HILÁRIO (4) – Paquera frustrada

Hoje preciso pegar a máquina do tempo e voltar à década de 70.
Vivi intensamente minha adolescência. Viajava as férias inteiras, com minhas primas Solange, Lilian e Emília. Elas moravam em São Paulo, a gente se encontrava aqui ou lá e ia para Belo Horizonte ou Curitiba. De ônibus mesmo. Mamãe comentava que era uma dificuldade orar pela gente, porque tinha que pensar para lembrar onde estava cada um.
Naquela época, a bicicleta da moda era a monareta.

Isso mesmo, As rodinhas pequenas, a garupa bem abaixo do banco do “motorista”. Isso é um fato extremamente relevante para o desenrolar da aventura de hoje, porque as leis da física explicam quase tudo.
Estávamos em São Paulo. A gente inventava muita coisa para fazer. Ia pra todo lado de metrô ou ônibus, mas os melhores momentos eram passados em casa mesmo. Não sei como a tia Célia dava conta, coitada! Imagino o cansaço de uma casa com 6 adolescentes! Só o tanto de comida que ela tinha que providenciar já me deixaria exausta. Mas ela não reclamava. Gostava e se divertia com a gente.
Da janela do quarto da Solange, a gente via as casas da rua de trás, pois há um declive entre as duas ruas. Descobrimos, em uma das casas, dois rapazes. Um de barba, o outro de bigode. Teve início imediato uma paquera intensa, da qual os dois jamais ficaram sabendo.
Solange tinha namorado, não podia participar, e Emília era mais nova, Suzana ainda criança, mas eu e Lílian nos apropriamos do Barbicha e do Bigodé. Foi assim que os batizamos. O acento no último “e” não foi acidental. O nome dele era Bigodé mesmo. Jamais ficamos sabendo o nome verdadeiro dos dois.
Eu e Lílian ficávamos horas debruçadas na janela. Cada vez que os dois entravam ou saíam de casa acontecia um verdadeiro reboliço em nosso camarote. A gente chamava as outras para verem, ficava falando alto. Pensando bem, se eles não forem totalmente tapados, devem ter se dado conta das doidas plantadas dia e noite na janela, fazendo escândalo toda vez que eles apareciam.
Um dia, eles estavam no jardim, acho que lavando o carro. Não lembro bem o que eles faziam, mas sei que era alguma coisa que os prenderia ali algum tempo. Num rasgo de ousadia, decidimos pegar a monareta e ir até lá. Dar uma passada como quem não quer nada.
Um detalhe: Lílian era magrinha e eu, apesar de não ser gorda, era bem mais pesada do que ela. É aqui que a física explica parte da tragédia que estava prestes a acontecer.
Como sempre fui “meio” desequilibrada (num sentido puramente físico), ela assumiu o controle da bicicleta e eu sentei na garupa. E lá fomos nós. O plano, extremamente bem elaborado, era ficar dando voltas no quarteirão, até os dois voltarem para dentro de casa. Muito atiradas, nós duas.
Descemos a rua, eu morrendo de medo e pedindo para ela ir devagar. As outras ficaram assistindo tudo pela janela. Coisa mais ridícula: como a garupa era muito baixinha, eu tinha que ir com as pernas esticadas para a frente, no ar. Lílian avisou que passaria bem devagar pela casa deles, para a gente ver os dois de perto. Assim foi.
Não sei quem foi que teve a bendita ideia de colocar uma rampinha bem na frente da casa do Barbicha e do Bigodé. O fato, comprovado, é que, na hora em que a monareta subiu com a primeira roda a tal rampinha, meu peso fez a infeliz empinar, que nem um cavalo. Lá fomos eu e Lílian para o chão, bem na cara de nossos heróis!
Mas o pior estava por vir. Começamos a rir desenfreadamente. E isso tinha um resultado infalível, todas as vezes: a gente fazia xixi na calça! E foi o que aconteceu. Barbicha e Bigodé olhavam espantados para nós, a gente tentava esconder os shorts molhados. Juntamos o que nos restava de dignidade, montamos na monareta. Para fechar com chave de ouro, logo à frente tinha outra subida, a monareta empinou de novo e a gente caiu de novo.
Foi esse o fim trágico do que poderia ter sido a grande paixão de nossa vida! Resta dizer que, daquele dia em diante, Barbicha e Bigodé não nos viram mais à janela… Devem ter ficado arrasados.

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