Eu, Henrique, papai e mamãe nos mudamos para Brasília em 1962. Logo encontramos uma comunidade de fé na qual nos inserimos. Cristina e Clarice já nasceram nesse ambiente.
A capital de 1962 tinha uma característica interessante: muitos casais na mesma faixa de idade, com filhos pequenos. Eram os corajosos que se arriscaram, que compraram a ideia de uma cidade construída a partir do nada. Graças a Deus meus pais fizeram parte do grupo. Sou apaixonada por minha cidade.
No entanto, não penso hoje na cidade. Penso nas amizades profundas que estabelecemos em nossa comunidade de fé. Colegas de escola, companheiros de trabalho, namorados e até cônjuges muitas vezes vêm e vão, mas aquela “tropa” que começou a se formar em 62 continua unida em todos os momentos. Somos uma família grandona.
Reflexiva como sou, vi a manifestação dessa verdade na última semana, diante de três fatos bem distintos.
O primeiro foi a cirurgia a que me submeti. Antes, chamávamos apenas de “plástica”. Agora tem uma porção de nomes bonitos: corretiva, estética, sei mais o quê. Minhas amigas, e até os amigos, elogiaram a coragem, deram força, ofereceram ajuda, acompanhamento. As que já haviam se arriscado deram dicas, contaram só as partes boas, etc. Amigos de verdade se alegram quando fazemos alguma coisa que temos vontade de fazer.
Dois dias depois de minha cirurgia, outro fato mobilizou nossa big family. Mamãe, que vinha gripada há vários dias, teve pneumonia e, devido a uma grande queda na taxa de sódio, precisou ser internada na UTI. Pânico! Os amigos começaram a ligar: “ela vai melhorar logo, ela é muito saudável, faz exercício sempre”. Não são palpites ao acaso, são comentários de gente que nos conhece bem, sabe quais são nossos costumes, que compartilha nosso estilo de vida.
Dona Ábia vai além: “Vou orar por ela, mas vou orar mais por mim e pelo Albiléo, porque nós dois somos muito apavorados com doença”. É verdade. Não sei qual dos dois fica mais assustado quando o caso envolve hospital, médicos e UTIs. Só amigos da vida toda sabem essas coisas. Amigos de verdade sofrem quando sofremos.
O toque maior, porém, aconteceu ontem. Mamãe já estava bem melhor. Bia me ligou. Depois das notícias da UTI, passamos para as da cirurgia e, daí, para o Salão do Automóvel. Beto, o marido da Bia, queria ir ao Salão do Automóvel, mas com o Sérgio. Como o Sérgio não iria, “fica pro ano que vem”.
Amigos são assim. Compartilham todos os temas, circulam entre eles com uma facilidade imensa. As conversas avançam e voltam sem obstáculos. Podemos ir da UTI ao Salão do Automóvel em um piscar de olhos.
Com um breve telefonema para Daniela e outro para o Beto, Sérgio combinou tudo: lá vão ele e seu amigo de infância para o Salão do Automóvel. Eu e mamãe estamos bem. Temos família e amigos suficientes para cuidarem de nós. E meu marido vai celebrar a vida com seu (nosso) amigo.
Eu teria material suficiente para discorrer sobre esse tema em uma tese de doutorado. No entanto, para resumir, vou terminar com uma pequena relação de momentos de nossa vida em que os amigos estiveram: na noite em que eu e Sérgio começamos a namorar, fomos comer pizza com Ceceu e Leonora que estavam mais adiantados que nós; sou madrinha de casamento de Bette e Daso e de Lúcia e Dasinho; Bette e Daso são nossos padrinhos; quando Serginho nasceu e eu saí da sala de parto, Beto e Dani assumiram o controle da maca e me levaram até o quarto; numa noite horrível em que Daniela sofreu insuficiência respiratória com 1 ano, Bette e Zenaide me deram a notícia de que ela havia melhorado; fomos juntos a uma série de lugares bem ecléticos: a fazenda do meu sogro em São João da Aliança, Califórnia, Chapada dos Veadeiros, uma série de acampamentos da igreja em lugares horríveis, Toronto, Nova York, esquiar em Utah, Quebec, Porto de Galinhas, Guarajuba, Orlando, Las Vegas, Anápolis, Pousada do Rio Quente; seguramos as mãos uns dos outros em hospitais, cemitérios, à espera de notícias boas e ruins; compartilhamos infinitas festas, churrascos, almoços, jogos de tênis, cursos de um monte de coisas, etc, etc, etc.
