POR FORA OU POR DENTRO?

Descobri uma preciosidade na internet. Uma casinha no interior da Inglaterra. Muito comum, você pode passar mil vezes pela frente sem imaginar o que ela guarda. Quando abre a porta, porém, você se depara com um tesouro! Dá uma olhadinha no link:

CASINHA NO INTERIOR

Vendo as fotos do interior da casa, eu pensei em como há pessoas assim. Você olha, elas são apenas gente comum. Algumas, feias e até desarrumadas. Conversa um pouquinho e começa a descobrir tesouros. Sabedoria de vida, experiências profundas. Posso ficar horas a fio conversando com tais pessoas, tentando absorver tudo que têm a transmitir.

Chamou a atenção, no texto, o comentário do filho do artista:

– Meu pai trabalhava um pouquinho todos os dias.

Veja bem. Ele cavou embaixo do que era a casa original. Transformou a areia que retirou do solo nas colunas que formam os arcos que vemos nas fotos. A vida dessas pessoas a que me referi também é assim. Construída aos poucos, todos os dias.

Elas se tornam cada dia mais profundas, pegam o material descartável que havia em seu interior e o transformam em cimento útil para edificar belas colunas e arcos que as sustentam.

A maioria dos seres humanos se dedica ao lado de fora. A fachada da casa. O que fica à vista. Aqueles com quem vale a pena conviver trabalham no interior, no íntimo, no espírito, na alma, na essência.

Conheço muita gente de fachada brilhante, bela, atraente. Quando entramos em sua vida, encontramos apenas o primeiro piso. Nada de profundidade, tudo superficial. Ou, então, nos deparamos com um ambiente tão bagunçado que somos forçados a nos afastar. Outros entopem a “casa” de coisas inúteis, que deveriam ser descartadas, tais como lembranças ruins, inimizades, desamor. Casas belas por fora, mas sem nada de artístico por dentro. E o pior são as “casas” repletas de lixo, que deveriam ser totalmente demolidas e reconstruídas.

Gosto da essência. A última foto apresentada no texto é a cereja do bolo. Sobre a caverna, em cima da casa, longe dos olhos do público, o artista criou um jardim. Nem preciso explicar, a metáfora fala por si só.

Eu me lembrei de um dos textos de que mais gosto na Bíblia, um dos mais desafiadores, onde Deus deixa bem claro o que espera de mim e de você, o que ele quer que seja nossa essência:

Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas?

É isso que vocês chamam de jejum, um dia aceitável ao SENHOR?

O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo o jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?

Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do SENHOR estará na sua retaguarda. …

O SENHOR o guiará constantemente; satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol … Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam. Seu povo reconstruirá as velhas ruínas e restaurará os alicerces antigos; você será chamado reparador de muros, restaurador de ruas e moradias. (Isaías 58 – ênfase minha)

Serei o jardim depois que tiver feito todas aquelas coisas descritas antes. Falta muito… Preciso cavar um pouquinho a cada dia. E tomara que não encontre muitas pedras durante o trabalho!

ALIMENTE OS PÁSSAROS

Impossível calcular quantas vezes assisti Mary Poppins. Flávia e Daniela eram obsessivas quando o assunto era filme. Vivemos a fase do Dumbo. Ainda no tempo do vídeo-cassete, assistiam, rebobinavam e começavam a assistir de novo. Houve outros, e chegou a vez de Mary Poppins. Sei de cor as músicas e as falas do filme. Eu e Flá fomos ao show na Broadway há alguns anos. Uma noite deliciosa. Com ela lá longe, do outro lado do mundo, no Nepal, a noite toma aspectos muito especiais.

Foi com grande curiosidade que assisti Walt nos bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks). O filme mostra a dificuldade que Disney enfrentou para conseguir se relacionar com a autora da obra. A certa altura, ela declara, revoltada:

– Você está fazendo um filme sobre as crianças! Meu livro é sobre o pai delas!

Ontem à noite, voltei a assistir Mary Poppins. É, as meninas cresceram e eu continuo assistindo de vez em quando. E uma parte que nunca me chamara a atenção pulou da tela e caiu no meu colo.

Mr. Banks vive para trabalhar. Na mente dele, se a família tiver tudo que o dinheiro pode comprar o trabalho dele estará feito. Não pensa que esposa e filhos querem ter a PESSOA dele, não apenas o dinheiro que ele ganha.

Certo dia, Mary Poppins o induz a prometer levar os filhos na manhã seguinte para o trabalho com ele. No quarto, ela avisa às crianças que elas vão notar que o pai não consegue enxergar algumas coisas. Não vê, por exemplo, uma mulher com a qual cruza todos os dias, que vende migalhas para alimentar os pássaros. E Julie Andrews canta uma das músicas mais lindas do filme:

Ela fala para as crianças que o pai, coitado, não consegue enxergar os pássaros, por isso não os alimenta. Não vê a senhora que grita, vendendo por apenas dois centavos um saco com migalhas que deixará as aves mais fortes.

Tudo acontece como Mary Poppins avisara. Michael leva dois centavos para alimentar os pássaros, mas o pai o impede. Quando o menino aponta para ela, Mr. Banks leva um susto, pois nunca a tinha visto, apesar de passar ali diariamente. Dentro do banco, um dos banqueiros toma as moedas do menino para forçá-lo a fazer um depósito e começar a enriquecer. Michael, porém, quer alimentar os pássaros.

A imagem é poderosa. Os pássaros voam alto, livres. Quais são os pássaros que tenho alimentado? Ou será que estou depositando todas as moedas em um “banco” onde vão me render apenas outras moedas?

Amor, amizade, imaginação, alegria, criatividade. Apenas exemplos de pássaros que posso alimentar com muito pouco. Um sorriso, um carinho, alguns momentos de atenção, pensamento repleto de coisas boas, bons livros, papel e lápis (de escrever e de colorir), música, bons filmes… Quantas moedas tenho usado para alimentar os pássaros?

Com a experiência, Mr. Banks relembra do que tem valor real na vida e reajusta sua perspectiva. Para ele é fácil, porque o filme tem que acabar. Em apenas uma noite ele faz toda a mudança. No entanto, para mim e para você, é necessário um esforço diário para alimentar os pássaros. Basta um momento de distração e deixamos de enxergar a mulher que vende os pacotes com migalhas. E nossos pássaros morrem de fome, e, com isso, temos uma existência muito diferente daquela para a qual fomos criados.

Eu sempre alimento os pássaros. Está em minha natureza, não é difícil para mim. Todavia, sei que posso ir além. Sempre haverá mais pássaros à espera de alimento. Cabe a cada um encontrá-los e tratá-los muito bem. Nada de gaiola. Jogue as migalhas e deixe que eles se alimentem e voem livres, como os do filme.