ISSO ME LEMBRA ALGUÉM…

Fala sério, eu fico de cara com a reação de muitos “cristãos” diante da morte de pessoas como Whitney Houston. E, antes de prosseguir, preciso deixar muito claro que sou cristã de carteirinha. Não evangélica, das igrejas da moda (não estou depreciando), mas protestante de denominação histórica, daquele tipo que é considerada retrógrada e de mente fechada (discordo com veemência disso e penso o mesmo dos que pensam isso de nós – eles não nos conhecem nem querem conhecer).
Numa pseudo-tentativa de mostrar aos outros os perigos de drogas, bebida e vida desregrada, esses “cristãos” a que me refiro deixam por completo de lado a segunda principal ordem que Jesus deu a quem quisesse segui-lo: amar os outros como a nós mesmos. Duvido que uma dessas pessoas que expõe fotos da cantora horrorosa, desarrumada e descabelada gostaria que alguém fizesse o mesmo com elas.
Todos erramos. Todos temos vícios e desvios de comportamento. Alguns ficam visíveis, outros permanecem escondidos. E nós, que conseguimos manter nossos pecados debaixo do pano, apontamos o dedo para quem os revela publicamente. Isso me lembra alguém… quem será?
Whitney Houston era linda. Voz maravilhosa, fala suave. Conhecia a Jesus, fato que ela mesma declarou em muitas ocasiões. Mas não conseguia vencer o vício. Com certeza, lutou e sofreu muito por causa disso. E as pessoas usam a morte dela para tripudiar, tendo, como motivação mais íntima, em minha opinião, a vontade de exaltar sua própria retidão. Isso me lembra alguém… quem será?
Vejo, no meio dos que se declaram religiosos, ou “crentes”, uma certa celebração da morte de uma pessoa que eles consideram pecadora, indigna de fazer parte do seleto grupo de “servos de Deus”.  Isso me lembra alguém… quem será?
Ah, lembrei! Aliás, Jesus pegou pesado com essa gente. Chamou de túmulos enfeitados, de fingidos, de cobras, falou que eles não entendiam absolutamente nada do que significa seguir um Deus de amor. Não estou falando dos viciados do tempo de Jesus. A esses ele estendeu a mão, foi visitar, curou, demonstrou amor. Os que ele confrontou foram os religiosos, os que se achavam certinhos e apontavam o dedo acusador para os pecadores. Aliás, pegou tão duro com esse pessoal que acabou pregado na cruz.
A morte da cantora apenas me faz pensar nisso mais uma vez. Contudo, esse tema é recorrente em minhas reflexões, em especial depois do crescimento do Facebook, onde leio cada coisa escrita por “religiosos” que me deixa de queixo caído.
Clarice e Rodrigo estiveram em um show de Whitney Houston, onde ela falou abertamente de suas lutas, e de como Jesus a pegou no colo no momento em que estava afundada na lama. Ela morreu, provavelmente, por overdose. No entanto, o amor de Jesus estava com ela, com certeza. Os mesmos que repetem que NADA nos separa do amor de Cristo comentam o fato tão triste como se o texto não se aplicasse a ela. Ninguém sabe qual era o relacionamento dela com Jesus. Ninguém pode dizer o que aconteceu depois que ela deixou este mundo. Ninguém é capaz de avaliar as lutas e dores que ela enfrentou durante sua vida, nem as pessoas mais chegadas, quanto mais nós, que recebemos notícias apenas através da imprensa, que distorce e inventa fatos. Talvez, a morte dela, tenha sido a forma que Jesus encontrou para dar fim a uma luta em que ela não conseguia vitória: “Chega de sofrer, Whitney! Vem agora cantar aqui comigo!”.
Com toda certeza, havia pessoas com a vida destruída como a da cantora no tempo de Jesus. Mas ele não as usou como exemplo para tentar convencer outros com os mesmos problemas a chegarem perto dele. O que ele fez foi amar quem estava no meio da luta. E, infelizmente, isso me lembra muito pouca gente…

