, rodízio de camarão em Floripa (no tempo em que ninguém conhecia isso). Também comprávamos malha, telas para bordar em Blumenau, enfeites de casa nas lojinhas à beira da estrada.
Houve aventuras divertidíssimas. Papai gostava de pescar (bem, pelo menos de pegar a vara e ir jogar no mar). Certo verão, ele pegou uns peixes e acabou famoso na metrópole toda! Teve o verão em que o filho do comandante (vizinho) resolveu fazer ginástica olímpica no quintal. As meninas cansaram de assistir, mas o máximo que ele fez foi colocar pozinho branco na mão. O dia em que o cachorro invadiu o condomínio e o proprietário brigou feio com o dono do dito animal.
Os salva-vidas eram um caso à parte. A gente tinha apelido para todos. Muito politicamente incorretos. Um que tinha um defeito na coluna era o Tortinho. Salvou o Joel de um afogamento com água na altura do joelho. Um dia, Tortinho se machucou. Papai levou para o hospital e, daí em diante, como ficou amigo dele, passou a chamá-lo de Torto, com muito respeito. Tinha o Ted – Terror das empregadas domésticas – porque era bonitinho e fazia sucesso.
Certa vez os homens foram pescar. Não só os da nossa família, vários dos hóspedes. As mulheres passaram o dia pensando nos peixes que teriam que limpar. Chegaram buzinando, fazendo o maior estardalhaço. Todo mundo correu para ver o que eles tinham trazido. Fizeram o maior alarde, abriram o porta-malas cheio de… limão. Nem um peixe sequer.
No primeiro ano em que pudemos alugar nosso próprio apartamento e fomos promovidos para o quarto da frente, eu e Sérgio nem acreditávamos de tanta alegria. Aí foi bom, porque mais gente podia aparecer.
Barra Velha tinha muito pouco a oferecer naquele tempo. Tinha o Tabuleiro, uma loja boa, aonde a gente ia todos os dias em que não pegava estrada. Vovó amava. Acho que nunca comprei nada lá, mas visitei infinitas vezes. Tinha o caldo de cana no centro. Outra paixão da vovó.
E os vendedores que apareciam na porta do apartamento, com aquelas comidas boas dos alemães e frutas deliciosas. A gente comprava de tudo. Não esqueço de um dia em que eu, Sérgio e Cristina comemos uma melancia inteira ao voltar da praia.
Tinha a bocha na casa do dono do condomínio, seu Vitor. Papai e Sérgio frequentavam assiduamente. Henrique não tinha a menor paciência. As crianças jogavam bete na rua, havia um lugar para jogar vôlei.
O mar era dos mais bravos que já vi. Não sei como a gente tinha coragem, mas entrava e ficava lá um tempão. O único que quase se afogou foi o Joel. Mamãe, que tinha medo, preferia passar as pedras que havia no final da praia e ir ao “centro”, como chamávamos, onde era mais calmo. Ela, tia Celina e Ildefonso passaram o maior sufoco no mar calmo, quase se afogaram. Preferiram continuar no nosso doidão mesmo.
Nessas pedras ficava o cantinho da bisa. Vovó caminhava até lá e sentava nas pedras para sentir o mar batendo. Um de meus maiores prazeres, até hoje, foram aqueles momentos em que fiquei ali absorvendo a sabedoria dela. Que saudade imensa!
Um caso gastronômico à parte era o Paulo Lanches. Há cerca de três ou quatro anos passamos por lá, e ainda existia. Caso você vá a Barra Velha, não deixe de comer um X-Tudo no Paulo Lanches. Confesso que nunca comi. Não dá nem para morder aquilo, de tanta coisa que o Paulo coloca lá dentro. A lanchonete ficava bem na nossa esquina, e Serginho contribuiu muito para a prosperidade do Paulo.
As férias em Barra Velha eram simples, com passeios sem guias, nada de pacotes. Em setembro, seu Vítor começava a ligar para saber quando iríamos. Nossas coisas ficavam guardadas lá: filtro, material de pesca do papai, cadeiras e barracas de praia, até brinquedos das crianças. A gente pegava o carro, passava uns dias em Curitiba e o resto das férias em nossa segunda casa.
Esse tempo nos uniu, nos construiu, nos ensinou a nos divertirmos conosco mesmo, entre nós. Todos os outros eram bem-vindos também, mas o centro era o nosso núcleo familiar.
