SEMPRE CERCADA

Um de meus textos prediletos na Bíblia é o Salmo 139. Mesmo para quem não é muito ligado em coisas espirituais, trata-se de uma poesia lindíssima. Um dos versículos diz: “Tu me cercas por trás e por diante e sobre mim pões a mão”. Maravilhoso pensar no Espírito de Deus em volta de mim, me protegendo de tudo.
Só tem um problema: não dá para ver. E, em muitas situações, a gente precisa de coisas concretas nos cercando, nos protegendo, nos aquecendo.
Nos últimos tempos, percebi um aspecto importante: amigos e parentes são a manifestação visível dessa presença de Deus em volta de mim. Tenho muitos amigos e uma família muito amorosa e, nos momentos de dificuldade, eles têm cuidado de mim, fazendo aquilo que é necessário fazer concretamente, aquilo que o Espírito de Deus não faz.
Vou explicar melhor, contando sobre nosso grande amigo Jezreel. Bem, é o dr. Jezreel. Amizade antiga. Papai era muito amigo do pai dele, viajavam juntos pelo interior de São Paulo. Papai pregava, seu Oséias cantava.
Jez resolveu cursar medicina. Lembro bem da alegria que sentimos, lá em Barra Velha (SC), quando ele passou no vestibular. Na era pré-histórica sem celular, não falamos com ele no dia, mas papai ficou orgulhoso como se tivesse sido um de nós. E, assim que voltou para Brasília, avisou ao “dotô” que seria o primeiro paciente dele. E repetia sempre isso. Até que um dia, Jezreel avisou que achava que não daria certo. Tinha decidido ser pediatra. Sem titubear, papai rebateu:
– Não faz mal, eu tenho problema no pé também. Um pé-diatra será muito útil.
Bom, papai se trata com ortopedista, geriatra e cardiologista, mas, quando surge alguma emergência, adivinha para quem a gente liga? Isso mesmo! Para o “dotô”!
Há alguns anos, quando recebeu o resultado da biópsia indicando o câncer de próstata, papai recorreu a seu médico. Lá foi o Jezreel, com sua tranquilidade de sempre. Acalmou seu primeiro paciente, mostrou que era um tumor pequeno, que não havia risco. A cirurgia para retirar o tumor foi em Belo Horizonte, e ele ligou várias vezes, para acompanhar, mesmo de longe, como estavam cuidando do paciente dele.
O “dotô” cuida de todos os meus sobrinhos. Infelizmente, quando meus filhos nasceram, ele ainda não tinha se formado, mas meus nipotinos são abençoados pelo pediatra amoroso. Já é um bordão. Basta uma febrinha mínima e eu já começo a incomodar minhas irmãs:
– Já ligou pro “dotô”?
Na minha mente, ele é um tipo de Super-médico, capaz de resolver qualquer problema.
Como já disse, quando meus filhos nasceram, ele ainda não tinha se formado, e, claro, eu os levava a outro pediatra, no serviço médico do Banco do Brasil. Flávia e Daniela tinham cinco anos quando eu pedi demissão do Banco e, claro, perdi o direito de usar o serviço médico. Ficamos sem pediatra. E Daniela começou a ter febre. Super insegura, decidi ir ao Hospital Brasília, e, pelo caminho, fui orando, pedindo para Deus colocar um bom médico para me atender, já que a Dani nos passou alguns sustos. Claro que já dá para concluir quem era o médico de plantão na pediatria. Quando eu o vi no consultório, dei um suspiro de alívio que só as mães com crianças doentes são capazes de entender. Sim, Deus me cerca por todos os lados.
Pensei tudo isso na semana passada, quando precisei recorrer mais uma vez ao nosso amigo, por causa das feridas na boca do papai, que resolveram aparecer também nas “partes íntimas”. O geriatra viajando, o médico que havia colocado a sonda inacessível. Mamãe preocupada, papai também. Liguei para o Jez. Estava na Câmara, trabalhando. Como sempre, falei:
– Jez, aqui é Cláudia Ziller. É o seu primeiro paciente, de novo. Precisa de socorro.
Em menos de uma hora ele estava na casa dos meus pais. Examinou, receitou, acalmou, mostrou amor. Como sempre. Dois dias depois, voltou para ver se estava tudo correndo bem. Simples assim. Deus o usou para nos cercar, mais uma vez.
Ontem, Sérgio foi ao oncologista. Chegou com os exames, e o médico, que ele não conhecia, falou:
– Ah, o dr. Jezreel já tinha me falado sobre você.
Isso é que é cercar. Não há palavras para expressar a gratidão que sinto por esse nosso amigo que tem se colocado à disposição de Deus para cercar os outros. Sei que não é só conosco que ele age assim.
E, com essa nova perspectiva quanto ao versículo que tanto amo, percebo a necessidade de nos colocarmos como cercas em volta das outras pessoas. Todos devemos cuidar dos que estão perto de nós. Precisamos ser os braços visíveis de Deus para cada pessoa se sentir cercada “por trás e por diante”, e ainda perceber que há uma mão poderosa sobre ela.
Apesar de me referir apenas ao “dotô” neste texto, sou extremamente grata a Deus pelos muitos outros amigos que têm sido “cerca” à minha volta. E espero, de todo coração, conseguir cercá-los também.
Olha aí, para quem não conhece, o “dotô” e sua linda esposa Célia (ela está SEMPRE com esse sorriso bonito iluminando o rosto). Casal abençoado!

