A BELA E A FERA

Sábado fui a uma festa. No horário do almoço. Três anos de uma criança lindíssima. O tema, como o título do post já leva a deduzir, era A Bela e a Fera. Assim que eu cheguei e dei um beijo na aniversariante, que, por sinal, não gosta de beijo, nem de abraço, nem de carinho (segundo ela mesma), mas aceitou tudo de bom grado durante a festa, ela me informou:
– Meu pai é a Fera.
Achei engraçadinho – acho engraçadinho tudo que ela faz – mas não dei muita atenção ao comentário. Aí chegou a hora de cantar parabéns. Aberto o espaço perto da mesa dos doces, a música do filme tocando, surgem ela e o pai, a caráter. Ela tinha até as luvas da Bela, e ele com a calça e o blazer da Fera. Dançaram a valsa exatamente como no filme. Até com os rodopios e viradas que fazem a graça da coreografia. Tudo muito bem ensaiado. Eu e várias outras pessoas choramos, emocionadas. Não somos apenas manteigas derretidas. Havia muitas coisas comoventes por trás daquela cena.
O pai, tão dedicado, dançando com tanto cuidado com aquela filhinha tão amada, foi uma das crianças mais trabalhosas que a face da terra já conheceu. Era tão bagunceiro, sua mãe vivia sendo chamada para conversar com orientadores, professores, diretores e tudo mais. Aprontou a valer. Durante a adolescência, teve sua fase de rebeldia, e continuou a dar preocupações. No entanto, é filho de pais sensatos, maduros e que conhecem o amor de Deus. Jamais deixaram de aconselhar, corrigir, orar e fazer tudo mais que era necessário para ele encontrar seu caminho. E ele encontrou. Pai amoroso, marido apaixonado, profissional bem sucedido. Prova viva das maravilhas que o amor humano e divino combinados fazem na vida de uma criança, de um adolescente.
Já a Bela, nasceu nos dando um susto tremendo. Dias entre a vida e a morte, na UTI neonatal, não podia ser nem ao menos tocada pelos pais. Quanto sofrimento, quanta preocupação! Saiu do hospital com um mês de idade, mas ainda com alguns probleminhas de saúde, que obrigavam a mãe a grandes restrições alimentares para não passar pelo leite elementos que faziam mal a ela.
Durante aquela dança, não pude deixar de lembrar desses momentos de luta, e minhas lágrimas eram de alegria, por ver, com meus próprios olhos, a bênção de Deus materializada.
Depois da valsa e dos parabéns, dei um abraço na Bela e falei que a dança tinha sido tão linda que eu tinha até chorado. E ela comentou com uma outra convidada:
– Eu dancei tão bonito que a tia Cláudia até chorou. Nem precisava.
Precisava, sim.
Contei isso a Clarice, e ela lembrou de uma música da qual eu também tinha lembrado – Cinderella (clique no link para ouvir no You Tube). Um pai que fala sobre dançar com sua filha. E ele diz que quer dançar enquanto a filha está por perto, porque chegará o dia em que ela não estará mais.
A filha do compositor morreu, mas, na música, ele deixa de lado sua tragédia pessoal e fala sobre o dia, quase inevitável, em que chegará um príncipe para levar a menina, e que ele não poderá mais dançar com a Cinderela, porque ela terá ido embora.
Sei não, a Bela que eu vi dançar no sábado pode se casar, mas estará sempre por perto da Fera, porque sabe que aquele pai se dispõe a fazer qualquer coisa por ela. Desde ficar mudo durante horas na UTI, dia após dia, até ensaiar, dia após dia, para fazer a apresentação que ela queria no dia de sua festa. E, à medida que o tempo for passando, o menino mais levado que conheci mostrará cada vez mais para sua Bela que é digno da confiança e do amor dela, de sua esposa e de seu filhinho.
Precisa ou não chorar de alegria?

