A VARANDA

Na primeira foto, estou no colo da minha mãe, meu pai ao lado. O fotógrafo, eficientíssimo, cortou as cabeças, mas isso é o de menos. Na segunda, vovó Rosa. As pessoas são importantes, mas o lugar é meu foco hoje. A varanda!!!!! Um dos melhores lugares do mundo.
Era na casa da tia Minó. Um dos melhores lugares do mundo. Dá para ver que era estreita, e também não era muito comprida. A cadeira amarela atrás da vovó ficava ali para ela poder ficar na varanda mais tempo. Dá para ver também que eu comecei a frequentar a varanda bem cedo.
Quando a gente chegava de Brasília, vovó sempre estava exatamente aí, nessa posição, esperando a gente. O coração dela avisava: 
– Seu caçulinha está chegando!
Ou talvez ela passasse o dia aí, esperando ver nosso carro subir a rua do Ouro. O fato é que sempre a víamos assim que o carro fazia a curva na esquina. E, quando a gente ia embora, era dali que ela acenava até sumir de nossa vista. Quanto tempo será que ficava lá depois? Não tenho como saber.
A varanda era uma delícia. Não cabia rede, não dava para brincar nela, não havia espaço para mesa nem cadeiras de vime. Mas cabia umas mil pessoas. Ela fazia parte da família Ziller, como se tivesse vida. Estava sempre imaculada. O chão de lajotas vermelhas, encerado. Separada da sala por uma porta de correr, que só era fechada à noite, ou quando chovia, foi palco de grandes eventos.
A casa da tia Minó não era muito grande, e a família, imensa. Era lá nosso ponto de encontro. A gente “vazava” para a varanda, porque não cabia todo mundo dentro de casa. E ali, sentávamos no chão, conversávamos, implicávamos uns com os outros e, o melhor de tudo: ouvíamos os casos que a vovó contava. Sentada naquela cadeira amarela que aparece na foto, ela desfiava as histórias com maestria. Prendia a atenção de crianças e adultos.
Mesmo em ocasiões em que não estava a família toda, eu amava sentar no chão da varanda e ouvir as histórias da vovó. Ela falava sempre baixo, em voz mansa. Era uma delícia indescritível sentar, segurar a mão dela e absorver tudo que ela contava. Pena que não escrevi… Havia histórias do arco da velha.
Não sei que milagre acontecia na varanda. Parecia que ela se limpava sozinha. O chão estava sempre brilhando, apesar do movimento dos ônibus e carros na rua (o ponto do 31 – que dizíamos trintum – e do 44 – quaraquaquá – era bem na frente). Em todo lugar a roupa ficava suja de preto por causa da fumaça, mas na varanda autolimpante, saíamos limpinhos, por mais que nos esfregássemos no chão. Hoje sei que tia Minó e Alice a limpavam várias vezes por dia, mas, naquele tempo, isso não fazia parte de minhas preocupações.
Além disso, a varanda era elástica. Já disse antes e repito: cabia a Zillerada TODA!!!!! Acho que, na minha mente, ela é do tamanho do Mineirão. Lembro de cada parente ali. Todos passaram por lá. Era o centro do nosso mundo.
E a varanda tinha uma tela de proteção invisível. Apesar de subirmos no murinho, de debruçarmos, de nos inclinarmos ali de modos que hoje seriam impensáveis, nunca uma criança caiu de lá. Acho que havia anjos de plantão o tempo todo para nos empurrar para trás.
Conheço muitas varandas. Até tenho uma. Algumas são muito chiques, com móveis bonitos, plantas, churrasqueira, rede, até aquecedor!!! Lugares gostosos, onde acontecem festas, almoços, encontros deliciosos. Mas nenhuma se compara à pequena varanda de chão vermelho e grade de ferro, pequena, sem qualquer luxo, da qual sinto uma saudade imensa.
Em fevereiro do ano passado, voltei lá. Ah, minha varanda querida foi fechada por grades! Vovó não poderia mais se apoiar na grade e esperar por nós ali… Que pena! Se eu puder fazer um pedido para a eternidade, tia Minó vai morar numa casa com uma varanda igual à varanda (será que ela vai querer?). E vou sentar no chão, com meus tios e primos, e ouvir de novo as histórias da vovó.

