Para minha sobrinha Popó, que popostou (argh!) hoje o versículo a que vou me referir.
Já se passaram uns 30 anos, mas as recordações são muito vivas em minha mente. Vinha pela vida singrando mares relativamente tranquilos. Não conhecia muita infelicidade, nem tragédias. Pode-se dizer que estava em uma bolha de sonho. Casada com um homem maravilhoso, mãe de três filhos também maravilhosos. Pais e irmãos em harmonia, família unida e alegre. Morava em uma casa muito confortável, tinha acabado de deixar um emprego de que não gostava para fazer o que mais amava: cuidar dos meu filhos! Meu grupo de amigos também tinha vida tranquila. Viajávamos juntos, curtíamos a companhia uns dos outros. Era um grupo grande, todos com filhos em idade semelhante. Essas “crianças” são amigas até hoje. Na nossa igreja, encontrávamos apoio e incentivo de pessoas amadas.
E aí… certa noite, uma notícia preocupante: um dos amigos teve uma convulsão muito forte, sem nunca ter tido antes, e foi hospitalizado. Logo, a preocupação aumentou: suspeita de um tumor no cérebro. Confirmada a notícia terrível, o amigo foi se tratar em outra cidade, onde o neurologista recomendou uma cirurgia delicada para retirar o tumor. Fizemos o que sabemos: oramos por nosso amigo, a esposa e os filhos. E, após a cirurgia, recebemos uma notícia muito dura: era câncer e não tinha sido possível remover tudo. Ele teria pouco tempo de vida.
Atônita, eu não sabia nem como orar. Naquele dia, em minha leitura bíblica, cheguei ao Salmo 46:
¹ Deus é o nosso refúgio e fortaleza,
socorro bem-presente nas tribulações.
² Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne
e os montes se abalem no seio dos mares;
³ ainda que as águas tumultuem e espumejem
e na sua fúria os montes se estremeçam.
⁴ Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus,
o santuário das moradas do Altíssimo.
⁵ Deus está no meio dela; jamais será abalada;
Deus a ajudará desde antemanhã.
⁶ Bramam nações, reinos se abalam;
ele faz ouvir a sua voz, e a terra se dissolve.
⁷ O Senhor dos Exércitos está conosco;
o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
⁸ Vinde, contemplai as obras do Senhor,
que assolações efetuou na terra.
⁹ Ele põe termo à guerra até aos confins do mundo,
quebra o arco e despedaça a lança;
queima os carros no fogo.
¹⁰ Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus;
sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra.
¹¹ O Senhor dos Exércitos está conosco;
o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
Que alegria!!!! Estava claro para mim que Deus tinha me prometido a cura do meu amigo. Desde o princípio do Salmo, as declarações sobre o poder divino, sobre o cuidado dele com seu povo, tudo apontava para a realização de um milagre. O versículo 10 foi o que mais me marcou. Era para eu ficar calma, sabendo que Deus é soberano e estava cuidando de tudo. Cabe dizer que não escolhi esse Salmo, ele era o que estava designado para minha leitura naquele dia.
Um ano depois desse dia de cantar vitória da fé, sepultamos nosso amigo. Sim, as previsões médicas se confirmaram e ele faleceu. Aquietei-me, apesar da tristeza, sabendo que Deus estava no controle de tudo. Deixei de lado o Salmo 46 e não pensei mais nisso.
Algum tempo passou e o filho de outros amigos começou a ter pneumonias recorrentes. Foi internado, orávamos, mas ele não melhorava. Ele tinha uns 5 anos. Os pais procuraram todos os médicos que foram indicados, mas sempre ouviam que já estavam fazendo tudo que era possível. Ainda assim, aquele menino que tanto amávamos não melhorava. A situação foi se agravando, até que um médico falou que ele não resistiria a mais uma pneumonia. Terror é o que descreve melhor meu sentimento. Por fim, em um desdobramento inesperado, os pais receberam a informação de que em Porto Alegre havia um hospital infantil onde o tratamento de pulmões era de ponta. Como o clima lá é de extremos, há muita pesquisa e inovação nessa área. Já que não havia nada mais a fazer em lugar nenhum do mundo, como os pais haviam sido informados, decidiram ir em busca de alguma esperança no Rio Grande do Sul. No dia de primeira consulta deles lá, peguei minha Bíblia e li o que estava determinado para aquele dia. Comecei: “Deus é nosso refúgio e fortaleza…”. Não reconheci o Salmo, e tive a mesma experiência que tinha tido antes, sentindo, empolgada, que Deus declarava seu poder e estava me revelando que ia curar. Até que cheguei ao versículo 10: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”. Nessa hora me lembrei da experiência anterior e caí em prantos. Tive a certeza absoluta de que Deus estava me preparando para a tragédia que seria a morte daquela criança. Pensei nos avós, pessoas que amava profundamente, nos pais, na irmã, nos tios e primos que amava e amo até hoje. Chorei e chorei mais um pouco.
O médico gaúcho resolveu fazer uma cirurgia. A anestesia já era uma grande preocupação, devido ao grande comprometimento respiratório do menino. No horário da cirurgia, uma quinta-feira, às 11h da manhã, resolvemos ir orar em nosso templo. Fomos chegando e nos abraçando, chorando e tentando apoiar uns aos outros. Não contei a ninguém o que tinha acontecido em minha leitura bíblica. Começamos a orar e quem sentia o desejo interrompia a oração com um texto sagrado ou uma canção. Até que minha prima começou: “Deus é nosso refúgio e fortaleza…”. Desta vez, reconheci logo e Salmo 46 e meu coração se partiu. Íamos perder o menino. Que dor! Que tristeza imensa!
A cirurgia acabou, correu bem, ele foi para a UTI. Todos aliviados, eu, apavorada. Esperava a qualquer momento receber a notícia terrível. Não dormia, não comia. Dias depois, fui ao aeroporto receber de volta os amigos e o menino. Chegou animado, puxando a malinha dele. Esperávamos com presentes. Ele não entendeu o motivo dos mimos, já que, segundo ele, não era nem aniversário. Hoje ele é adulto. Se formou, tem um bom emprego, gosta de esportes. Por bênção do Deus maravilhoso a quem sirvo, mora na casa em frente à minha. Durante o crescimento dele, curti muito sua companhia, sua presença em minha casa.
Acho que entendi o que Deus queria me dizer. Seja o resultado o que espero, ou não, meu papel é ficar calma, descansar, porque Deus é soberano. Não adianta nada me “desaquietar”, já que o final, seja ele bom ou ruim, está fora de meu controle. Está nas mãos de um Deus Todo-Poderoso, que sabe o que vai acontecer e cuida de mim. E de você. Portanto, aquiete-se, e saiba que ele é Deus, é exaltado em toda parte.
Gostou, Popó?