2) NO ESCURINHO

Nos primeiros anos de existência de Brasília, acabar a luz era fato cotidiano. Entre minhas lembranças mais gostosas está a de colorir à luz de velas. Tinha uma caixa de lápis daquelas grandes, com muitas cores, e livros de colorir dos Flintstones e dos Jetsons.

A luz acabava na cidade inteira, e na igreja também, claro. Claro, não, escuro. Todo mundo vivia preparado, com velas a postos. Não era problema nenhum. Ficou escuro, as velas automaticamente surgiam e tudo continuava tranquilo. Também não usávamos instrumentos elétricos, nem órgão elétrico, nem microfone e muito menos datashow.

O tempo passou, nossa igreja passou a se reunir no prédio que ocupa hoje, e a falta de luz ficou no passado. Por algum tempo.

À medida que surgiam mais aparelhos a serem ligados na tomada, a instalação elétrica feita na década de 60 foi ficando obsoleta. E… coitadas das noivas. Uma das vítimas foi minha irmã Cristina. Sendo musicista, preparou com extremo cuidado a parte musical da cerimônia. Organista de primeira categoria, dono da escola onde ela trabalha. Assim que o fotógrafo (nosso primo Adelchi) acendeu aquelas lâmpadas todas e Vladimir começou a tocar… tudo desligado. Como o casamento foi à tarde, não ficamos no escuro, mas seu Osvaldo, que era bastante escolado no problema, correu para o lado do quadro de luz e lá ficou, durante todo o tempo, ligando de novo a chave cada vez que ela desligava.

Mas, no casamento da Susana e do Quico a coisa foi mais complicada. Não foi problema só em nosso prédio. Acabou a luz na região toda, de modo que a cerimônia foi no escuro mesmo, com algumas velas que surgiram não sei de onde e o coral cantando à capela. Acabou sendo tudo muito bonito, com um toque romântico que a luz elétrica deixa de fora. “Fica a dica” para as próximas noivas: que tal uma cerimônia no escuro?

É interessante nossa dependência da eletricidade. Ficamos meio desamparados quando não dispomos dela. E assustados quando ela se vai de repente, sem dar, nem ao menos, um aviso.

Aconteceu há alguns anos, durante um culto. No meio do sermão. Correu aquele zunzum pelo templo. Enquanto nos inquietávamos, ouvimos a voz bem forte do pastor:

– Não se preocupem, o pastor sabe o sermão de cor.

E prosseguiu até o final. Lembro bem da sensação de segurança que senti, por causa da firmeza do pastor. Depois, cantamos “Finda-se este dia”, sem qualquer acompanhamento, oramos, recebemos a bênção e… fomos embora. Tudo no escurinho do templo. Que delícia!

Tempos depois, Márcia Penna comentou comigo:

– O culto mais lindo de que já participei foi aquele em que a luz acabou no meio!!!!!!

Realmente, foi inesquecível.

Um comentário sobre “2) NO ESCURINHO

  1. Claudia,
    Esses textos estão lindos, acho que está nascendo um livro, assim seja! Parabéns!
    Por favor, escreva alguma coisa sobre os encontros de jovens casais (alguns nem tão jovens assim) que tínhamos na IMAS por volta dos anos 80 e que durou um bom tempo. Cada encontro acontecia na casa de um casal. Tinha louvor, uma palavra inspirada e depois a confraternização, além de um bom lanche. Me lembro muito bem do Rev. Garrison (e D. Nancy, é claro) dirigindo a meditação em alguns encontros e a reunião na casa deles no Guará foi inesquecível. Cada questão complicada e como ele se saía bem nas respostas! Esse grupo foi marcante para mim e me ajudou muitíssimo na integração com as pessoas da igreja, já que eu era mais novo na família da fé e logo fiz vários amigos. Espero o texto de presente, certo?
    Um abraço!
    Sérgio Gonçalves

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