7) SERENATAS

Acho que ninguém mais faz serenata. Talvez eu esteja envelhecendo, mas sinto que os jovens perderam uma coisa muito boa quando o costume foi abandonado.

Não havia um acampamento sem serenata. Caprichada. Com solos, divisão de vozes. As meninas corriam agitadas de um lado para o outro no quarto escuro, de camisola, tentando enxergar os garotos. Era um tal de “shhhhhh, fica quieta” que ninguém aguentava. Claro que a gente tinha múltiplos acessos de riso de puro nervoso. Quando eles acabavam a “linda” apresentação, a gente acendia e apagava as luzes duas vezes, para eles saberem que tínhamos ouvido (como se não tivessem ouvido toda a correria e risadaria de antes).

Certa vez, o acampamento foi… dentro. Isso mesmo, no nosso prédio. Os meninos dormiam no andar de baixo e nós, no de cima. Com as portas trancadas, para não haver qualquer “interação” oculta. Não havia parede entre a sala que hoje é dos juvenis e a dos jovens, de modo que era um espaço bem amplo, então todas as meninas dormiram ali mesmo. Sei que havia outra igreja também, não tenho certeza se era o pessoal de Belo Horizonte, ou de outra igreja daqui de Brasília mesmo. O fato é que ficamos deitadas, conversando e rindo, à espera da infalível serenata. De repente, movimento lá embaixo. Todas corremos para a janela. Bernadette e Daso namoravam, e ela queria ver o amado cantando para ela. Mas tinha menina demais, tomaram conta de todo o espaço disponível. Empurra daqui, empurra dali, Bette conseguiu chegar à janela. Alguém cochichou: “Olha o Daso ali!”. Ela, empolgadíssima, foi olhar e… pow! uma cabeçada monumental no vidro da janela. Foi menina caindo pra todo lado de tanto rir. Depois que a tontura passou, a coitada conseguiu vislumbrar o futuro marido por alguns breves instantes.

Bem, mas a serenata mais inesquecível de todas foi feita pelo coral. Poucos dias antes do Natal, alguém fez uma lista com endereço de membros da igreja que não cantavam no coral. E o grupo saiu, fazendo serenata de Natal!!!! Não me lembro em que ano foi, mas tem muito tempo. Foi tão gostoso! Até os vizinhos abriam as janelas para ouvir os hinos lindos, e muitos perguntavam de onde era aquele grupo. Ah, e foi surpresa! Era bom ouvir alguns dizendo, espantados: “Nossa, é o coral da minha igreja!”. Claro que gostaram do presente inesperado de Natal.

Seja para rir ou levar a sério, sinto, mesmo, muita saudade das serenatas embaixo da janela…

6) INDESEJÁVEIS

Toda comunidade tem os indesejáveis, e a nossa não é a exceção que confirma a regra. Felizmente, eles se foram, mas permaneceram em nosso meio durante muito tempo.

Não frequentavam a Escola Dominical. Demonstravam predileção marcante pelo culto noturno. Aliás, acho que nunca foram vistos de manhã. E nunca faltaram a um culto sequer, durante o tempo em que fizeram parte de nossa turma.

Eram muito inquietos. Incapazes de manter silêncio, não sabiam respeitar nem as reflexões mais profundas dos sermões elaborados e pregados com maestria pelo reverendo Garrison.

Apesar de viverem em nosso meio durante muito tempo, foi exatamente no pastorado do reverendo Garrison que eles se manifestaram com maior veemência. Tanta veemência que a liderança da igreja achou melhor se livrar deles. Sim, a expressão é essa mesma: se livrar. Afinal, amor cristão tem limites.

A linha divisória está entre seres humanos e morcegos. Não há qualquer orientação bíblica no sentido se suportarmos as cargas dos morcegos, de alimentarmos morcegos famintos, de darmos abrigo a morcegos sem teto.

Mesmo assim, nós os abrigamos e alimentamos durante muitos anos, em um pé de alguma coisa que ficava bem na frente do templo. Ali, onde hoje tem uns banquinhos gostosos.

Os morcegos gostavam de participar do culto. O coral e o pastor não ficavam naquele parte de cima, ficavam no mesmo nível que a congregação. Aquele “palco” era fechado por uma cortina de veludo vinho.

Como grande parte da humanidade, tenho PAVOR de morcego. E que tormento era, quando um deles errava o caminho de casa e ia parar lá na frente do templo, voando por cima da cabeça dos coristas apavorados. Bem, os homens fingiam que não estavam com medo e ficavam rindo da gente. Reverendo Garrison sempre parava, fazia uma piadinha com a gente e seguia firme em seu sermão. Lamento informar que eu só conseguia dar atenção ao intruso que voava de um lado para outro.

Depois do culto, durante aquele papo infinito (Um aparte: seu Balmes, quando ia à nossa igreja, sempre dizia que gostava muito da Igreja Metodista, mas que só via um problema – a gente não ia embora nunca! Na igreja dele – segundo ele mesmo – era só ir lá, fazer o que tinha que fazer e pronto, voltar para casa. Mas ele dizia isso rindo, conversando sem ir embora, cercado por filhos e netos, feliz da vida.), nossos indesejados “irmãos” faziam rasantes nas nossas orelhas, e ainda tinham o desplante de assobiar.

Todo mundo tinha pavor dos bichos que, segundo meu vasto conhecimento da área (KKK) deveriam comer apenas fruta, já que nunca morderam (morcegos mordem, bicam, chupam – enfim, o que eles fazem?) ninguém.

Um dia, alguém com a inteligência muitíssimo acima da média das pessoas comuns, encontrou  a solução quase impossível: cortou o pé de alguma coisa que abrigava os indesejáveis.

E eles se foram, como aquele rei de Israel, sem deixar de si saudade. Pensando bem, eles acrescentavam um toque divertido às noites de domingo, e dá até para sentir uma ponta de saudade. Puxa, o rei de Israel que não deixou saudade foi ruim MESMO! Pior do que morcego.