Meu blog Escritos (http://rabiscosdaclaudia.blogspot.com) tem me servido para registrar todo tipo de assunto. Mas, há algum tempo, eu tinha vontade de fazer o que estou fazendo agora: ter um exclusivo para servir como um tipo de diário de viagem.
Eu tenho o costume de escrever nossas experiências “Neste Mundo de Meu Deus”. Tenho um caderno de capa cheia de coraçõeszinhos que é uma gracinha, e lá anotei muitas coisas sobre nossas andanças, começando com a primeira viagem à Califórnia e Flórida, em dezembro de 1988. Muitas coisas divertidas, é gostoso pegar e reler. Tenho vontade de transformar o que escrevi em 88 em um livro. É um sonho, quem sabe.
Eu tenho paixão por viagens. Felizmente, o Sérgio também. Mas, ao contrário de muitas pessoas que conheço, nós dois somos capazes de curtir intensamente 20 dias pela França e também aproveitar muito um final de semana em Pirenópolis. Vamos de um hotel 5 estrelas e um meia boca com extrema facilidade. Claro que preferimos o 5 estrelas, mas nos divertimos a valer em Campina Grande, em um hotel cuja metade da porta já havia sido consumida pela umidade e eu só tive coragem de encostar no travesseiro depois de forrá-lo com minha canga. Custamos para dormir, porque não conseguíamos parar de rir, inclusive porque tínhamos acabado de chegar de Quebec, onde nos hospedamos em um dos hotéis mais charmosos em que já fiquei. Sei lá, apesar do nojo que senti no hotel na Paraíba, eu me lembro daquela noite com alegria, porque não precisamos de nada para ficarmos felizes, só um do outro. E de bom humor.
Bem, no fim de semana passado, fomos a Pirenópolis. Dona Marlene organizou a viagem, nos convidou.. Flávia e Daniela roeram a corda na última hora, ficaram em casa. A turma era interessante: Dona Marlene, Marta, Hélio e Dico (tios do Sérgio) e Regina e Dal (esposas deles). Nos hospedamos na Pousada Vila das Pedras, muito agradável.
Pensa num fim de semana divertido. A perspectiva não era muito boa. Sérgio com o diagnóstico do câncer, eu muito preocupada também com as feridas na boca do meu pai. Ainda assim, fomos conversando tranquilos, fizemos a costumeira parada no Jerivá, chegamos a Piri no fim da tarde.
Sentamos para bater papo. Eu estava incomodada por Dona Marlene e Marta ainda não saberem da doença do Sérgio. Parecia que eu estava escondendo alguma coisa. Eu prefiro falar tudo logo.
Mas a gente sentou e começou a bater papo. E começamos a rir das histórias de família. E minha mente foi ficando mais leve. Jantamos, uma comida muito gostosa – pedi camarão no abacaxi, e estava uma dilícia. Eu e Dico tomamos uma taça de vinho. A conversa se estendeu bem mais do que a refeição, como acontece nos grupos divertidos.
Ouvi muitas histórias que não conhecia. Eu nunca tinha passado dias com os tios do Sérgio, e foi uma delícia conhecer mais de perto os quatro.
Na manhã do sábado, fomos para a cidade. Pirenópolis tem muitas lojas de artesanato bem bonito. Como não podia deixar de ser, comprei um presépio. Gostaria de ser capaz de lembrar de todos os lugares em que já comprei presépios, mas é impossível. Sei que há lugares tão diferentes quanto Teresópolis e Innsbruck. O de Piri é de barro, sem pintura. Maria, José, Jesus, duas ovelhas e um pastor. Nada tradicional. Lindo.
Comprei blusa, vestido. Sem nenhuma necessidade, mas foi divertido. Regina também se empolgou. Ah, comprei um anel de pedra que sumiu.
Deixamos os carros ao lado da igreja e descemos a rua, entrando em todas as lojinhas que nos interessaram, até chegarmos à beira do rio, onde tinha um monte de gente nadando, pulando das pedras. Atravessamos a ponte, que é de madeira e… BALANÇA! Fui o mais rápido possível, mas tinha muita gente na minha frente, e tive que suportar o medinho. E Sérgio ainda ficava implicando:
– Se cair agora, não tem problema, cai no rio, dá pra nadar. Agora, só quebra uma perna. Agora, nem vai machucar mais.