CAMINHANDO E RINDO

Hoje, enquanto caminhava sozinha, pensei em como era gostoso caminhar com minhas amigas. Tempo de abrir o coração, chorar pouco e rir muito.
Tudo começou quando eu e Bette estávamos no 2o. grau. Nosso caminho de ida e volta para o colégio era tempo de acabar com todo e qualquer tipo de stress. A gente conversava sobre tudo, dava boas gargalhadas. Aconteciam coisas engraçadas demais, como o dia em que um cara passou a mão na minha perna e eu tive um chilique em plena W3, ou o dia em que minha caneta caiu e ela parou o transito, gritando: “Para que a Cláudia está pegando a caneta dela”, ou nossa entrada diária infalível na Perfumaria Lord e na Doceria Flamingo. Naquela época, ninguém falava em caminhada como exercício, mas nós sempre fomos mulheres à frente de nosso tempo, e, às vezes, saíamos para “andar para lugar nenhum”. A gente caminhava durante horas, conversando e rindo.
O 2o. grau terminou. Universidade, casamento, filhos, trabalho. Ponto final nas caminhadas da adolescência. No fim de 1990, andar já era moda. Retomei a atividade, com outro grupo: Cristina, Clarice e Beta, sempre no final da tarde. Mais risadas, claro. O ponto alto foi um dia em que a Cristina queria falar alguma coisa. Abriu a boca e não saiu som algum, mas ouvimos um pato grasnando. Ela pôs a mão na boca, assustadíssima, achando que ela é que tinha emitido aquele som. O circuito, no Parque da Cidade, terminava em uma subida, onde avistávamos nossos carros, lindos, sorrindo para nós, no estacionamento. Aquele lugar, até hoje, se chama “ponto crítico”. Em nossa total falta de preparo físico, a pequena subida parecia o Everest.
No início do ano seguinte, deixei meu emprego no Banco do Brasil e dei início a uma rotina deliciosa: deixava as crianças na escola e me encontrava no mesmo estacionamento do Parque para caminhar com a Zenaide. Fizemos isso durante vários anos. Exercício e terapia. Lágrimas e gargalhadas (essas em muito maior número, claro). Perdemos quilos e ganhamos qualidade de vida. O ponto crítico deixou de ser crítico. A caminhada virou parte da minha vida. Até hoje sinto falta dessas conversas com a Zenaide…
Mas a vida nos levou por caminhos diferentes. Mudei para longe, meus filhos começaram a ir sozinhos para a escola. Não valia a pena pegar o engarrafamento matinal para ir até o Parque, já que basta sair de casa e estou em uma “pista” de caminhada. Daso, sempre eficiente, marcou onde completamos 1km, 2km e 3km. Nos quase 16 anos em que moramos aqui, posso ser encontrada quase todas as manhãs na minha pista! E, durante muito tempo, sempre com uma amiga. Bette mora aqui também, de modo que revivemos nossos passeios da adolescência. Uma tarde, íamos saindo quando reparamos nas nuvens carregadas. “Vai chover nada! Vamos assim mesmo.” Não chegamos nem ao portão e o céu já tinha desabado. Ainda bem que tínhamos passado protetor solar, porque assim ele escorreu para nossos olhos. E surgiu uma dúvida que até hoje nos persegue: por que os homens ficam buzinando para mulheres molhadas? Fizemos um sucesso danado naquele dia.
Em outra oportunidade, estávamos chegando ao lugar que marca o ponto da volta (3km). É um tipo de plataforma de cimento. Lá de trás saiu um homem. Bette agarrou meu braço, mas soltou logo, aliviada:
– Ah, felizmente está vestido!
Coitada, não sei que sina ela tem, de vez em quando aparece um peladão na frente dela.
E os cachorros? Ela é valente, enfrenta os bichos, eu agarro o braço dela e falo:
– Ai, meu Deus!
Depois que acaba, a gente chora de tanto rir.
Também caminhei muito com a Sílvia, em momentos muito gostosos, encontrando nossas afinidades, já que ela é bem mais nova do que eu.
Além dessas companheiras constantes, existem muitas com quem dividi uma ou duas caminhadas, que valeram muito à pena.
Uma coisa gostosa é caminhar na praia. Gosto de pisar descalça na areia, e a água do mar de vez em quando se manifesta para refrescar os pés. Eu e minhas irmãs sempre caminhamos durante as férias. Uma vez, estávamos em Florianópolis e tinha uma propaganda engraçada na televisão. Lá vinham três moças na praia, e os rapazes diziam:
– Olha, as irmãs Graça!
As duas se enchiam de orgulho, até ouvir:
– Semgraça, Desgraça e Nemdegraça.
Sérgio, Joel e Rodrigo, muito engraçadinhos, falaram que somos as irmãs Graça. Clarice, que estava grávida na época, foi logo identificada por eles como a Nemdegraça. Mas eu e Cristina até hoje não sabemos quem é quem.
Na verdade, eles nos consideram Maravilhosa Graça, Excelsa Graça e Sublime Graça, mas precisam fazer… graça.
Resumo da ópera: amo caminhar e rir. Como, hoje, os horários de minhas amigas não combinam com os meus, lembro delas, rio de novo de nossas aventuras e curto a música gostosa que me acompanha no Ipod.
Umas fotinhos das irmãs Graça: