É LOGO ALI

A última notícia que tive foi ontem de manhã. Uma pessoa que desconheço postou no Facebook que estava com ela no aeroporto de Seul. Pensa numa mãe que não consegue pensar em outra coisa.

A Flá foi para o Havaí no final de março, mas só agora eu senti que ela “saiu de casa”. Até o Havaí eu já fui. Lá ela tinha família. Internet, telefone e Nextel da Amanda para eu conseguir notícias a qualquer hora do dia ou da noite. Vários canais de comunicação. “Conheci” a base da JOCUM em Kona. A Amanda pegou o iPod, iPad, iAlgumacoisa e me “levou” para ver tudo. Subi no barco em que o Davi gosta de brincar na árvore, fui até o café e o local do culto, passeei pela casa da Amanda, falei com a Esmeralda e a Adriana, vi o local em que ficava o quarto da Flá. É, ela estava no quintal de casa.

Hoje, DEVE estar no Camboja. Mais especificamente, em Battambang. Nunca tinha ouvido falar? Nem eu. Não há internet na base da JOCUM, ela não sabia como seria para telefonar. Informaram que tem uma lan-house perto, todo acesso à internet tem que ser feito lá.

Posso dizer: é difícil! Há mais de 24 horas não sei onde nem como está minha filha. E já são quase 10 horas da noite em Battambang, de modo que acredito que vou continuar pelo menos até amanhã nessa situação.

Isso me fez pensar nas famílias dos missionários mais antigos. Nem precisa ser tão antigo assim. Dona Nancy Garrison contou para minha mãe que, quando os filhos mais velhos dela voltaram para fazer universidade nos Estados Unidos, ela chegava a ficar um mês sem notícia deles. Telefone era inviável, de tão caro. Muitas cartas se perdiam pelo caminho. E os pais e mães tinham que se conformar com a separação e o silêncio.

Mesmo pastores que iam para o interior aqui mesmo no Brasil, como meu avô Synval e minha vovó Evangelina, sofriam com essa separação. Com a família toda morando no estado de São Paulo, vovó foi com vovô para o interior de Minas. E vovô pegava o cavalo e saía para pregar ainda mais no interior, plantando novas igrejas, e ela ficava sozinha com os filhos em Resplendor, também sem ter notícias dele. O pai dela faleceu, ela tinha dois filhos e estava grávida de minha mãe. Contou para mim que a notícia chegou pelo telégrafo, mas vovô estava viajando. O telegrafista comunicou a um dos líderes da igreja. Fizeram uma pequena reunião e resolveram mandar alguém chamar o vovô de volta para casa, para dar ele mesmo a notícia à vovó. Assim aconteceu. Mas ela, apesar de estar, em termos atuais, bem perto de onde a família morava, não pode ir ao sepultamento do próprio pai.

Assim sofriam os missionários e pastores daqueles tempos antes das comunicações rápidas. Para eles, essas horas que estou contando sem notícias da minha filha não representariam nada. Apenas saudade. Não estariam correndo para anteder telefone, nem verificando e-mail e Facebook a cada minuto. O que eu posso dizer é que é muito difícil.

Há uma dualidade. Desde sempre, meu maior desejo para meus filhos é que sejam apaixonados por Deus e pela obra dele. Nesse sentido, o que a Flávia está fazendo é a maior alegria que eu poderia ter. A realização de tudo que sempre quis para ela. Mas… meu coração de mãe está bem apertadinho. Queria muito que o telefone tocasse… Na verdade, tocou e, quando atendi, desligou. Seria ela?

TEMPESTADE RECOLHIDA

Meu avô João Ziller foi professor. De latim, português e história. Tinha um costume interessante. Dava apelido a cada aluna, sempre de acordo com a personalidade delas. E, ao fazer a chamada, não usava os nomes, usava os apelidos.

Bem, no domingo que passamos em NY, eu, mamãe, papai e Cadeira resolvemos ir à igreja. Times Square Church, fundada por David Wilkerson, autor de A Cruz e o Punhal. A partir do trabalho dele, nasceu uma obra mundial de recuperação de drogados que, no Brasil, se chama Desafio Jovem. O livro foi muito importante em minha adolescência, começou a abrir meus horizontes para a atuação social da fé cristã. E eu sempre quis muito conhecer a igreja fundada por Wilkerson.

A manhã foi dedicada à adoção da Cadeira Moraes Ziller. Todos os trâmites legais resolvidos, Clarice foi cuidar das obrigações dela com o grupo e nós três começamos nossas aventuras na cidade. O plano inicial era ir ao culto das 11 da manhã. Não deu, porque a adoção levou mais tempo do que havíamos previsto. Então, passamos para o das 15 horas. Quando conseguimos chegar à Times Square, começou a chover. Bem na porta do Olive Garden, o restaurante predileto do papai nos Estados Unidos. Resolvemos nos abrigar da chuva (ainda faltavam algumas ruas para chegar à igreja), almoçar e ir ao culto das 18 horas. Com tantos cancelamentos, pode parecer que não fomos. Mas fomos, sim! E valeu a pena.

Mas a história não tem a ver com o culto e sim com o restaurante. Tínhamos 3 horas a “matar” antes do culto. Tudo que papai queria. Comer bem devagar, conversando, contando piada. E ali ficamos. Quando já estava na hora de sair, fui ao banheiro. Na volta, vi que os dois estavam conversando com o pessoal da mesa ao lado. Ouvindo que falávamos português, eles perguntaram onde morávamos. Eram de Belo Horizonte.

Engraçado, papai nunca faz isso, mas falou:

– Eu sou da família Ziller, vocês conhecem?

Eram uma senhora com duas filhas, genros e netos. Imediatamente ela:

– Claro, João Ziller foi o melhor professor que eu tive em toda a minha vida! Nunca esqueci dele.

Cadeira ainda não estava tão enturmada com a gente, então permaneceu insensível. Mas os outros seis pares de olhos ficaram cheios de lágrimas. A mulher elogiou tanto o vovô!!!!!! Já fazem mais de 50 anos que ele faleceu, e a permanência dele neste mundo ainda faz diferença na vida de uma mulher. Perguntamos se ela lembrava do apelido dela, e ela:

– Nunca esqueci! Eu era Tempestade!

Dias depois, voltamos a encontrar com ela (imagina: topar duas vezes naquela cidade imensa, com uma aluna do vovô!), que completou:

– Na verdade, meu apelido era Tempestade Recolhida.

Rimos todos. Há momentos na vida que não têm preço, como diz aquela propaganda. Nem todo o ouro do mundo pagaria a alegria que sentimos ao ver uma pessoa honrar nosso amado antepassado com tanto carinho.

Acho que esse encontro valeu por todas as dificuldades que enfrentamos em nossa viagem. Pelo menos, para mim valeu. Cada calinho nas mãos, causados pela malvada Cadeira, me faz lembrar das lágrimas de alegria e emoção que derramamos naquele restaurante.  Lembranças gostosas para o resto da vida…