Me chama a atenção, em cidades como Pirenópolis e Tiradentes, a beleza e variedade do artesanato! Quanta coisa bonita a gente encontra… Também, a comida gostosa. Almoçamos no restaurante Das Flor. Daquele tipo que tem um cardápio pronto e eles vão trazendo a comida para a mesa e trazendo mais, e trazendo mais, até a gente estar quase estourando. Tudo muito saboroso, apesar de ter um defeito que me incomoda: tudo cheio de cheiro verde. Não entendo como os restaurantes não aprendem a colocar o cheiro verde separado. Quem quiser que misture no prato. E quem não gosta, como eu e Sérgio, não precisaria ficar catando. Acabamos deixando de comer muita coisa por causa do infelizes dos verdinhos.
Das Flor foi um sucesso. Nem conseguimos jantar. Eles comeram sopa, eu, nem isso.
Como gosto, a tarde de sábado foi dedicada a dormir. Bem, assisti o sorteio dos grupos das eliminatórias da Copa. A pousada deixa muito a desejar quanto às opções na televisão para uma pessoa como eu, que não gosta de ver novela. E eu estava bem feliz, assistindo SportTV quando desapareceu tudo e surgiu um filme pavorível de um homem todo cortado, amarrado em uma mesa. Desliguei assim que consegui me recuperar do susto.
Domingo era aniversário do Dico. Oramos por ele, agradecendo a Deus pela recuperação dele depois da cirurgia no coração no início do ano. Regina levou um tombo que, infelizmente eu não vi. Perdi essa parte.
O maior sucesso do fim de semana foi o maracujá. Dico falou que ia se servir de suco da supracitada fruta e perguntou a uma mulher se estava bom. Ela respondeu:
– Se estiver como você, estará bom. (Não sei se foram essas as palavras exatas, mas o sentido é esse.)
Contou para a gente, todo feliz. Hélio interpretou imediatamente que o que a mulher quis dizer é que o Dico estava como um bom maracujá de gaveta, todo enrugadinho. Pronto, Dico virou o maracujá.
Acho que é isso que me agrada tanto nas viagens. Acontecem coisas bobas, pequenas, que nos distraem, nos ajudam a esquecer o que nos incomoda a cada dia. No fim das contas, a gente volta para casa com novo vigor, com as forças renovadas. Mesmo que a viagem tenha sido apenas até Piri.
Pé na estrada
HILÁRIO (5) – O papa-móvel
Nossa família Moraes Ziller tem, nos últimos tempos, precisado se adaptar à crescente dificuldade de locomoção do papai. Isso não tem nada de hilário, a princípio, mas o papai tem uma capacidade praticamente ilimitada de transformar qualquer situação em piada. Quando a piada não é muito boa a gente tem uma risada específica, forçada, e aí fica engraçado também.
O caso é que ele sofre muitas dores, por causa de artrose avançada nos quadris e joelhos, e também vários problemas na coluna. Com a dificuldade de locomoção, a cada nova viagem a gente descobre que precisava ter feito alguma coisa que nunca tinha feito antes, como, na reserva do hotel pedir quarto especial, no check-in avisar à companhia aérea que ele precisa da cadeira de rodas para se deslocar pelas grandes distâncias do aeroporto, etc.
Isso posto, vamos ao hilário.
Era dezembro de 2007, e fomos a Orlando.
Todos se comportaram muito bem, inclusive as crianças. Papai andava o tempo todo nos parques, mas cada dia sentia mais dor. À medida que os dias passavam, a gente precisava fazer mais e mais paradas para ele se recuperar um pouco. As paradas não eram contratempos, todo mundo curtia ficar sentado um pouco, batendo papo, inclusive porque Daniela estava voltando para casa depois de morar dois anos na Califórnia, e Flávia estava terminando o período de 6 meses de trabalho no Magic Kingdom. Ela dirigia o barco do Jungle Cruise!!!!! A gente tinha muita coisa para conversar.
