AMIZADE E VIOLÃO

Quero homenagear meu amigo Maurício pelo aniversário dele.

Pensa numa pessoa alegre e engraçada. Isso, acertou, é ele. Muito carinhoso e atencioso.

Gosta de contar histórias como ele só. E cada vez que conta, a história vai crescendo, aumentando. Sabemos disso e nos divertimos assim mesmo. Como diz meu irmão, as histórias criam vida, elas se tornam o que a gente conta. Ouvir o Maurício contar um “causo” é certeza de risada no final.

Penso que talvez por isso ele e meu pai se entendessem tão bem. Um contava causos, o outro ria. Depois o outro contava causos e o um ria.

Ele sabe que enfrentamos dificuldades, e nunca fica alheio a elas. Sempre tem uma palavra de ânimo, de incentivo. Não é só comigo, ele é assim.

No dia do aniversário dele, eu senti vontade de contar um “causo”, mas só agora parei para por no “papel” meus pensamentos.

Aconteceu há vários anos e foi uma das histórias mais bonitas que já ouvi.

Minha irmã e meu cunhado passavam por um período de imensa dificuldade financeira. Já tinham feito de tudo para conseguir superar a situação, mas a coisa estava complicadíssima. Meu cunhado tinha um violão. Resolveu vender, Maurício comprou.

Penso na tristeza do meu cunhado ao se desfazer do violão. Ele é desse tipo de gente que tem dom para música e toca qualquer instrumento que pega. Certamente sentiu muito ficar sem o violão.

Meses se passaram, chegou o aniversário de meu cunhado. Maurício e esposa convidaram minha irmã e meu cunhado para jantar na casa deles, comemorando o aniversário. Ao final, Maurício deu de presente para meu cunhado, claro, o violão.

Amor, generosidade, cuidado, carinho. Muito obrigada, Môrrice (é assim que eu o chamo), por ser esse homem tão especial, que espalha amor. Saiba que daqui de casa você recebe muito amor de volta.

Eu e Môrrice

PERDA IRREPARÁVEL

Não, não, não, hoje não é sobre meu pai, nem sobre qualquer outra pessoa que tenha morrido.

Eu tinha 5 ou 6 anos. Ele era lindo! De camurça, chiquetésimo. Meu primeiro mocassim. Tinha uma fivela dourada, ai, era meu xodó. A cor, meio lilás.

Preciso explicar que minha vida passou por uma mudança bem radical nessa época. Morávamos em Belo Horizonte. Papai, mamãe, eu e Henrique. Cristina e Clarice nasceram depois, já aqui em Brasília.

Lá em BH a vida era bem difícil, financeiramente falando. Não tínhamos carro, morávamos no segundo andar de uma casa no bairro da Floresta. Não era minúsculo, mas não tinha qualquer luxo. Brasília, inaugurada em 1960, não atraía ninguém. Para estimular funcionários a virem para cá, o Banco do Brasil ofereceu dois salários por mês e moradia. Um apartamento que, a meus olhos, era um palácio. Felizmente papai e mamãe tiveram a coragem necessária para desbravar o cerrado.

Apesar de a vida ser muito mais cara aqui, passamos a ter acesso a certos luxos que não dava para termos em BH. Isso incluiu meu mocassim de camurça lilás. Antes, meus sapatos eram comprados em uma loja que nem sei se ainda existe. Clark. Sapatos de excelente qualidade, mas sem qualquer graça. Daqueles de boneca, sempre pretos.

Com a mudança, veio meu mocassim! Eu o amava! Queria calçar a toda hora, inclusive quando ia brincar embaixo do bloco. Mamãe logo determinou:

– Nada de calçar esse sapato para brincar embaixo do bloco. Ele é para sair. Para descer, você usa as havaianas.

Na época, eu odiava havaianas com todas as minhas forças! Hoje, não tenho coleção porque no final do ano resolvi me desfazer de um monte. Ainda assim, estou aqui com uma, muito linda e há outras lá no closet.

Voltando ao mocassim. Certo dia, mamãe não estava em casa na hora em que desci para brincar. Resolvi, claro, calçar meu amado sapato para exibi-lo “prasamiga”. É, mulheres são mulheres desde sempre. Desci toda chique, me sentindo a Ieda Maria Vargas (se você não sabe quem é, pesquise, não vou entregar tudo de lambuja). A brincadeira foi ficando animada, tirei os sapatos para pular amarelinha e… quando fui pegar meu tesouro para subir, só encontrei um pé.

Procurei igual uma doida. Nada. Concluí que tinha descido só com um pé do sapato. Não queria encarar a realidade. Pode rir. Hoje eu rio.

Passei meses à procura do sapato. Lembro-me bem de abrir a porta de um armário da cozinha, ver lá dentro as latas de óleo e ouvir a voz da empregada, dona Maria:

– Ô Cláudia, quando é que você vai parar de caçar esse sapato? Ele sumiu.

Tragédia das tragédias. Devo ter levado uma bronca por causa da desobediência, ou talvez não, porque sofri tanto com a perda que talvez mamãe tenha me poupado.

Na verdade, estou procurando o sapato até hoje. Nunca mais encontrei um mocassim que ficasse tão lindo no meu pé, com a mesma cor. E acho que é por isso que nunca falta um mocassim no meu armário.

Sim, foi uma perda irreparável. Só entende a mulher que já passou por situação semelhante. Ah, e se você encontrar pelas ruas de Brasília, ou de qualquer outra cidade do mundo, um mocassim de camurça lilás do tamanho de uma criança de cinco ou seis anos, por favor, traga para mim. Jamais superei essa perda.

Olha ele aí:

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