HILÁRIO (5) – O papa-móvel

Nossa família Moraes Ziller tem, nos últimos tempos, precisado se adaptar à crescente dificuldade de locomoção do papai. Isso não tem nada de hilário, a princípio, mas o papai tem uma capacidade praticamente ilimitada de transformar qualquer situação em piada. Quando a piada não é muito boa a gente tem uma risada específica, forçada, e aí fica engraçado também.
O caso é que ele sofre muitas dores, por causa de artrose avançada nos quadris e joelhos, e também vários problemas na coluna. Com a dificuldade de locomoção, a cada nova viagem a gente descobre que precisava ter feito alguma coisa que nunca tinha feito antes, como, na reserva do hotel pedir quarto especial, no check-in avisar à companhia aérea que ele precisa da cadeira de rodas para se deslocar pelas grandes distâncias do aeroporto, etc.
Isso posto, vamos ao hilário.
Era dezembro de 2007, e fomos a Orlando.

 Todos se comportaram muito bem, inclusive as crianças. Papai andava o tempo todo nos parques, mas cada dia sentia mais dor. À medida que os dias passavam, a gente precisava fazer mais e mais paradas para ele se recuperar um pouco. As paradas não eram contratempos, todo mundo curtia ficar sentado um pouco, batendo papo, inclusive porque Daniela estava voltando para casa depois de morar dois anos na Califórnia, e Flávia estava terminando o período de 6 meses de trabalho no Magic Kingdom. Ela dirigia o barco do Jungle Cruise!!!!! A gente tinha muita coisa para conversar.

Diante do incômodo cada vez maior que o papai sofria, fomos ver o preço para alugar uma cadeira motorizada, mas ele achou que era muito caro. Se fosse para um de nós, ele teria alugado desde o primeiro dia, mas resiste ao máximo quando se trata de gastar dinheiro com ele mesmo. Hoje já sabemos que, para ele, o aluguel da cadeira tem que ser computado junto com o ingresso do parque, mas, em 2007, isso ainda não fazia parte da nossa realidade. Como já falei, a cada dia ele sentia mais dor, ficava mais desconfortável. Andava apoiado no carrinho da Fefê.
Uma noite fria, encontramos eggnog para vender em um parque!!!! Que felicidade! Estava uma delícia. Não estava muito forte, o toque suficiente de rum para aquecer a gente sem deixar ninguém tonto. Papai, mancando apoiado no carrinho, Cristina segurando o eggnog dele. Ela perguntou:
– Pai, o que o senhor prefere: apoiar no carrinho ou levar o eggnog?
Sem nem pestanejar, ele respondeu:
– Prefiro o eggnog.
Ainda não estava tããããão ruim a ponto de recusar a bebida gostosa. Mas, um dia, a coisa atingiu o ponto máximo. Na foto abaixo, ele não está, absolutamente, mal humorado (isso não faz parte da natureza dele, acho que nunca o vi mal humorado), estava com dor, coitado, e não encontrava posição para assistir o show dos carros.

 No dia seguinte, ele sucumbiu e resolveu gastar o dinheiro dele com ele mesmo. Alugou seu primeiro scooter. Lembra daquele negócio de “o primeiro a gente não esquece”? Garanto que é a mais pura verdade. Jamais qualquer dos presentes esquecerá o que aconteceu quando ele pegou o negócio para dirigir.
O funcionário do parque explicou tudo em inglês, claro. Mas Albiléo e inglês são como água e óleo: não se misturam. Não havia segredo, a não ser um que descobrimos depois: há duas velocidades – tartaruguinha e coelhinho. E ele estava no coelhinho.
Ele dava um toquinho no acelerador e o trem disparava. Lá íamos todos nós correndo atrás dele. Ou então ele andava bem devagarinho e a gente o ultrapassava. Ao mesmo tempo, a gente não sabia o que fazer. Ficava todo mundo em volta? Atrás? Na frente? Como se comportar na companhia de uma cadeira motorizada?
Sem saber o que fazer, começamos a rir. E lá ia o papai. Disparava e parava. Enfim, alguma mente superior descobriu que, se usasse a tartaruga, a coisa fluiria melhor. Ele conseguiu dominar os elaboradíssimos métodos de controle do scooter – uma alavanca na mão direita e outra na esquerda.
Aí, começou a festa. Como estávamos todos em volta dele, parecia uma procissão. E ele começou a fazer o sinal da cruz e abençoar as pessoas, falando umas coisas parecidas com missa e terminava:
– A-mém!
E ficou batizado: o papa-móvel!
As pessoas que passavam também começavam a rir daquele monte de gente rindo de chorar e do homem mais bem-humorado que uma cadeira de rodas já carregou.
Sérgio conseguiu captar bem o momento:

Repare na mão dele: está fazendo o sinal da cruz, e falando as coisas dele. Pena que Cristina não apareceu, ela e Marcos devem ter corrido ao banheiro para evitar um desastre. (Ela esclareceu: estava na frente, filmando. Ou seja, está tudo registrado, embora o filme esteja, assim, meio sacudido pelas risadas dela.)
Depois que tudo se acalmou, seguimos para as atrações. Papai não vinha dormindo bem, por causa da dor, então estava com muito sono. A verdade é que ele tem imensa facilidade para dormir. Em determinado momento, alguém falou com ele e ele não respondeu. O scooter foi seguindo, sem qualquer alteração na direção ou na velocidade. Corremos e o ultrapassamos e vimos o impensável: papai estava dormindo no volante!!!!!!!!!!!!!
Meu pai e minha mãe nos ensinaram uma coisa muito boa: nesta vida, quase tudo pode ser encarado de forma negativa – papai precisa de uma cadeira motorizada – ou visto como oportunidade para novas experiências, novas alegrias, novas brincadeiras e novos motivos de risada.

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