Hoje eu não gosto mais de ficar em casa alugada. Prefiro hotel, muito mais fácil. Gosto do conforto de ir de avião, aprecio praias melhores, conheço lugares com muito mais, digamos assim, glamour, do que Barra Velha. No entanto, quando penso nas melhores férias de minha vida, sempre me lembro daquele quartinho abafado em que nos espremíamos. É, quanta saudade!!!!! Na verdade, o ser humano precisa de muito pouco para ser feliz, o problema é que acabamos complicando a vida.
Viva Barra Velha!!!!!!!!!!!!

TRÊS MARIAS E NEW YORK

         Faço parte do seletíssimo grupo de pessoas que conhece as duas cidades.
         Já posso ouvir os protestos de todo mundo que viaja de Brasília a Belo Horizonte e passa pela estrada, à beira da metrópole mineira. Não sou assim. Conheço mesmo. Já entrei lá. Dediquei muitos minutos a conhecer cada metro quadrado do centro da cidade. Tão rápido quanto entrei, saí. Pode ser que haja quem goste de cidades precárias. Eu não.
         Mas Três Marias faz parte de minha vida desde sempre. Nas viagens de ida para BH, a parada no posto (que tinha o mapa da estrada desenhado na parede) dizia:
         – A maior parte ficou para trás. Você está quase lá.
         Era lugar de ganhar um pacotinho de drops Dulcora.
         Na volta, a parada dizia:
         – Olha o tanto que ainda falta. E não dá para saber quando você vai poder voltar a BH! Você vai daqui a Brasília com o sol na cara, ouvindo a estática do rádio enquanto seu pai tenta escutar o jogo do Galo.
         Ai, como sofria! Era lugar de ganhar um pacotinho de drops Dulcora de consolo.
         Nada disso tem a ver com o texto de hoje.
         Bem pequena, aprendi a ver as Três Marias no céu. Quer dizer, aprendi a achar quaisquer três estrelas em série e dizer que são as Três Marias. Tia Célia tentou me ensinar direitinho, mas eu não sou de decorar as constelações. O mesmo acontece com o Cruzeiro do Sul. Quaisquer cinco estrelas em formato de cruz me servem.
         Isso também não tem nada a ver com o texto de hoje.
         As três Marias em questão são minhas três primas Ângela, Adriana e ***. (Esta me proibiu de citar o nome dela sob pena de me processar por calúnia, uso indevido da imagem, apropriação indébita, e não sei mais quantas outras coisas. Apavorada, prefiro não arriscar, sendo que já corri um grande perigo ao escrever um post em que ela e eu fomos personagens principais: Pensa numa pessoa lerda (3).)
         Então vamos ao que interessa. Minhas três primas têm o nome composto, sendo o segundo Maria. Tio Amílcar dizia “minhas Marias”. Para falar sobre elas em grupo, a gente fala as três Marias, ou duas Marias, de acordo com a situação.
         Viemos para Brasília ainda pequenas. Longe de todas as outras primas, natural que nos uníssemos. Não digo que nos encontramos todos os dias, nem todas as semanas, mas estamos sempre juntas, nas horas melhores e nas piores da vida de cada uma de nós.
         Pensa em três pessoas engraçadas. Multiplica por 100 e você terá uma ideia aproximada de como são essas minhas primas. Falam alto, gostam de rir, sabem melhorar o humor da gente (ou, no caso de gente mal-humorada sempre, elas acabam com a pessoa – muito bem feito, ninguém deve ser sempre mal-humorado).
         No ano passado, lá foram as três Marias passar Natal em Londres. Eu avisei:
         – Vocês só se livraram de minha companhia nessa viagem porque é Natal. Se não fosse, eu ia me intrometer.
         Aconteceu. *** me ligou para saber notícias do Sérgio, assim que soube que ele estava com câncer. E me contou que as três iriam a NY no início de setembro. Comecei a coçar. Três Marias e NY!!!!!! Tudo de bom. A viagem seria exatamente no período em que o Sérgio estaria esperando a autorização do convênio para a cirurgia. E ele achou, graças a Deus, que eu estaria melhor durante esse período me distraindo em NY do que enfiada na minha cama.
