EDUARDO E AMARILDO

Acordei tranquila hoje. De repente, lembrei-me da tragédia acontecida ontem e orei pela família que estava acordando para o sofrimento. O sono nos anestesia. Ao despertar, entretanto, o choque da dor vem com uma força redobrada.

Desde que fiquei sabendo da morte de Eduardo Campos eu penso na mãe, na esposa e nos filhos. Uma casa cheia de gente a chorar. De crianças a chorar. Tenho certeza de que até o bebê está abalado, sentindo o ambiente à sua volta. Com certeza chora mais do que de costume, está inquieto.

Imagino como deve ter sido a noite deles. Será que a família é daquelas que se junta num montinho? Será que foram todos dormir na cama dos pais? Talvez sejam daqueles que gostam de se isolar, e cada um foi para seu quarto, chorar sua dor. Alguém deve ter chamado um médico para atender uma das crianças, ou a mãe, ou a esposa. Mesmo que não tenha sido necessário medicar ninguém, é certo que havia um médico por perto.

A morte desse pai de família tem desdobramentos importantes no país. Admirei a postura de todos os repórteres e jornalistas que ouvi e li. Muito respeitosos, evitando ofender ou magoar a família, mas o fato é que a pergunta precisa ser feita: como vai ficar agora a campanha presidencial? A família precisará aceitar os debates que acontecerão nos próximos dias e que já estão acontecendo, certamente, a portas fechadas.

Henrique, meu irmão, escreveu em seu blog: “Sinto saudades do que essa campanha com ele poderia ter sido” (Um Breve Encontro com Eduardo Campos). É, estamos com saudade do que poderia ter sido.

Voltando aos filhos que deveriam estar acordando e retomando o choro pela morte do pai, eu me dei conta de que isso acontece todos os dias. A cada manhã filhos, esposas, mães e pais acordam e choram a falta de um amado que se foi. E me lembrei de Amarildo, o pedreiro, pai de seis filhos, que morava na Rocinha e foi morto. Pensei na família desesperada, nos filhos amontoados em um barraco, sem a opção de ir para um canto sofrer sozinhos. A esposa não teve médico à disposição. Sei que vizinhos, parentes, amigos, devem ter aparecido e isso só aumentou a carga emocional por causa do pouco espaço da “residência” da família. Os jornais só começaram a falar na tragédia depois que o pr. Antônio Carlos, da ONG Rio da Paz, botou a boca no trombone. Um ano após a morte, a esposa enfrenta problemas com alcoolismo e depressão, numa reação extremamente natural para quem perdeu o marido e ficou sozinha com seis filhos para criar, sem toda a estrutura de apoio que a esposa de Eduardo Campos terá. Essa estrutura não acaba com a dor, claro. Ajuda muito, contudo, a aliviar o peso da carga que a viúva tem que levar sozinha, que, antes, era dividida com o marido.

Na minha opinião, o único caminho para evitar o hiato que separa as duas viúvas é o Estado fornecer ensino de qualidade, que proporciona oportunidade para que todos prosperem. E aí, mais uma vez, a perda de Eduardo Campos me enche de pesar. Ele zelava pelo ensino público. Governador de Pernambuco, fazia questão de conversar por telefone – ele mesmo, não delegava a assessores – com diretoras das escolas, para saber o que estava faltando, de que forma seu governo poderia ajudar mais, aprimorar a qualidade do ensino público.

Até hoje nosso país não teve presidente com tal zelo pelas escolas. De nenhum partido político. Gosto de estudar história do Brasil, e sei que nunca houve esse tipo de interesse com o ensino público. Um esforço aqui, um retoque ali, mas o ensino nunca foi a prioridade máxima. E só ele vai diminuir a separação entre os Eduardos e Amarildos.

Termino com a frase de Eduardo Campos: “No dia em que os filhos do pobre e do rico, do político e do cidadão, do empresário e do trabalhador, estudarem na mesma escola… nesse dia o Brasil será o país que queremos”. Foi isso que perdemos, é disso que sinto saudade…

UM NATAL MÁGICO – Filmes descartáveis

Assisti ontem um dos filmes mais descartáveis de que tenho notícia. Um Natal Mágico. Gosto muito da atriz que faz o papel principal, Mary Steenburgen. O filme foi lançado em 1985, ela ainda em início de carreira. Atuaria, depois, em filmes de melhor qualidade, mas, naquela época, creio que aceitava qualquer roteiro que aparecesse pela frente.