CARTA PARA MINHA AMIGA

Bette,
Eu poderia pegar o telefone agora, te ligar, e falar aquelas coisas de sempre. Mas, como disse Roberto Carlos (e fomos juntas ao show): “Eu tenho tanto pra te falar, e com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você…”
Sou grata a Deus por ter colocado você na minha vida desde sempre. Não lembro, e acho que você também não, do dia em que nos conhecemos. Sei que éramos crianças.
Quantas coisas compartilhamos durante todos esses anos (poucos, muito poucos, afinal, estamos com 30 e poucos). Graças a Deus, uma quantidade imensurável de gargalhadas, mas, também, temos nossa cota de lágrimas. Momentos de grande empolgação (não vou entrar em detalhes, mas você com certeza se lembra de uma tarde de sábado em que você gritava: “se apronta, se apronta”, e eu não entendia nada, porque estava prontinha da silva – tinha surgido programa novo!!!!!!), de muita angústia – esperando a cirurgia do Dasinho e na porta da UTI com a Dani lá dentro, de muita alegria – casamentos, aniversários – e de muita tristeza.
Você é a presença SEMPRE na minha vida. Podemos, apesar de vizinhas, passar dias sem nos encontrarmos, mas eu sei que você está por perto, a um toque do telefone, a alguns passos, a um e-mail de distância.
Mais importante, é que eu sei que você vai me entender. Tão bom não ter que explicar detalhes, e ao mesmo tempo é tão bom repetir todos os detalhes que você já sabe, certa de que você vai ouvir até o final e ficar do meu lado. Isso não significa que você sempre concorda comigo, mas você sabe, como só as melhores amigas do mundo sabem, apresentar seu ponto de vista e deixar que eu escolha com qual opinião prefiro ficar. E se eu continuar com a minha, nossa amizade não diminui em nada por causa disso.
Será que algum dia nós brigamos? Eu não lembro. Deve ter havido conflito. Impossível não ter existido, em toda uma vida de amizade. Mas, com toda sinceridade, eu não lembro. Se houve, foi superado em amor. Caso tenha havido necessidade de perdão, foi perdoado. Com certeza é esse o “abismo do esquecimento” de que a Bíblia fala. Problema resolvido e superado. E ponto final.
Quando eu penso em nossa amizade e tento lembrar de imagens, vem desde a época do Pré, das caminhadas infindáveis que fazíamos pela cidade, indo e voltando do colégio, transformando o processo em momentos de alegria. Aprendi ali a fazer do “trânsito” oportunidade para me alegrar e relaxar, em vez de reclamar. Íamos a pé da 308 ao Setor Comercial, você me esperava no dentista do aparelho só para irmos às Lojas Americanas comprar guloseimas. Depois, consumíamos tudo conversando ainda mais. Assunto sem fim. Não acabou até hoje.
E o filme continua, com casamento, nascimento dos filhos, casamentos dos seus, chegada dos seus netos, viagens, passeios, festas, infinitas caminhadas no Park Way. Tantas coisas boas! As tristes, felizmente, são apenas pontos isolados em meio às inúmeras alegrias.
Bastam cinco minutos na hora em que você está saindo para o trabalho, ou 15, no fim da sua caminhada, ou meia hora depois do culto, para a gente dar uma atualizada e uma saber como a outra está.
Eu sempre penso na nossa amizade como um relacionamento alegre, leve. Conversar com você tem efeito terapêutico, eu termino a conversa aliviada, mesmo que tenhamos falado de problemas meus ou seus. Acho que é isso que se chama levar os fardos uns dos outros. A gente divide o peso, fica mais fácil.
Minha amiga queridíssima, meu desejo é que Deus te abençoe cada dia mais. Espero que você saiba que estou sempre pronta a ajudar você a carregar os seus fardos, assim como sei que você está pronta a me ajudar.
Que a sua linda família seja, sempre mais e mais, motivo de grande alegria para você, assim como é para mim também.
E eu ia dizer que podemos continuar a compartilhar o Sérgio, mas talvez essa carta caia em mãos desavisadas que cheguem a conclusões inadequadas, então: tudo como era dantes no quartel de Abrantes, tá?
Muitos abraços e beijos, muito obrigada por ser essa amiga tão especial.
Com amor,
Crau

Bodas de Prata (minhas)

Faltou a Cris…