SHELDON COOPER – O RETORNO

Volto a falar de minha semelhança com Sheldon Cooper, que já comentei no post chamado… Eu e Sheldon Cooper. Claro, não podia ter outro título.
Continuo me divertindo com o personagem, que tem adquirido mais destaque na série The Big Bang Theory. Acho que muito mais gente se identifica com ele! No último episódio, ele está sozinho em casa, quando surge na janela – terror dos terrores – um passarinho. Segundo o tradutor, um gaio azul. (Foi isso que apareceu na legenda, e não falo inglês de tão alto nível para conhecer os nomes dos pássaros. Aliás, não sei nem em português.) Sheldon ficou aterrorizado. Não conseguia pensar em outra coisa. Apesar de ter fechado a janela, ficava do lado de dentro do vidro, olhando o passarinho. Eu sei exatamente o que é isso. Quando há uma dessas coisas que incomoda a nós – os obsessivos – não conseguimos pensar em mais nada.
Vou contar um fato tragicômico. No dia 23 de dezembro, fui ao culto de despedida de nosso querido amigo Carlão, que falecera na véspera. Chorei muito, durante todo o tempo, em tristeza e saudade profundas. Mas os dois suportes do caixão estavam desalinhados. Tanto um com relação ao outro quanto com relação à cerâmica do piso. E eu chorava e olhava aquilo. Que vontade de arrumar!!!!!! Não consigo tirar da mente coisas desalinhadas, sem simetria. Por mais que esteja transtornada.
Voltemos ao Sheldon. Ele fechou a cortina, para tentar não ver o pássaro, mas não adiantou. Sabia que o danadinho estava lá, no parapeito. Não lembro bem como foi a sequência de ações, mas o passarinho acabou dentro do apartamento e, tragédia das tragédias, pousou no “spot” do Sheldon, lugar em que ele se senta e onde não permite que ninguém mais sente.  Por fim, desesperado, chamou suas amigas Bernadete e Penny, para resolverem o problema. As duas tentavam convencê-lo de que o passarinho era inofensivo, mas ele repetia que sofre de ornitofobia – medo irracional de aves – e que não conseguia conviver com a presença dele, mesmo separado pelo vidro.
Acho que não posso dizer que sofro de ornitofobia, mas, sempre que vejo um pássaro, de qualquer tipo, sinto que ele está mirando o bico na minha direção e que a qualquer momento vai me atacar. Só consigo olhar para ele, fixamente, esperando a bicada. É impressionante como o bico parece crescer! Tenho muito medo de pintinhos. São bichos altamente traiçoeiros, esperando apenas uma distração de minha parte para me atacar com toda fúria de que são capazes. Por isso, nunca me aproximo de frangos, galinhas ou de seus filhotes. Não posso dizer o mesmo sobre os Galos, já que torço para… o Galo! Ironia do destino.
Bernadete e Penny resolveram acabar com o medo do Sheldon. Pegaram o pássaro. Era amestrado, subiu no dedo de uma delas, que foi se aproximando do apavorado Sheldon, que se encolhia todo com medo da fera. Mas as duas têm jeito para a coisa, e foram bem devagar. Primeiro conseguiram que ele se aproximasse do gaio azul, depois, em meio a gritos e gemidos, o pegasse no dedo. No fim da cena, Sheldon estava se derretendo de amor pelo bichinho. Assim que isso aconteceu, o passarinho foi embora pela janela, e Sheldon ficou arrasado. Espalhou fotos pela vizinhança, esperando recuperar seu amigo recém-conquistado.
Além de ter medo de aves, eu tenho medo também de todo tipo de animal. Sabe aquelas crianças que gostam de pegar filhotinhos? Nunca fui assim. O primeiro filhotinho que peguei no colo foi a Lola. Ela foi o meu paralelo com o que aconteceu com Sheldon e o passarinho.
Tivemos outros cães, e eu os detestava. Todos. Sem exceção. Me irritavam, me incomodavam. Até já escrevi sobre isso também no blog.
Mas a Dani me pegou de jeito. Depois de passar dois anos morando na Califórnia, faltava cerca de um mês para ela voltar para casa. Em uma conversa no MSN, ela me perguntou se ela podia comprar um cachorrinho igual ao que tinha lá. Claro que eu disse que podia. Teria concordado com coisas muito mais difíceis do que mais um cachorro na minha vida. Ela até me pregou uma peça, mandando uma foto de um cachorro horrível, dizendo que era aquela raça. Depois esclareceu, e fiquei aliviada.
Desde que a Lola chegou, fiquei que nem o Sheldon com o passarinho. Encantada. Ela faz de mim o que quer. Pego no colo, sou a “mamãe” dela, mimo a bichinha de todas as formas. E o Charlie, que veio depois, também. Foi tão bom aprender a gostar dos cachorrinhos! Eles me fazem tanta companhia!
Na série, Sheldon sorri muito pouco. Na verdade, ele não sabe sorrir. Mas ontem, com o passarinho, ele sorria, bem feliz. E eu me identifiquei mais uma vez com ele.
Só que me saí melhor. Os meus bichinhos retribuem meu carinho. Me fazem companhia. Durante o dia, quando estamos só nós aqui em casa, eles ficam onde eu estiver. No escritório, Lola deita no banquinho onde apoio os pés, e Charlie tem um edredom para dormir. Se vou almoçar, Lola fica no encosto do sofá e Charlie deita do meu lado, no tapete. Não importa aonde vou, os dois estão sempre atrás de mim (até no banheiro entramos os três!). Por isso, já levaram porta de armário na cabeça várias vezes. Não vejo que estão tão pertinho, abro a porta e só ouço a pancada. Tadinhos!
Mais impressionante é quando a depressão ataca. Eles não me largam de jeito nenhum. Se eu me deito na cama, eles se encostam bem em mim, parece que querem me consolar. Não sei como descobrem que estou precisando de carinho e de companhia silenciosa. Talvez seja Deus quem conte para eles.
Por causa desses dois bichinhos, descobri que vencer medos nos enriquece. Aprendi que a vida pode mudar, que não precisamos ficar até a velhice presos nos medos e ideias preconcebidas que trazemos da infância. E posso dizer que tem sido muito divertido. Aliás, eles dois também gostaram muito desse episódio de The Big Bang Theory!