UMA CASQUINHA VAZIA, OU VIVA A PRAÇA CENTRAL!

Na semana passada, ao chegar ao shopping, entrei em pânico: fecharam o valet parking que sempre usei!!!!!! Ai, como sofro!
Tenho dificuldade tremenda para alterar determinadas rotinas, que criei para enfrentar certas, digamos assim, lacunas nesta que digita. Essa do manobrista, por exemplo. Eu sempre perco o carro no estacionamento, sempre me perco dentro dos shoppings e das lojas grandes. Meu senso de orientação, numa escala de zero a cinco, está por volta de menos dois. Para evitar maiores problemas (como procurar o carro durante meia hora com sol a pino – já aconteceu, na UnB, carregando livros e dicionários), estabeleci as regras. Uma delas é que, em todos os lugares que frequento, tenho a lugar certo para estacionar.
Bem, acontece que começaram obras (de novo) no Parkshopping, e, ao chegar, constatei que não dava para entregar o carro no lugar onde sempre deixei. Parece incrível, mas houve um tempo, há cerca de dois ou três anos, em que eu voltaria para casa, sem conseguir resolver o “problema”.
Ah, não dessa vez! Com maestria e agilidade quase inigualáveis, me dirigi a outro manobrista, em outra porta do shopping. Depois de entregar o carro, comecei a volta indo pela minha esquerda (TODO MUNDO sabe que é lei ir sempre para a direita) e até atravessei a praça central!
Só quem já se sentiu incapaz de fazer essas coisas sabe o valor de tudo isso. Em primeiro lugar, eu saí de casa. Depois, quebrei paradigmas que estabeleci para me proteger numa fase de grande fragilidade. A sensação de atravessar a praça central do shopping deve ser semelhante à do povo de Israel ao atravessar o Mar Vermelho. Garanto que ela se abriu para mim. Esteve fechada durante muito tempo.
Esse fato, engraçado para alguns, ridículo para muitos e importante para mim, me leva a lembrar de um dia em que disse para minha terapeuta, no auge da depressão:
– Eu me sinto uma casquinha vazia. Sabe quando a gente quebra um pedacinho da casca do ovo, tira tudo de dentro e fica a casca, sem nada dentro, prestes a quebrar? É assim que me sinto.
Com muita sabedoria, ela me respondeu:
– Excelente! Então agora você pode decidir o que vai pôr dentro da casquinha.
Sim, tive a rara oportunidade de me reconstruir. Poucas pessoas têm tal privilégio. Paguei um preço alto, mas pude rever posturas, opiniões, atitudes, costumes. Descobri manias de que não me dava conta, como essa de não atravessar a praça central do shopping. Vi com outros olhos comportamentos enraizados, pude reavaliar muita coisa. E continuo fazendo isso.
Na verdade, não preenchi a casquinha toda, nem pretendo fazê-lo, porque se o fizer, não haverá mais lugar para novidades e surpresas. E eu AMO surpresas!!!!!
VIVA A PRAÇA CENTRAL!!!!!!

NOITE DE FÚRIA ASSASSINA

Foi ontem. Ataquei. Abri as entranhas, retirei todos os órgãos. Fiz uma lipo, removi todos os excessos. Tudo com minhas próprias mãos.
Quando acabei, já perto de meia-noite, os restos encheram uma sacola imensa (daquelas de carregar edredom) e mais duas bem grandes. Roupas e sapatos suficientes para uma família inteira.
Exato. Ataquei meu closet. Com fúria assassina. Tirei lá de dentro TUDO que não uso. Sem piedade. Pra quê uma pessoa que raramente veste um robe precisa de seis? Por que guardar um casaco de couro que já perdeu o brilho e, por isso, nunca visto? E por que motivo obscuro guardar uma sandália de festa que me mata de dor nos pés e, por isso, eu não uso? Era linda, custou caro, mas… foi embora.
Não sei se sou a única, mas esse tipo de arrumação me dá um bem-estar imenso. Eu me renovo nessas horas. As roupas mais bonitas, mais novas, aparecem mais, não ficam escondidas atrás de outras mais velhas e menos bonitas.
Acordei hoje animada, pronta para me servir do closet organizado. Antes de me levantar, li na minha Bíblia um versículo que fala de um aspecto do que aconteceu ontem: 
“Como está abandonada … a cidade da minha alegria!”.
Acredito que Deus, ao criar o ser humano, planejou uma vida de alegria. No entanto, muitas vezes, com o passar do tempo, vamos abandonando a nós mesmos (o closet abandonado não passa de sintoma de algo maior). Esquecemos de cuidar de nós, de investir em nosso bem-estar, em nossa felicidade. É como se dispensássemos o jardineiro e o mato fosse tomando conta dos canteiros que um dia plantamos com o maior carinho. Viramos a cidade de Damasco, abandonada, sem alegria.
O abandono pode ser físico, emocional, espiritual. Simplesmente deixamos de cuidar de nós mesmos. Nada de alegria de viver, só uma sobrevivência pesada.
Não pretendo, jamais, abandonar a cidade que sou. Até hoje, tenho cuidado dela de forma razoável. Apesar de chuvas e trovoadas, de algumas enchentes, depois que passa eu vou lá e conserto os danos causados. Crio formas de evitar que as mesmas tragédias voltem a ocorrer. E, assim, vou arrumando armários e emoções, me exercitando e estudando, começando coisas novas e colocando pontos finais nas coisas acabadas.
Taí, é gostoso cuidar da cidade da alegria!!!!!