A Jabuticabeira e o Serviço Social

Sou apaixonada pelo meu jardim. Várias plantas têm significado especial. Conheço o nome de algumas, porém não sou autoridade no assunto. Temos uma que veio de Belo Horizonte como um pequeno galho. Estávamos saindo para Brasília quando comentei com meu amado tio que a planta que ele cultivava na jardineira do apartamento era muito linda. Com flores alaranjadas, ela atraía beija-flor. Meu tio ficava esperando e fotografava. Que saudade! Meu coração chega a doer pela saudade dele, que era meu padrinho. Ao ouvir meu comentário, ele foi até a janela e quebrou um galhinho. Disse que pegava com facilidade, mas, por um motivo misterioso, ninguém que tinha levado a muda tinha conseguido cultivar a planta. A minha pegou, é linda, dá flores alaranjadas e esconde uma parede sem graça na lateral da churrasqueira. Não sei o nome.

O pé de acerola foi o primeiro presente que recebemos no início da construção de nossa casa. Do meu sogro. Tenho uma costela de Adão que minha avó paterna deu para minha avó materna. Essa história apenas dá para um post inteiro. A dama da noite foi presente do meu primo. As rosas do deserto são da minha sobrinha, estamos cuidando para ela. A pitangueira eu mesma comprei logo que nos mudamos, porque é a fruta preferida de minha irmã. Houve algumas baixas: uma bananeira de jardim que um amigo querido me deu, o limoeiro e o pé de romã que dei para mim porque estava me comportando bem e a perda que mais senti: uma roseira que foi da avó do Sérgio, meu sogro fez uma muda para mim. Era linda, dava flor o ano inteiro. Foi a óbito enquanto nossa casa estava alugada.

Bem, mas hoje a árvore que me interessa é a jabuticabeira. Ao abrir a janela, olho para a esquerda e lá está ela. Quando voltamos para nossa casa, em julho de 2024, ela estava tomada por uma trepadeira. O jardineiro logo cuidou dela, tirou a invasora e ela voltou a ficar bonita. Ofendida, não quis dar frutos no ano passado. As jabuticabeiras são sensíveis, e tive medo de que ela não voltasse a frutificar. Em meados de agosto, passei a procurar as flores no tronco e nos galhos. Nada! Que tristeza, será que ela ia emburrar de novo? Sérgio me disse que tinha visto umas jabuticabeiras floridas perto de seu local de trabalho. Desanimei. Há pouco mais de uma semana, ao abrir a janela, me empolguei: lá estavam as flores que tanto desejava! Agora, acompanho a cada dia o desenvolvimento delas. O esquisito? Não gosto de jabuticaba. Mas minha mãe gostava muito, e foi por causa dela que comprei a dita-cuja. Mas faço licor e este ano vou tentar fazer geleia. Mamãe fazia e gosto muito.

A história da minha jabuticabeira é especial. Como falei, era uma das frutas preferidas de minha mãe. Assim que me mudei, comecei a pesquisar sobre a compra e fiquei sabendo que é preciso ter um fornecedor de confiança. Via oferta dos pés na rua, sempre dizendo que já frutificavam, mas não queria arriscar. Tinha uma amiga querida que infelizmente foi cedo para a Casa do Pai e se chamava Ivone. Ela veio me visitar. Apaixonada por plantas, quis ver o que eu já tinha plantado. Mostrei o lugar onde pretendia plantar a já mencionada e contei a dificuldade. Imediatamente, Ivone me disse que conhecia uma pessoa de confiança que vendia. Empolgada, porque sabia que podia acreditar na minha amiga, respondi que queria o telefone. Ela falou que trataria de tudo para mim. Poucos dias depois, chega a Ivone com a vendedora, a jabuticabeira, terra, adubo e um rapaz para plantar a árvore. Pensa na minha alegria! Sempre que olho para minha linda jabuticabeira eu me lembro da Ivone.

Ela tinha uma qualidade ímpar. Sabia atender necessidades, sem precisar gastar dinheiro. Doava seu tempo. Tinha uma capacidade impressionante de colocar em contato quem precisava de alguma coisa e quem tinha aquela coisa para oferecer.

Lembro-me, em especial, de duas situações. Na primeira, havia, em sua fazenda, crianças que não podiam ir à escola devido à distância e uma construção sem uso. Ela conheceu uma professora que estava desempregada. Procurou o prefeito da cidadezinha próxima, ofereceu o local para a instalação da escola. A prefeitura teria apenas que pagar o salário da professora. Assim, se beneficiaram as crianças, a professora, os pais das crianças e até a própria cidade. E fez isso sem colocar a mão no bolso.

Na verdade, dar dinheiro é fácil. No tempo em que a Ivone andava por este mundo, não havia Pix, então era um pouco mais complicado. Hoje, porém, em menos de um minuto podemos fazer a transferência. Sem qualquer envolvimento pessoal ou doação de tempo.

A outra ideia da Ivone foi mais elaborada. Assim como minha jabuticabeira, dá frutos até hoje. Na época, a Rede Globo realizava um projeto chamado Ação Global. Atendimento social em comunidades carentes, com profissionais das áreas de saúde e não sei o que mais. Ivone observou nossa igreja e falou ao pastor que seria possível realizar algo semelhante. Havia entre nós médicos, enfermeiros, dentistas, advogados, cabelereiros e um bazar móvel. Além disso, gente disposta a fazer comida em grande quantidade. Assim, pelo trabalho dela, nasceu o que até hoje chamamos de Ação Comunitária. A cada dois ou três meses, a igreja se desloca, no domingo de manhã, até uma comunidade carente. Há atendimento médico, dentário, orientação jurídica, corte de cabelo, bazar, atividades para as crianças, plantão de oração e aconselhamento e um almoço delicioso. No início era sempre galinhada, hoje varia um pouco. Dá para sentir a alegria das pessoas e posso afirmar, com certeza, que os mais abençoados somos nós, que vamos para trabalhar. Nos últimos tempos, debilitada pela depressão, faltei aos eventos, contudo ainda amo esse esforço. Já houve quem quisesse acabar com isso, dá para acreditar?

A Ivone já está descansando há muitos anos, e seus netos Ícaro e Isaque (netos de meu primo, aquele que me deu a dama da noite) não a conheceram. No entanto, tenho certeza de que Deus os abençoa por amor a essa filha maravilhosa dele que andou por este mundo.

Para encerrar, volto a me lembrar de uma moça que me marcou profundamente. Estávamos em Luziânia. Na época, eu trabalhava na recepção, fazendo o registro dos que chegavam e encaminhando o atendimento, ao lado de um amigo muito querido, que criou todo o sistema de recebimento. Tinha muita gente, mas eu gostava de conversar um pouquinho com cada pessoa. Essa moça me perguntou por que fazíamos aquilo, por que tentávamos ajudar os outros. Respondi que era porque amávamos Jesus. E então, ela me disse algo que nunca esqueci: “Vale a pena fazer parte de uma igreja assim”.

Posso atestar que vale a pena mesmo. Quanta saudade da Ivone! Mas este ano terei jabuticaba. Quer?