CADEIRA DE RODAS VERMELHA

Comecei cedo minha carreira de viagens que muitos acham que não se deve fazer. Serginho tinha dois meses. Fui de carro com ele para a praia. Em Santa Catarina. Sem qualquer problema, a não ser o tamanho da bagagem. Nem ter gêmeas me deteve. Continuei na minha dedicação quase insuperável às viagens. A vez em que mais me contestaram foi quando as levei para um mês na neve, com apenas 3 anos e crises frequentes de bronquite. Todas as viagens foram deliciosas, bem sucedidas. Posso dar aulas sobre o tema.

Agora, papai com tanta dificuldade de locomoção e aqui estamos nós, em New York. Isso mesmo. Ele não consegue andar muito, mas viemos assim mesmo. Posso sentir as cabeças balançando em reprovação só de digitar isso. Até ele achou que não daria certo. Relutante, pensou que ia incomodar, que não seria gostoso. Achou inclusive que não tinha vontade de voltar a NY. A impressão acabou quando o avião passou por Manhattan para pousar no La Guardia e ele viu os prédios mais famosos. Chegamos à noite, estava tudo lindo iluminado.

Para uma viagem bem sucedida com crianças, ou idosos, ou qualquer outra pessoa, de qualquer idade, sexo ou religião, o elemento essencial, que não pode faltar de jeito nenhum, é o bom humor. Na hora da dificuldade, a reação tem que ser uma boa gargalhada. Se não for, a viagem é um terror. Ontem, por exemplo. Viemos de dia. Muito melhor para o papai. Ele sentou na poltrona à janela, e veio contemplando tudo de cima. A certa altura, precisava ir ao banheiro. Eu e mamãe nos levantamos, suspendi os braços das poltronas e ele começou a tentar se mover. Não conseguia se arrastar nem um milímetro. Reclamamos que o tecido da calça estava agarrando no assento da poltrona. Eu me ajoelhei na cadeira da mamãe e comecei a puxar o papai, mas ele não saía do lugar. Fazíamos força os dois e… nada. Até que ele descobriu que estava com o cinto afivelado. Eu… caí na gargalhada. Se desse uma bronca nele, ou se ele ficasse aborrecido, teríamos um problema. Mas rimos. A história ficará gravada como um momento gostoso, e não uma briga. Por isso o bom humor é essencial.

Bem, hoje de manhã, liguei para uma empresa de aluguel de cadeira de rodas. Ficaram de entregar aqui no hotel. Estavam demorando, Clarice ligou para lá e resolvemos ir buscar. A loja é aqui pertinho. Chegando lá, acabamos resolvendo comprar uma cadeira. Bem leve, dá para a gente carregar só com uma das mãos, por umas alças no assento. Dobra o encosto, e fica de um tamanho bem pequeno, levando-se em conta que é uma cadeira de rodas. Demoramos bastante para voltar, mas, chegando ao hotel, Clarice anunciou:

– Demoramos porque compramos três coisas: uma coca, um hot dog e uma cadeira de rodas.

É bem bonitinha, vermelhinha. E já rodou uns mil quilômetros hoje. Foi até a Times Square Church. Como primeira excursão, a cadeira escolheu o culto. Bem, ela queria ir ao das 3 da tarde. Enquanto passava na porta do Olive Garden, começou a ameaçar chuva, teve até alguns pingos. E ela resolveu ir almoçar primeiro e deixar para ir ao culto das 6. Sábia decisão. A cadeira e seus acompanhantes gostaram demais do culto. Música maravilhosa, testemunhos lindos! Deu tudo certo. A cadeira ficou satisfeita.

Agora ela precisa descansar, porque amanhã vai ser pauleira de novo. Albiléo e suas escudeiras  não dão sossego para a coitada da cadeira. Acho que até ir embora de New York ela terá rodado o  suficiente para dar a volta ao mundo.

Espero fazer muitas viagens com minha irmãzinha Cadeira Moraes Ziller. Ela é gente boa. Nos entendemos bem. Um bom começo.

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