JO’S BOYS – Livros dificilmente são descartáveis

Lá vinha eu, lendo o livro. Há meses. Chato, entendiante. Não larguei porque não paro livros pela metade. É uma das muitas regras que estabeleci para mim mesma, sem nem me dar conta disso. De repente, em meio a uma narrativa meio sem graça, Louisa May Alcott coloca uma pérola, palavras preciosas. Em tradução minha:

– Ele não era rico, não é mesmo? – perguntou Jack.

– Não.

– Nunca fez nada para abalar o mundo?

– Não.

– Ele só era bom?

– Só isso – Franz desejou que tio John tivesse feito alguma coisa que se pudesse elogiar, porque ficou evidente a decepção de Jack com as respostas.

– Apenas bom. Isso é tudo, é todas as coisas – falou o Sr. Bhaer.

Apenas bom. A pessoa em questão acabara de morrer, e meninos comentavam sua vida. Esse pequeno diálogo, no meio de um livro bastante sem graça, fez valer a pena toda a leitura. Espero ser reconhecida como “apenas bondosa” (já que “boa” poderia ter outra conotação). Quando as pessoas falarem em mim, viva ou morta, desejo, do fundo do coração, ser reconhecida como uma pessoa cheia de bondade, cheia do amor de Jesus. Meu objetivo maior nesta vida: espalhar amor.

Sou fascinada sobre as formas como Deus escolhe falar com quem deseja ouvir. Hoje, no início da noite, conversei com minha querida amiga Maria do Carmo, que não via há muitos anos. Falamos sobre esse desejo de semear amor, que ambas temos. Depois, ao pegar o livro para ler, encontro o diálogo do “apenas bom”. Deus falou comigo. Deu pra entender? Eu entendi muito bem. Livros nunca são descartáveis. Sempre há neles alguma coisa muito boa, por mais chatos que pareçam ser.

P.S.: Louisa May Alcott escreveu um grande sucesso – Little Women, cujo título em português é Mulherzinhas e fez um sucesso enorme. Depois, escreveu Good Wives, que conta a história das irmãs March recém-casadas. Chato. O trecho que citei é de Little Men, também bastante chato. Há ainda Jo’s Boys and How They Turned Out, que pretendo ler, mas não creio que seja muito bom. Como já disse, para mim, livros nunca são descartáveis.

EDUARDO E AMARILDO

Acordei tranquila hoje. De repente, lembrei-me da tragédia acontecida ontem e orei pela família que estava acordando para o sofrimento. O sono nos anestesia. Ao despertar, entretanto, o choque da dor vem com uma força redobrada.

Desde que fiquei sabendo da morte de Eduardo Campos eu penso na mãe, na esposa e nos filhos. Uma casa cheia de gente a chorar. De crianças a chorar. Tenho certeza de que até o bebê está abalado, sentindo o ambiente à sua volta. Com certeza chora mais do que de costume, está inquieto.

Imagino como deve ter sido a noite deles. Será que a família é daquelas que se junta num montinho? Será que foram todos dormir na cama dos pais? Talvez sejam daqueles que gostam de se isolar, e cada um foi para seu quarto, chorar sua dor. Alguém deve ter chamado um médico para atender uma das crianças, ou a mãe, ou a esposa. Mesmo que não tenha sido necessário medicar ninguém, é certo que havia um médico por perto.

A morte desse pai de família tem desdobramentos importantes no país. Admirei a postura de todos os repórteres e jornalistas que ouvi e li. Muito respeitosos, evitando ofender ou magoar a família, mas o fato é que a pergunta precisa ser feita: como vai ficar agora a campanha presidencial? A família precisará aceitar os debates que acontecerão nos próximos dias e que já estão acontecendo, certamente, a portas fechadas.

Henrique, meu irmão, escreveu em seu blog: “Sinto saudades do que essa campanha com ele poderia ter sido” (Um Breve Encontro com Eduardo Campos). É, estamos com saudade do que poderia ter sido.

Voltando aos filhos que deveriam estar acordando e retomando o choro pela morte do pai, eu me dei conta de que isso acontece todos os dias. A cada manhã filhos, esposas, mães e pais acordam e choram a falta de um amado que se foi. E me lembrei de Amarildo, o pedreiro, pai de seis filhos, que morava na Rocinha e foi morto. Pensei na família desesperada, nos filhos amontoados em um barraco, sem a opção de ir para um canto sofrer sozinhos. A esposa não teve médico à disposição. Sei que vizinhos, parentes, amigos, devem ter aparecido e isso só aumentou a carga emocional por causa do pouco espaço da “residência” da família. Os jornais só começaram a falar na tragédia depois que o pr. Antônio Carlos, da ONG Rio da Paz, botou a boca no trombone. Um ano após a morte, a esposa enfrenta problemas com alcoolismo e depressão, numa reação extremamente natural para quem perdeu o marido e ficou sozinha com seis filhos para criar, sem toda a estrutura de apoio que a esposa de Eduardo Campos terá. Essa estrutura não acaba com a dor, claro. Ajuda muito, contudo, a aliviar o peso da carga que a viúva tem que levar sozinha, que, antes, era dividida com o marido.

Na minha opinião, o único caminho para evitar o hiato que separa as duas viúvas é o Estado fornecer ensino de qualidade, que proporciona oportunidade para que todos prosperem. E aí, mais uma vez, a perda de Eduardo Campos me enche de pesar. Ele zelava pelo ensino público. Governador de Pernambuco, fazia questão de conversar por telefone – ele mesmo, não delegava a assessores – com diretoras das escolas, para saber o que estava faltando, de que forma seu governo poderia ajudar mais, aprimorar a qualidade do ensino público.

Até hoje nosso país não teve presidente com tal zelo pelas escolas. De nenhum partido político. Gosto de estudar história do Brasil, e sei que nunca houve esse tipo de interesse com o ensino público. Um esforço aqui, um retoque ali, mas o ensino nunca foi a prioridade máxima. E só ele vai diminuir a separação entre os Eduardos e Amarildos.

Termino com a frase de Eduardo Campos: “No dia em que os filhos do pobre e do rico, do político e do cidadão, do empresário e do trabalhador, estudarem na mesma escola… nesse dia o Brasil será o país que queremos”. Foi isso que perdemos, é disso que sinto saudade…