Bruno, filho da Claudinha e do Léo, quando tinha uns três anos, entrava aqui em casa quando bem entendia e exigia: “Quero arroz e batata de purê”. E lá corria a empregada para arrumar para ele… Como me alegrava a liberdade que aquele menininho lindo sentia aqui em minha casa!
No fim das contas, verifico que cirurgia, UTI e Salão do Automóvel não passam de gotas num imenso oceano de amor, agitado constantemente por ondas de alegrias e preocupações…
Eu “tava” pensando…
PAI – UMA HOMENAGEM AO JOEL
Sempre me comovo com os bons pais. Não é à toa que Deus escolheu ser “O” Pai.
Por questões culturais e até físicas, a paternidade é uma escolha. Logo de cara, o homem escolhe acreditar e confiar na mulher que diz que o bebê é filho dele. Muitos decidem não acreditar. Muitos resolvem ir embora. Mas a imensa maioria confia e acredita. Depois que o bebê nasce, o pai escolhe participar dos primeiros momentos de vida, dos primeiros cuidados. Não há nele a descarga hormonal que leva a mulher a ter o instinto de cuidar daquela mini-pessoa. Em geral, em nossa cultura, o homem assume o papel de protetor do bebê e da mãe.
Não pretendo, aqui, fazer tratados sociológicos ou psicológicos. Isso é, apenas, o que vai em meu coração.
Mas o que me levou a pensar nisso tudo foi meu cunhado Joel. A forma como ele exerce sua função de pai me toca profundamente o coração.
Joel não conviveu com seu pai. Não teve uma figura que o ensinasse a ser bom pai. No entanto, ele tira do coração o ensinamento que a vida lhe negou.
No primeiro dia de vida do Marcos, eu estava com eles no hospital. Joel, com medo de pegar o bebê. Falei para ele:
– É mais fácil você cair e se machucar do que deixar esse bebê cair.
Com a mão imensa dele, quase do tamanho do Marcos, segurou o bebê e não largou mais. Fazem de tudo juntos. Marcos é um garoto intenso. Quando gosta de uma coisa, gosta mesmo. E vai por fases.
Houve a fase do avião. Pedia constantemente para ir ao aeroporto ver avião. Lá ia o Joel. Na fase do futebol, atual, Joel sai com ele à tarde, nos fins de semana, e encontra quadras de futsal pela cidade e os dois ficam jogando.
Há um paixão permanente na vida do Marcos: bateria. Lembro dele, ainda da altura da bateria, escondidinho acompanhando, sem piscar, enquanto o pai tocava na igreja.
O mais especial, porém, que tocou meu coração, foi um dia em que Marcos, Alice e Fernanda resolveram fazer uma apresentação musical depois do almoço de sábado. A música: Beat It, de Michael Jackson. (Aliás, uma das fases do Marcos é a fascinação pela obra de Michael Jackson.) Ensaiaram na sexta-feira à noite. Sábado, chegaram à casa da minha mãe. Joel carregava bateria do Marcos, que desmontara e colocara dentro de sacolas. Levava também a guitarra do filho, com a caixa de som. Eu já achei esforço suficiente. Mas, na hora do show, a surpresa maior – ele fazia parte da banda.
Marcos na bateria, Alice no vocal, Fernanda na expressão corporal e Joel na guitarra. O instrumento de brinquedo fazia contraste engraçado com o tamanho do Joel. O som esganiçado, e o Marcos dizendo que ele tocava errado.
Poucos pais iriam tão longe. Carregar a tralha toda já teria sido mais do que muitos fariam. Tocar guitarra de brinquedo numa banda de crianças, isso é que chamo de participar.
Sei que Joel vai colher os frutos que vem semeando. Marcos é apaixonado pelo pai. Finge não ser, mas é. Apesar de não ter tido o que copiar, meu cunhado criou um modelo próprio, muito melhor do que a maioria do que vemos por aí…