O BOLÃO

Estou MORRENDO de saudade da minha mãe e do meu pai. Pronto, falei.

Papai foi para o Céu há 10, quase 11 anos. Mamãe foi em março de 2024. No ano passado, viajamos em dezembro, estávamos em Colmar, na França, no dia do Natal. Não decoramos a casa, os mil e quinhentos Papais Noel que temos ficaram nas caixas, dormindo. Então, é a primeira vez que passo o Natal sem meus pais.

Explico melhor. A celebração do nascimento de Jesus sempre foi a data mais comemorada na família Moraes Ziller. Tanto meu pai quanto minha mãe curtiam imensamente todas as festas. No início de dezembro, mamãe levava a árvore para a sala e papai colocava as luzinhas. Tínhamos um pisca-pisca maravilhoso. As lâmpadas eram cobertas por umas coisas que não sei o nome, transparentes, com formatos lindos: casinha nevada, ovelha, árvore, Papai Noel e assim por diante. Será que consegui explicar? Estou duvidando. Depois que as luzes estavam do jeito certo, enfeitávamos tudo.

Além dos enfeites, havia as guloseimas. Mamãe, exímia cozinheira, tinha as coisas que só fazia no Natal. Torta de nozes, bolo de laranja, bolo de nozes (o meu predileto), bolo inglês, peru, panetone doce e, o suprassumo, panetone salgado.

Durante o ano todo, papai comprava presentes, que guardava no maleiro. Depois da Ceia, já em minha cama, eu tentava permanecer acordada enquanto eles carregavam a carga toda para a sala. Acho que o Natal mais sem graça foi um em que descobri qual era o meu presente. Nunca mais quis saber antes da hora. Toda a empolgação acabou sem a surpresa. Não acho graça em ganhar coisas que já sei o que são. Gosto demais da surpresa.

Meus pais nos ensinavam o ano inteiro sobre o sentido do Natal, de modo que podíamos relaxar e aproveitar as festas. Não era preciso fazer sermões e palestras sobre o tema. Estava tudo inculcado (para usar um termo bíblico) em nós. O dia era de festa, com uma breve leitura bíblica, oração e um ou dois cânticos antes da farra da abertura dos presentes.

Sempre cantávamos a mesma música: “Seu nome é Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz. Irei segui-lo para sempre, pois ele dá felicidade.” Depois, em questão de minutos a sala estava tomada de risos e bagunça. As netas mais novas eram a renas, papai vestia sua roupa vermelha e nos alegrávamos com os muitos presentes.

E lá estavam, infalivelmente, as amadas caixinhas. Eram joias que papai dava para a esposa, as filhas, a nora e as netas. Nada caro, um mimo para cada uma, mas ele fazia questão que fosse de ouro.

Na ceia do dia 24, sempre recebíamos parentes e amigos, em especial os que não tinham família grande em Brasília, ou os que estivessem passando por alguma luta mais difícil. Há alguns anos somos nós e a irmã de minha cunhada (minha cunhada É parente, e a irmã dela também!) com o marido e os filhos. A empregada deles nos ajuda no dia 24 e 25. Uma bênção!

Tenho um primo que faz aniversário no dia do Natal. Todo ano era a mesma coisa. Ele telefonava. No meio da empolgação, a gente esquecia de dar os parabéns e quando nos lembrávamos íamos correndo ligar para ele, pedindo desculpas, morrendo de rir e cumprimentando o primo amado. Ele sempre nos desculpava.

O almoço do dia do Natal era bacalhau. No meio de tanta confusão, mamãe nunca se esqueceu de fazer esse prato especial.

Eu e Sérgio seguimos a tradição. Gostamos de receber a família para a ceia em nossa casa, decoramos a sala toda, tiramos os enfeites de sempre e lá ficam os do Natal, coisas lindas que colecionamos há 46 anos! Apesar de ser nossa casa, a festa era a dos meus pais. Depois que ele se foi, a da minha mãe.

Esta semana abre um novo ciclo. Pela primeira vez o almoço do dia 25 será aqui em casa. Não existe mais a casa dos meus pais.

E o tal do bolão?

Bem, o enfeite mais querido de todos. Como o nome indica, uma bola de Natal grande, dourada. Eu me lembro da data sem minhas irmãs, já que uma nasceu 9 anos e a outra 15 depois de mim, todavia não me recordo de Natal sem o bolão. Guardado em uma caixa especial, sempre foi colocado na árvore com cuidado extremo. Que medo de quebrar o bolão! Achei em uma loja, há alguns anos, um parecido, mas é de plástico. Não tem o charme do bolão. Enquanto morei com minha mãe colocávamos dois bolões na mesma árvore.

