Em 2005, quando entrei na pior crise de depressão do império (houve outras, antes, mas foram leves), eu levava vida normal. Consegui continuar com a rotina por algum tempo. Segundo muito bem definiu minha médica, era como um carro que anda com o freio de mão puxado. Exatamente. Eu fazia tudo. Nem as pessoas mais próximas a mim desconfiavam de como era difícil, de quanto esforço eu precisava para manter aquela aparência de normalidade. Inúmeras vezes eu dizia: “Ai, como quero morrer!”. Mas só falava para mim mesma. E queria, mesmo, morrer. Sentia uma dor profunda, um sofrimento inexplicável e inexplicado.
Mas eu conseguia manter a rotina. Malhava. Ia ao salão toda semana. Não faltava à igreja. Ia a todos os eventos sociais para os quais era convidada. Só tirava 10 em todas as matérias que fazia na UnB. Por isso, quando não consegui mais e entreguei os pontos, ninguém acreditava que eu estava em depressão. Sofri muito, e só de lembrar tenho vontade de chorar de novo.
Já passou. Ficou para trás. Saí aqui na outra ponta do vale da sombra da morte em situação muito melhor do que aquela em que me encontrava antes de entrar. Algumas coisas, no entanto, ficaram. Não gosto de voltar aos lugares que frequentava antes. Eles me trazem uma sensação ruim. Nunca mais voltei ao salão. As funcionárias, muito simpáticas, sempre perguntam por mim a qualquer amiga que vai lá, mas eu sinto um mal-estar imenso só de passar na rua onde ele fica.
Outro lugar que ficou assim foi a academia. Eu não conseguia nem pensar em ir lá. Mas eu gosto muito de fazer hidroginástica, em piscina descoberta e com a água só um pouquinho aquecida. Do jeitinho que eles têm. Além do mais, mamãe e Cristina fazem hidro lá, e seria muito bom me exercitar com elas.
Não sei quando foi, mas, de um dia para outro, resolvi que vou. Fui lá hoje, fiz minha inscrição. Cheguei à academia alegre, sem nem um pingo de mal-estar. Na verdade, na hora em que fui, nem me lembrei de tudo que havia passado ali. Ao sair, ainda sem pensar nos tempos sombrios, me dirigi a um mercado que fica perto, onde sempre comprava verduras. Descendo para a garagem foi que me dei conta de que havia entrado ali inúmeras vezes chorando. Não é exagero. Em certos dias, precisava ficar um pouco dentro do carro para me recompor antes de subir a rampa.
Mas o interessante é que não sofri, não fiquei triste. Lembrei que segui a mesma rotina tantas vezes, da academia para o mercado, e que, hoje, ao contrário das outras ocasiões, eu estava muito alegre. Não havia qualquer traço de mal-estar, nem físico, nem emocional, nem espiritual, nem de qualquer outro tipo que possa existir neste mundo. Eu estava feliz!
Fiz minhas compras. No caminho para casa, ouvia o CD Aleluia, do Diante do Trono, e começou a tocar uma música que acho linda, cuja letra diz: “Eu vou dançar sobre toda a dor”! Eu me dei conta de que tinha acabado de fazer exatamente isso. Passei pelos lugares onde sofri muito, dançando de alegria. Dançando sobre a dor. Deus faz coisas maravilhosas em minha vida!!!!!
Deprê
UMA CASQUINHA VAZIA, OU VIVA A PRAÇA CENTRAL!
Na semana passada, ao chegar ao shopping, entrei em pânico: fecharam o valet parking que sempre usei!!!!!! Ai, como sofro!
Tenho dificuldade tremenda para alterar determinadas rotinas, que criei para enfrentar certas, digamos assim, lacunas nesta que digita. Essa do manobrista, por exemplo. Eu sempre perco o carro no estacionamento, sempre me perco dentro dos shoppings e das lojas grandes. Meu senso de orientação, numa escala de zero a cinco, está por volta de menos dois. Para evitar maiores problemas (como procurar o carro durante meia hora com sol a pino – já aconteceu, na UnB, carregando livros e dicionários), estabeleci as regras. Uma delas é que, em todos os lugares que frequento, tenho a lugar certo para estacionar.
Bem, acontece que começaram obras (de novo) no Parkshopping, e, ao chegar, constatei que não dava para entregar o carro no lugar onde sempre deixei. Parece incrível, mas houve um tempo, há cerca de dois ou três anos, em que eu voltaria para casa, sem conseguir resolver o “problema”.
Ah, não dessa vez! Com maestria e agilidade quase inigualáveis, me dirigi a outro manobrista, em outra porta do shopping. Depois de entregar o carro, comecei a volta indo pela minha esquerda (TODO MUNDO sabe que é lei ir sempre para a direita) e até atravessei a praça central!
Só quem já se sentiu incapaz de fazer essas coisas sabe o valor de tudo isso. Em primeiro lugar, eu saí de casa. Depois, quebrei paradigmas que estabeleci para me proteger numa fase de grande fragilidade. A sensação de atravessar a praça central do shopping deve ser semelhante à do povo de Israel ao atravessar o Mar Vermelho. Garanto que ela se abriu para mim. Esteve fechada durante muito tempo.
Esse fato, engraçado para alguns, ridículo para muitos e importante para mim, me leva a lembrar de um dia em que disse para minha terapeuta, no auge da depressão:
– Eu me sinto uma casquinha vazia. Sabe quando a gente quebra um pedacinho da casca do ovo, tira tudo de dentro e fica a casca, sem nada dentro, prestes a quebrar? É assim que me sinto.
Com muita sabedoria, ela me respondeu:
– Excelente! Então agora você pode decidir o que vai pôr dentro da casquinha.
Sim, tive a rara oportunidade de me reconstruir. Poucas pessoas têm tal privilégio. Paguei um preço alto, mas pude rever posturas, opiniões, atitudes, costumes. Descobri manias de que não me dava conta, como essa de não atravessar a praça central do shopping. Vi com outros olhos comportamentos enraizados, pude reavaliar muita coisa. E continuo fazendo isso.
Na verdade, não preenchi a casquinha toda, nem pretendo fazê-lo, porque se o fizer, não haverá mais lugar para novidades e surpresas. E eu AMO surpresas!!!!!
VIVA A PRAÇA CENTRAL!!!!!!