Diante do incômodo cada vez maior que o papai sofria, fomos ver o preço para alugar uma cadeira motorizada, mas ele achou que era muito caro. Se fosse para um de nós, ele teria alugado desde o primeiro dia, mas resiste ao máximo quando se trata de gastar dinheiro com ele mesmo. Hoje já sabemos que, para ele, o aluguel da cadeira tem que ser computado junto com o ingresso do parque, mas, em 2007, isso ainda não fazia parte da nossa realidade. Como já falei, a cada dia ele sentia mais dor, ficava mais desconfortável. Andava apoiado no carrinho da Fefê.
Uma noite fria, encontramos eggnog para vender em um parque!!!! Que felicidade! Estava uma delícia. Não estava muito forte, o toque suficiente de rum para aquecer a gente sem deixar ninguém tonto. Papai, mancando apoiado no carrinho, Cristina segurando o eggnog dele. Ela perguntou:
– Pai, o que o senhor prefere: apoiar no carrinho ou levar o eggnog?
Sem nem pestanejar, ele respondeu:
– Prefiro o eggnog.
Ainda não estava tããããão ruim a ponto de recusar a bebida gostosa. Mas, um dia, a coisa atingiu o ponto máximo. Na foto abaixo, ele não está, absolutamente, mal humorado (isso não faz parte da natureza dele, acho que nunca o vi mal humorado), estava com dor, coitado, e não encontrava posição para assistir o show dos carros.
No dia seguinte, ele sucumbiu e resolveu gastar o dinheiro dele com ele mesmo. Alugou seu primeiro scooter. Lembra daquele negócio de “o primeiro a gente não esquece”? Garanto que é a mais pura verdade. Jamais qualquer dos presentes esquecerá o que aconteceu quando ele pegou o negócio para dirigir.
O funcionário do parque explicou tudo em inglês, claro. Mas Albiléo e inglês são como água e óleo: não se misturam. Não havia segredo, a não ser um que descobrimos depois: há duas velocidades – tartaruguinha e coelhinho. E ele estava no coelhinho.
Ele dava um toquinho no acelerador e o trem disparava. Lá íamos todos nós correndo atrás dele. Ou então ele andava bem devagarinho e a gente o ultrapassava. Ao mesmo tempo, a gente não sabia o que fazer. Ficava todo mundo em volta? Atrás? Na frente? Como se comportar na companhia de uma cadeira motorizada?
Sem saber o que fazer, começamos a rir. E lá ia o papai. Disparava e parava. Enfim, alguma mente superior descobriu que, se usasse a tartaruga, a coisa fluiria melhor. Ele conseguiu dominar os elaboradíssimos métodos de controle do scooter – uma alavanca na mão direita e outra na esquerda.
Aí, começou a festa. Como estávamos todos em volta dele, parecia uma procissão. E ele começou a fazer o sinal da cruz e abençoar as pessoas, falando umas coisas parecidas com missa e terminava:
– A-mém!
E ficou batizado: o papa-móvel!
As pessoas que passavam também começavam a rir daquele monte de gente rindo de chorar e do homem mais bem-humorado que uma cadeira de rodas já carregou.
Sérgio conseguiu captar bem o momento:
Repare na mão dele: está fazendo o sinal da cruz, e falando as coisas dele. Pena que Cristina não apareceu, ela e Marcos devem ter corrido ao banheiro para evitar um desastre. (Ela esclareceu: estava na frente, filmando. Ou seja, está tudo registrado, embora o filme esteja, assim, meio sacudido pelas risadas dela.)
Depois que tudo se acalmou, seguimos para as atrações. Papai não vinha dormindo bem, por causa da dor, então estava com muito sono. A verdade é que ele tem imensa facilidade para dormir. Em determinado momento, alguém falou com ele e ele não respondeu. O scooter foi seguindo, sem qualquer alteração na direção ou na velocidade. Corremos e o ultrapassamos e vimos o impensável: papai estava dormindo no volante!!!!!!!!!!!!!
Meu pai e minha mãe nos ensinaram uma coisa muito boa: nesta vida, quase tudo pode ser encarado de forma negativa – papai precisa de uma cadeira motorizada – ou visto como oportunidade para novas experiências, novas alegrias, novas brincadeiras e novos motivos de risada.