AS MARCAS QUE FICAM – Uma homenagem a Jairo Marçal

Infelizmente, é fato do qual ninguém escapa: nascemos, vivemos e morremos. Também é fato que todos deixamos marcas na vida dos que ficam depois que partimos.
Hoje, ao abrir a janela, contemplei mais uma vez meu pé de acerola. Carregadinho. No almoço, tomei suco – delicioso! Meu sogro nos deu a muda da árvore há cerca de 18 anos, antes de começarmos a construir nossa casa. Ele se foi, mas a árvore nos faz lembrar sempre do carinho dele.
Tenho outra planta com história. Minha avó paterna deu para minha avó materna uma planta muito linda. As duas morreram, tia Celina ficou com a planta. E me deu uma muda, que sobre pelo muro perto da piscina.
Há outras marcas, não só plantas, claro. Tenho um dicionário de inglês Webster que pertenceu a meu avô materno, que eu mal conheci. E herdei um monte de livros da minha avó materna.
E existem as marcas que não são vistas, estão apenas no coração e na mente. Eu poderia desfiar aqui uma sequência quase infinita desses sinais deixados por pessoas que amo e que já partiram, mas hoje eu quero lembrar de uma pessoa muito especial – Jairo Marçal.
Ele chegou a Brasília no início da década de 80, e logo se entrosou em nossa igreja. Tinha voz muito linda, e amava nosso Coral. Os dois filhos fizeram amizade com nossas crianças, Denise, a esposa, mais tímida, foi chegando mais devagar, mas também ocupou sua parte em nosso coração.
Jairo era muito engraçado. No Coral, ele cantava tenor e implicava com o contralto (eu sou contralto). Vivia dizendo que se tirassem nossa voz do Coral, não faríamos falta nenhuma. No Aleluia de Haendel, ele cismou com uma entrada do contralto, em que cantávamos a sílaba “pa” antes de todo o restante do Coral. E ficava falando no maravilhoso “pa do contralto”.
Equilibrado, calmo, estudioso, muito inteligente e preparado, Jairo era excelente para dar aulas, para fazer palestras. Pena que era muito tímido… não pudemos aproveitar esse seu lado tanto quanto gostaríamos. Mas, quando ele abria a boca para falar sério, sempre tinha coisas importantes para dizer. Sabia brincar e também ensinar.
Durante os anos 80 e parte dos anos 90, nossa igreja foi tomada por uma febre de jogar totó. Acabava o culto e o salão ficava repleto de gente jogando e torcendo. Jairo era dos mais entusiasmados. Era secretário do Coral, e, assim que o culto terminava ele tinha que guardar todo o material usado. Como o esquema para o jogo era de “próxima”, ele escondia a bolinha no jogo, e só entregava se pudesse fazer parte de uma das primeiras duplas. Era comum a gente ver o Jairo correndo pelo corredor, segurando a beca para não tropeçar, carregando as pastas do Coral, e gritando:
– Próóóóóóóóóóxxxxxiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A voz dele era muito linda. Na primeira montagem que fizemos do Printy, ele foi o violão. Na segunda, foi o filho dele, o Dálcio. Aliás, um dos momentos musicais mais belos de que me lembro em nossa igreja foi um dueto que eles fizeram, na cantata Natal dos Anjos. Em outro Natal (Cantata Rei dos Reis, a mesma que cantamos no Natal passado), o Coral dizia: “E o anjo, então, lhe falou”, e entrava o solo do anjo. Só que o solista estava inseguro, então o regente colocou o Jairo para cantar com ele. E o Jairo dizia que o Coral tinha que dar um jeito de cantar: “E o anjo e seu amigo, então, lhe falaram”.
O Jairo partiu. Mas deixou comigo a marca de sua humildade, mansidão, de seu humor, de sua dedicação à família e a Deus. Deixou a marca da integridade, da honestidade, do trabalho sério. Ele levava a sério todas as tarefas, por mais insignificantes que parecessem. Exemplos que jamais esquecerei.
A saudade é grande, mas já vinha grande há muito tempo, desde que ele adoeceu e foi se desligando desta vida. Hoje, ele está cheio de vida, cantando com o Ernesto, o seu Grossi, o seu Oseas, a dona Elvira e tantos outros de nosso Coral que já se foram. Talvez, mais tarde, eles joguem uma partida de totó… se o Jairo não esconder a bolinha.