JACK – Filmes descartáveis

Robin Williams atuou em tantos filmes de sucesso!  Sociedade dos Poetas Mortos. Gostei. “Captain, my captain.” Os garotos todos em pé em cima da mesa no final. Aqui entre nós, bem previsível, certo?

Hook. Amei. De advogado almofadinha a Peter Pan. Resgatando ao final o relacionamento com os filhos. Sintomaticamente, não é dos prediletos da crítica.

Uma Babá Quase Perfeita. Penso que filme ou é todo fantasia ou é mais real. Um homem se vestir de velha todos os dias e conseguir enganar a ex-esposa e os filhos? Considero inverossímil.

Aliás, ser verossímil é uma característica essencial em qualquer história, para mim. Pode ser fantástica. mas tem que ser lógica dentro da fantasia. Explico. Minhas filhas gostavam muito da série Smallville, que tratava da adolescência do Super-Homem. Eu não seguia a série, via apenas alguns pedaços ao dar uma paradinha na sala enquanto elas assistiam. A história do Super-Homem, segundo meu conhecimento, é que seu planeta ia ser destruído, então seus pais o colocaram em uma nave e o enviaram para a Terra, para ele não morrer. Por ser de outro planeta, ele tinha super-poderes aqui. Fantasia, mas há lógica na história. Causa e efeito. Só que, nos pedaços da série que eu via, os habitantes da cidade também tinham superpoderes. Nem sei quantas vezes falei:

– Mas por que essa aí tem esses poderes? Não tem lógica, ela é humana!

Minhas filhas, na suprema ironia da adolescência, respondiam:

– Mãe, isso é SMALLVILLE, não tem que ter lógica.

Eu explicava toda a teoria da verosimilhança na literatura, nas obras de ficção, mas elas nem ouviam, claro. Até que, um dia, uma delas me contou:

– Quando a nave que trazia o Super-Homem caiu na cidade, a radiação se espalhou e afetou as pessoas. De vez em quando elas têm superpoderes por causa da radiação.

Ah, agora, sim! Explicado o fato com uma relação lógica, eles podem ter todos os poderes que os autores desejarem.

A história do pai e ex-marido que engana todo mundo se passando por babá velha não me convence. Pode até ser num primeiro momento, mas, durante semanas, como no filme, não engulo. Não me parece verossímil.

Os dois filmes de Robin Williams que mais me agradam não são muito aclamados pela crítica, claro (se quiser entender essa peculiariedade, leia minha página A Cinéfila): Jack e Jumanji. O segundo trata do tema recorrente em meus filmes prediletos: a chance de voltar no tempo e fazer tudo diferente. Engraçado, eu não tenho essa vontade. Por que será que gosto tanto de filmes com essa temática? Será um desejo inconsciente? Acho que não. Já fiz terapia suficiente para saber que não tenho, mesmo, vontade de mudar toda minha vida, de refazer tudo.

Jack, porém, não fala de voltar no tempo. Pelo contrário, dá aos pais a percepção constante do que ninguém quer ver: o filho cresce e envelhece em ritmo alucinante. A mãe está com pouco mais de dois meses de gravidez quando o bebê nasce. Ele cresce num ritmo assustador, e os médicos constatam que o corpo dele envelhece quatro vezes mais rápido do que o das outras pessoas. A mãe o fecha em casa, para evitar que as outras crianças o critiquem. Dá a ele a vida perfeita, se dedica inteiramente a ele. Mas o Jack quer bater asas. Quer ir à escola, ter amigos, ser uma criança normal. Ele e o pai acabam convencendo a mãe a deixá-lo bater as asas.

Aos 17 anos, com aparência de 80, ele termina o ensino médio. Sai com amigos para celebrar. Os pais ficam olhando, num misto de alegria e tristeza. Claro que ele não conseguirá terminar o curso superior. O corpo dele não vai resistir.

Esse filme me comove muito. Identifico-me profundamente com a mãe que deseja poupar seu filho de todos os sofrimentos e decepções, que procura criar para ele um mundo tão maravilhoso dentro de casa que o leve a querer ficar sempre ali. Ao mesmo tempo, sinto a dor dela ao ver o filho crescer e envelhecer naquele compasso acelerado. Não é isso que todas sentimos? Por mais que o crescimento de nossos filhos seja lento, um dia após o outro, um ano após o outro, sempre parece que eles estão avançando em velocidade supersônica. Quantas vezes repetimos:

– Passou tão rápido! Parece que foi ontem!

O filme apresenta de forma literal o que se passa no meu coração. Garanto que meus filhos cresceram e viraram adultos numa velocidade quatro vezes mais rápida do que a dos outros filhos. Se não é assim, por que, então, eles ficaram adultos tão rápido? Por que eu que, outro dia mesmo, ansiava por alguns momentos de solidão, hoje passo a maior parte do dia sozinha? Como é que, ainda me sentindo tão “verde”, já tenho um homem e duas mulheres me chamando de mãe?

É, o Jack não envelheceu mais rápido do que os outros filhos, não. Todos, aos olhos das mães, envelhecem rápido demais.

Pode isso, Arnaldo?

Pode isso, Arnaldo?

Parece que foi ontem...

Parece que foi ontem…

EDUARDO E AMARILDO

Acordei tranquila hoje. De repente, lembrei-me da tragédia acontecida ontem e orei pela família que estava acordando para o sofrimento. O sono nos anestesia. Ao despertar, entretanto, o choque da dor vem com uma força redobrada.

Desde que fiquei sabendo da morte de Eduardo Campos eu penso na mãe, na esposa e nos filhos. Uma casa cheia de gente a chorar. De crianças a chorar. Tenho certeza de que até o bebê está abalado, sentindo o ambiente à sua volta. Com certeza chora mais do que de costume, está inquieto.

Imagino como deve ter sido a noite deles. Será que a família é daquelas que se junta num montinho? Será que foram todos dormir na cama dos pais? Talvez sejam daqueles que gostam de se isolar, e cada um foi para seu quarto, chorar sua dor. Alguém deve ter chamado um médico para atender uma das crianças, ou a mãe, ou a esposa. Mesmo que não tenha sido necessário medicar ninguém, é certo que havia um médico por perto.

A morte desse pai de família tem desdobramentos importantes no país. Admirei a postura de todos os repórteres e jornalistas que ouvi e li. Muito respeitosos, evitando ofender ou magoar a família, mas o fato é que a pergunta precisa ser feita: como vai ficar agora a campanha presidencial? A família precisará aceitar os debates que acontecerão nos próximos dias e que já estão acontecendo, certamente, a portas fechadas.

Henrique, meu irmão, escreveu em seu blog: “Sinto saudades do que essa campanha com ele poderia ter sido” (Um Breve Encontro com Eduardo Campos). É, estamos com saudade do que poderia ter sido.

Voltando aos filhos que deveriam estar acordando e retomando o choro pela morte do pai, eu me dei conta de que isso acontece todos os dias. A cada manhã filhos, esposas, mães e pais acordam e choram a falta de um amado que se foi. E me lembrei de Amarildo, o pedreiro, pai de seis filhos, que morava na Rocinha e foi morto. Pensei na família desesperada, nos filhos amontoados em um barraco, sem a opção de ir para um canto sofrer sozinhos. A esposa não teve médico à disposição. Sei que vizinhos, parentes, amigos, devem ter aparecido e isso só aumentou a carga emocional por causa do pouco espaço da “residência” da família. Os jornais só começaram a falar na tragédia depois que o pr. Antônio Carlos, da ONG Rio da Paz, botou a boca no trombone. Um ano após a morte, a esposa enfrenta problemas com alcoolismo e depressão, numa reação extremamente natural para quem perdeu o marido e ficou sozinha com seis filhos para criar, sem toda a estrutura de apoio que a esposa de Eduardo Campos terá. Essa estrutura não acaba com a dor, claro. Ajuda muito, contudo, a aliviar o peso da carga que a viúva tem que levar sozinha, que, antes, era dividida com o marido.

Na minha opinião, o único caminho para evitar o hiato que separa as duas viúvas é o Estado fornecer ensino de qualidade, que proporciona oportunidade para que todos prosperem. E aí, mais uma vez, a perda de Eduardo Campos me enche de pesar. Ele zelava pelo ensino público. Governador de Pernambuco, fazia questão de conversar por telefone – ele mesmo, não delegava a assessores – com diretoras das escolas, para saber o que estava faltando, de que forma seu governo poderia ajudar mais, aprimorar a qualidade do ensino público.

Até hoje nosso país não teve presidente com tal zelo pelas escolas. De nenhum partido político. Gosto de estudar história do Brasil, e sei que nunca houve esse tipo de interesse com o ensino público. Um esforço aqui, um retoque ali, mas o ensino nunca foi a prioridade máxima. E só ele vai diminuir a separação entre os Eduardos e Amarildos.

Termino com a frase de Eduardo Campos: “No dia em que os filhos do pobre e do rico, do político e do cidadão, do empresário e do trabalhador, estudarem na mesma escola… nesse dia o Brasil será o país que queremos”. Foi isso que perdemos, é disso que sinto saudade…