Decorar a casa para o Natal sempre foi uma delícia. Quando minha irmã caçula era pequena, fiz uma surpresa para ela: recortei em papel um Papai Noel em tamanho natural e colei na janela do quarto dela, com ajuda da mamãe. Depois da ceia. Fomos dormir já quase de manhã, mas o encantamento dela com a surpresa valeu muito a noite em claro.

Desmontar toda a decoração, no entanto, não tem graça nenhuma! Sérgio acaba responsável pela tarefa, já que não suporta casa desarrumada e coisas fora do lugar. Ele desmonta tudo e guarda, com o maior capricho, nas caixas devidas.

O Natal de 2023 foi o último da mamãe neste lado da vida. Não sabíamos disso, claro e, como sempre, Sérgio desmontou e guardou tudo. Depois, me contou, meio reticente:

– O bolão caiu.

Não acreditei. Ele tinha, com certeza, mais de 60 anos muito bem vividos. Ainda estava forte e saudável. Contudo, era verdade. Nosso amado bolão tinha quebrado. Acho que foi o único enfeite que quebrou naquele ano. Foi grande o lamento familiar.

Caso eu tivesse prestado atenção ao fato, saberia que ali terminava um ciclo. O tempo de meus pais tinha acabado. É costume pensar que “novo” é sinônimo de melhor. Nem sempre. Este ano começa um novo ciclo. Não acredito, de forma alguma, que será melhor do que o anterior. Não tem como ser. O ciclo que começa este ano vai sem bom, vou ter um Natal alegre. Meus irmãos, cunhados e sobrinhos (essa descrição inclui a família da irmã da cunhada, que citei acima) estarão aqui. Vamos cear, abrir presentes, comer bacalhau, rir, olhar o bolão fake, curtir os enfeites, contemplar os painéis de patchwork que minha mãe fez, ir à igreja ouvir a cantata. Enfim, tudo como sempre, mas com ausências presentes demais.

Este novo não será melhor do que o velho que vivi. Vai ser bom, mas não chegará à altura.

A quebra do bolão marca, de forma inexorável, o fim de minha vida como filha, enquanto aponta para meu tempo como mãe e avó. Agora teria que ser eu a criar o tempo maravilhoso. Como fiquei desfrutando do que recebia por tanto tempo, tenho bagagem para isso, todavia ainda nem comecei… Melhor me apressar.

A Jabuticabeira e o Serviço Social

Sou apaixonada pelo meu jardim. Várias plantas têm significado especial. Conheço o nome de algumas, porém não sou autoridade no assunto. Temos uma que veio de Belo Horizonte como um pequeno galho. Estávamos saindo para Brasília quando comentei com meu amado tio que a planta que ele cultivava na jardineira do apartamento era muito linda. Com flores alaranjadas, ela atraía beija-flor. Meu tio ficava esperando e fotografava. Que saudade! Meu coração chega a doer pela saudade dele, que era meu padrinho. Ao ouvir meu comentário, ele foi até a janela e quebrou um galhinho. Disse que pegava com facilidade, mas, por um motivo misterioso, ninguém que tinha levado a muda tinha conseguido cultivar a planta. A minha pegou, é linda, dá flores alaranjadas e esconde uma parede sem graça na lateral da churrasqueira. Não sei o nome.

O pé de acerola foi o primeiro presente que recebemos no início da construção de nossa casa. Do meu sogro. Tenho uma costela de Adão que minha avó paterna deu para minha avó materna. Essa história apenas dá para um post inteiro. A dama da noite foi presente do meu primo. As rosas do deserto são da minha sobrinha, estamos cuidando para ela. A pitangueira eu mesma comprei logo que nos mudamos, porque é a fruta preferida de minha irmã. Houve algumas baixas: uma bananeira de jardim que um amigo querido me deu, o limoeiro e o pé de romã que dei para mim porque estava me comportando bem e a perda que mais senti: uma roseira que foi da avó do Sérgio, meu sogro fez uma muda para mim. Era linda, dava flor o ano inteiro. Foi a óbito enquanto nossa casa estava alugada.

Bem, mas hoje a árvore que me interessa é a jabuticabeira. Ao abrir a janela, olho para a esquerda e lá está ela. Quando voltamos para nossa casa, em julho de 2024, ela estava tomada por uma trepadeira. O jardineiro logo cuidou dela, tirou a invasora e ela voltou a ficar bonita. Ofendida, não quis dar frutos no ano passado. As jabuticabeiras são sensíveis, e tive medo de que ela não voltasse a frutificar. Em meados de agosto, passei a procurar as flores no tronco e nos galhos. Nada! Que tristeza, será que ela ia emburrar de novo? Sérgio me disse que tinha visto umas jabuticabeiras floridas perto de seu local de trabalho. Desanimei. Há pouco mais de uma semana, ao abrir a janela, me empolguei: lá estavam as flores que tanto desejava! Agora, acompanho a cada dia o desenvolvimento delas. O esquisito? Não gosto de jabuticaba. Mas minha mãe gostava muito, e foi por causa dela que comprei a dita-cuja. Mas faço licor e este ano vou tentar fazer geleia. Mamãe fazia e gosto muito.