O enredo faz uma misturada esdrúxula. Papai Noel não tem duendes. Quem trabalha para ele são pessoas boas que morreram e viraram anjos de fazer brinquedo. De vez em quando, porém, Papai Noel dá a uma dessas pessoas a missão de ajudar alguém que precisa. Os anjos têm poderes sobrenaturais, enquanto que a magia do coitado do Papai Noel se limita a conseguir entregar todos os presentes em uma única noite. Ou seja, os subordinados são mais poderosos do que o chefe.

Mary interpreta Ginny, uma caixa de supermercado cujo marido sonhador está desempregado e quer abrir uma loja de consertar bicicleta. Eles precisam se mudar, porque moravam em uma casa da empresa, era moradia funcional. Como o marido foi demitido, precisam entregar a casa. Ele curte o Natal, ela é pé no chão demais, não consegue esquecer os problemas durante as festas. Trata-se, na verdade, da mesma história de O Feijão e o Sonho, só que Orígenes Lessa abordou o tema com uma excelência ausente no filme.

Ciente da situação difícil de Ginny, Papai Noel envia um de seus anjos, Gideon, para ajudar a família. O anjo entra em contato com Abbie, a filhinha de Ginny, e os dois entram em ação para resgatar o sentimento natalino.

Na véspera de Natal, o marido de Ginny é assassinado em um assalto. Depois de algumas reviravoltas bem bobinhas, Ginny declara:

– Eu acredito em Papai Noel.

Nesse momento, ela recebe a oportunidade que me faz gostar do filme. Aquilo que todos desejamos, com que todo mundo que já perdeu algum ente querido sonha: o tempo volta para antes da morte do marido. De repente, lá está ele, vivinho da silva. Sabendo de tudo que iria acontecer, ela muda as ações que aconteceriam no dia seguinte e impede o assassinato, ajudando o criminoso antes de ele cometer o crime.

Esse descartável me faz pensar em como deixamos escapar as boas coisas da vida. Quando o tempo volta, Ginny passa a agir de forma completamente diferente. Prepara o Natal com alegria, compra presentes, não só passa a compartilhar o sonho do marido com a loja de bicicletas, como abre mão do pouco dinheiro que tinha guardado para ajudá-lo a realizar o que queria.

Na verdade, não temos como saber o futuro. E não podemos viver o tempo todo pensando na morte. No roteiro do filme, ela impediu a tragédia quando passou a agir como deveria ter agido desde o início.

Jesus falou: “Vim para vocês terem vida em abundância”. Entendo essa vida em abundância sob a perspectiva de desfrutar das coisas boas que estão ao nosso redor, a começar pela família. Ginny havia perdido a capacidade de apreciar a felicidade de ter filhos e marido à sua volta, de celebrar isso a cada dia. Muitas vezes acontece conosco. Tão imersos em problemas, acabamos nos esquecendo do essencial, dessa vida em abundância que não tem nada a ver com abundância de recursos materiais. Claro que dinheiro ajuda muito a poder curtir a vida, mas não é a essência.

Na manhã em que acorda depois que o marido reviveu, Ginny está animada, feliz, conversando com os filhos. Nada mudou. Ela continua caixa do supermercado, ele continua desempregado, eles ainda terão que se mudar no dia seguinte. Só uma coisa mudou: os olhos dela foram abertos para o que é importante, para o que ela tem de mais precioso, para aquilo que não quer perder de jeito nenhum.

Sabe aquele dia em que você está com vontade de não pensar em nada e de ver alguma coisa com final feliz, mesmo que improvável? Vá lá no Google, digite Natal Mágico Mary Steenburgen e assista. Garanto que vai se divertir, nem que seja rindo com a péssima qualidade do filme. Mas, quando acabar de rir, pense em como é importante valorizar as pessoas que amamos, apoiar os sonhos delas, trabalhar para que sejam felizes.