         Sábio Sérgio, bondoso Sérgio, MARAVILHOSO Sérgio!
         Lá fomos nós. Flávia também se uniu ao grupo, e Renata já fazia parte dele. Confesso que não dou conta do ritmo das Marias. Bom, nem *** dá conta do ritmo das outras duas Marias. Então, eu não fiquei com elas o tempo todo, mas toda vez que a gente se encontrou foi uma delícia, como sempre.
         No aeroporto, em Brasília, Adriana comprou uma revista. Antes de embarcar, enfiou a dita, dobrada, na bolsa da *** e foi ao banheiro. ***, espertíssima como sempre, viu que algum desconhecido colocara uma revista por engano em sua bolsa e largou-a na poltrona da sala de embarque para o dono poder recuperá-la. Embarcamos todas. Troca de lugar, fala uma coisa, fala outra, Adriana guarda a bagagem de todo mundo porque ela é mais alta, monte de risadas. Quando a calma se instala na cabine, Adriana pergunta a *** cadê a revista.
         – Uai, que revista?
         – Vai ser lerda assim na China! Por que um desconhecido ia enfiar uma revista dobrada na sua bolsa?
         – Ah, eles falam para a gente não trazer nada que a gente não sabe de quem é.
         Bem, avião decolado, jantarzinho, Adriana recolhe a sobremesa de todas que não a quiseram (ela gosta de doce mais do que formiga e abelha). Avião tranquilo, um monte de gente dormindo. Adriana pede água à comissária, que traz com aquele ar de educação forçada. A água estava quente. Adriana pergunta se não tem gelada. Apesar de querer enforca-la, a comissária vai buscar. Ela se aproxima, e Adriana está contando um caso. Honrando sua ascendência italiana, com muitos gestos. Dá um tapa na bandeja, a mulher tenta de toda forma equilibrar, a gente cai na gargalhada, a mulher se molha, Adriana também. A comissária se afastou fumegando, e Adriana, morrendo de rir:
         – Tava gelada, porque caiu em mim e eu senti. Ela está toda molhada de água GELADA!!!!!!
         Conexão em Atlanta. Começaram o embarque. Adriana resolveu ir ao banheiro, eu e Ângela falamos que esperávamos. *** também, e ficou responsável pela bolsa da que foi ao banheiro. Chamaram nossa “zona” para embarcar, e *** resolveu adiantar o serviço e embarcar. Entrou na fila e comentou, toda orgulhosa, com a Flávia:
         – Elas falam que eu sou lerda, agora vão ver! Adriana pensa que eu ia esquecer a bolsa dela, mas eu trouxe!
         E entrou no avião.
         Adriana chegou e… cartão de embarque e passaporte estavam dentro da bolsa. Eu e Ângela já caímos na gargalhada. Ângela correu, passando na frente de todo mundo na fila, e foi falar com a comissária que estava à porta da aeronave que precisava chamar a irmã que tinha entrado com a bolsa da outra. A mulher chamou *** pelo alto-falante. E a Ângela:
         – Não adianta, ela não fala inglês – a mulher entregou o alto-falante e mandou que ela mesma chamasse.
         – *** compareça à entrada da aeronave!
         Você compareceu? Ela também não.
         Ângela se enfiou como pôde no avião e conseguiu fazer gestos para ***, pedindo a bolsa. Ela e as outras que já tinham embarcado faziam sinal positivo:
         – A bolsa está aqui, está tudo bem! Pode ficar tranquila.
         Enquanto isso, Adriana, guia de turismo escolada, já tinha conseguido outro cartão de embarque e nós duas estávamos embarcando. Pensa numa confusão. Todo mundo rindo ao mesmo tempo, *** com cara de Maria Madalena arrependida, segurando a bolsa com as duas mãos.
         Foi esse o tom de toda a viagem. Com direito a tombo da Adriana na Times Square e no Empire State. E espero que na próxima eu também participe.
         Tão bom ter essas primas sempre por perto! Quando rimos, rimos a valer. Na hora de chorar, choramos de verdade. Gostamos umas das outras. Sei que posso contar com elas, espero que elas saibam que podem contar comigo.
         Se a Três Marias da estrada deixa a dever a NY, as três Marias Ziller não deixam nada a dever a ninguém. IUHHHUUUUUUU VIVELAS!!!!!!