A história da minha jabuticabeira é especial. Como falei, era uma das frutas preferidas de minha mãe. Assim que me mudei, comecei a pesquisar sobre a compra e fiquei sabendo que é preciso ter um fornecedor de confiança. Via oferta dos pés na rua, sempre dizendo que já frutificavam, mas não queria arriscar. Tinha uma amiga querida que infelizmente foi cedo para a Casa do Pai e se chamava Ivone. Ela veio me visitar. Apaixonada por plantas, quis ver o que eu já tinha plantado. Mostrei o lugar onde pretendia plantar a já mencionada e contei a dificuldade. Imediatamente, Ivone me disse que conhecia uma pessoa de confiança que vendia. Empolgada, porque sabia que podia acreditar na minha amiga, respondi que queria o telefone. Ela falou que trataria de tudo para mim. Poucos dias depois, chega a Ivone com a vendedora, a jabuticabeira, terra, adubo e um rapaz para plantar a árvore. Pensa na minha alegria! Sempre que olho para minha linda jabuticabeira eu me lembro da Ivone.

Ela tinha uma qualidade ímpar. Sabia atender necessidades, sem precisar gastar dinheiro. Doava seu tempo. Tinha uma capacidade impressionante de colocar em contato quem precisava de alguma coisa e quem tinha aquela coisa para oferecer.

Lembro-me, em especial, de duas situações. Na primeira, havia, em sua fazenda, crianças que não podiam ir à escola devido à distância e uma construção sem uso. Ela conheceu uma professora que estava desempregada. Procurou o prefeito da cidadezinha próxima, ofereceu o local para a instalação da escola. A prefeitura teria apenas que pagar o salário da professora. Assim, se beneficiaram as crianças, a professora, os pais das crianças e até a própria cidade. E fez isso sem colocar a mão no bolso.

Na verdade, dar dinheiro é fácil. No tempo em que a Ivone andava por este mundo, não havia Pix, então era um pouco mais complicado. Hoje, porém, em menos de um minuto podemos fazer a transferência. Sem qualquer envolvimento pessoal ou doação de tempo.

A outra ideia da Ivone foi mais elaborada. Assim como minha jabuticabeira, dá frutos até hoje. Na época, a Rede Globo realizava um projeto chamado Ação Global. Atendimento social em comunidades carentes, com profissionais das áreas de saúde e não sei o que mais. Ivone observou nossa igreja e falou ao pastor que seria possível realizar algo semelhante. Havia entre nós médicos, enfermeiros, dentistas, advogados, cabelereiros e um bazar móvel. Além disso, gente disposta a fazer comida em grande quantidade. Assim, pelo trabalho dela, nasceu o que até hoje chamamos de Ação Comunitária. A cada dois ou três meses, a igreja se desloca, no domingo de manhã, até uma comunidade carente. Há atendimento médico, dentário, orientação jurídica, corte de cabelo, bazar, atividades para as crianças, plantão de oração e aconselhamento e um almoço delicioso. No início era sempre galinhada, hoje varia um pouco. Dá para sentir a alegria das pessoas e posso afirmar, com certeza, que os mais abençoados somos nós, que vamos para trabalhar. Nos últimos tempos, debilitada pela depressão, faltei aos eventos, contudo ainda amo esse esforço. Já houve quem quisesse acabar com isso, dá para acreditar?

A Ivone já está descansando há muitos anos, e seus netos Ícaro e Isaque (netos de meu primo, aquele que me deu a dama da noite) não a conheceram. No entanto, tenho certeza de que Deus os abençoa por amor a essa filha maravilhosa dele que andou por este mundo.

Para encerrar, volto a me lembrar de uma moça que me marcou profundamente. Estávamos em Luziânia. Na época, eu trabalhava na recepção, fazendo o registro dos que chegavam e encaminhando o atendimento, ao lado de um amigo muito querido, que criou todo o sistema de recebimento. Tinha muita gente, mas eu gostava de conversar um pouquinho com cada pessoa. Essa moça me perguntou por que fazíamos aquilo, por que tentávamos ajudar os outros. Respondi que era porque amávamos Jesus. E então, ela me disse algo que nunca esqueci: “Vale a pena fazer parte de uma igreja assim”.

Posso atestar que vale a pena mesmo. Quanta saudade da Ivone! Mas este ano terei jabuticaba. Quer?