A Estrada

Algumas estradas são muito entediantes. Aquelas que são uma reta que parece infinita. Em minha infância e adolescência, íamos, pelo menos duas vezes por ano, de Brasília a São Paulo. A estrada inteira é muito boa, sem grandes variações de relevo. No entanto, os cerca de 100km entre Uberlândia e Uberaba são de matar qualquer um de tédio. Trata-se de um trecho sem curvas. Pode-se dizer que é uma reta só. Eu sempre dormia entediada nesse pedaço, mas minha mãe, que não dormia no carro, sempre reclamava. Depois que passei a viajar no banco da frente, com o Sérgio dirigindo, entendi o que ela dizia.

Fazendo contraste completo, existem estradas que parecem ser apenas curvas. Um exemplo é a que cruza a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina. É simplesmente maravilhosa. Acredito que nem eu seria capaz de dormir durante o percurso. Nem mesmo com toda a minha quase infinita capacidade de dormir em viagens.

A primeira estrada que mencionei é entediante, a segunda é empolgante, linda! Nunca sabemos o que nos espera depois da próxima curva. A cada volta o cenário muda, enxergamos novos aspectos.

O mesmo acontece na vida de cada pessoa. Se tudo permanecer como sempre foi, não haverá lugar para beleza e surpresa. Às vezes, em uma estrada reta, ou uma vida sem grandes emoções, as pessoas acabam se voltando para distrações doentias, porque ninguém foi criado para o tédio. A criatura humana não consegue viver sem as “curvas” em sua estrada. A minha tem sido repleta de curvas acentuadas. Lembro-me de muitas, e vou compartilhar algumas.

A primeira que me vem à mente é o nascimento de meu irmão. Com certeza meu caminho mudou ali. Minha mãe contava que não voltei a permitir que ela me vestisse ou desse banho. No entanto, não me recordo, de forma que a primeira que descrevo é a mudança de Belo Horizonte para Brasília. Envolveu grande perda, já que deixamos lá toda a família. Meu avô materno já havia falecido, porém as avós e o vovô Ziller moravam em BH. Tios, tias, primos e primas de monte. Quando viemos para Brasília, tio Adelchi nos trouxe, pois papai já morava aqui, com dois de meus primos, cujos pais vieram mais tarde. Eles eram rapazes, não crianças, de modo que os nossos companheiros de brincadeira ficaram lá, do outro lado da curva. Essa parte me trouxe sofrimento. Parecia que o trecho que se vislumbrava adiante seria ruim, mas não foi isso que aconteceu. Admiro a coragem de meus pais. No ano de 1962, Brasília tinha apenas 2 anos! Havia poucas quadras construídas. Por isso ficamos em BH e papai veio antes. Esperamos nosso apartamento ficar pronto. Acho que nunca vou me esquecer do encantamento que senti ao entrar nele e ver como era grande e lindo. Bons armários em todos os quartos, duas salas grandes, dois banheiros (nunca tinha visto uma suíte!), cozinha com duas pias e bancadas de mármore bem branquinho, área de serviço espaçosa com uma mesa também de mármore branco, dependências de empregada com banheiro e quarto mais espaçosos do que o da maioria dos apartamentos que vejo hoje. Tudo muito diferente do que tínhamos em Belo Horizonte. Ao descer do apartamento, havia o “embaixo do bloco”, maravilha das crianças desta cidade. Ali brincávamos de tudo. Atrás de nosso prédio ficava a escola onde tínhamos as aulas curriculares. Ao lado, a Escola Parque. Até hoje não encontrei “contraturno” que se compare ao que recebemos nessas escolas públicas. Na Escola Parque, tive aulas de artes plásticas, artesanatos variados (tapeçaria, cerâmica, tricô, madeira, por exemplo), tempo na biblioteca, francês, teatro, música, balé. Realmente, uma vida de sonho.

Como tudo que é bom vira rotina rapidamente, comecei a seguir por uma estrada reta. Até que chegou nova curva, quando eu tinha 15 anos. Houve outras menos fechadas antes, contudo essa a que me refiro me marcou muito. Quando estava com 9 anos, recebi um presente: uma irmãzinha linda. Era rosada, delicadinha, meiga. Eu era muito obediente e minha mãe falou que eu não podia pegá-la no colo. Eu queria tanto mimar aquela bebê, mas minha mãe era rígida e não permitia. Todavia, a gente cresce. Eu tinha 15 anos quando nossa caçula nasceu. Ela veio para ser minha primeira filha. Não que minha mãe deixasse que eu assumisse todos os cuidados com ela. Jamais! Ainda assim, eu tinha deixado de pedir autorização para muitas coisas, e vivia com ela no colo. Na verdade, acho que fui a única pessoa que curtiu plenamente a chegada dela. Comecei a me sentir responsável. Levava comigo para o colégio, fazia as vontades dela, estimulava como podia a criatividade, levei para furar as orelhas, para cortar o cabelo, para isso e aquilo. Logo me adaptei e a estrada ficou reta de novo. A aí…

Comecei a namorar. Ela, com 5 anos, sentia ciúme. Acho que, como todos, percebeu logo que a coisa era séria. Eu, com 21 anos, namorei apenas durante um ano. Na verdade, quando completamos um ano de namoro já estávamos em lua de mel. Foi uma curva bem acentuada. Eu sempre tinha morado no Plano Piloto, em quadras nobres, como se diz aqui em Brasília. Nossa vida financeira era bem tranquila em casa. Papai não era milionário, no entanto tinha um bom salário, se aposentou e passou a trabalhar em outro emprego, de modo que, podemos dizer, nadávamos de braçada nesta área. Só me lembro de papai me dizer que não tinha dinheiro uma vez. Tanto ele quanto eu quase choramos. Ele estava construindo uma casa, que ficou muito mais cara do que esperado, claro. Bem, não vem ao caso, deu para entender a situação. Eu não trabalhava, Sérgio não ganhava muito. O contato com o dinheiro contado foi, para mim, um soco no estômago. Não foi fácil. Sérgio fechou questão: tínhamos que comprar um apartamento. Havia três opções: o meu preferido, na Asa Norte, um bonitinho no Guará (cidade satélite) e outro bem simples, também no Guará. Nossos recursos mal dariam para pagar o último. O primeiro seria entregue dois meses antes do casamento. Contrariada, precisei aceitar que o apartamento mais feinho era o mais adequado. Minha mãe não ajudou. Quando foi visitar, antes de comprarmos, comentou que o apartamento todo caberia dentro do meu quarto. Não é exatamente verdade, mas era, mesmo, bem pequeno. E fora do Plano Piloto. Foi difícil pagar aquele apartamento, e jamais teríamos conseguido pagar os outros. Além disso, o da Asa Norte, que eu queria, ficou pronto um ano depois do nosso casamento. Se tivéssemos comprado aquele, teria sido necessário alugar outro para vivermos durante esse tempo. Graças a Deus por meu marido e seu pé no chão!

Na semana em que eu e Sérgio começamos a namorar, minha melhor amiga teve seu primeiro filho. Fiquei encantada com ele desde o primeiro momento. Assim, a estrada nem tinha ficado reta ainda quando veio a curva seguinte: pouco mais de um ano após o casamento nasce meu filho. Pensa numa curva mais do que fechada. Ao chegar com ele em casa, coloquei na cama e entendi que estava presa para o resto da vida. Sempre dei muito valor à minha liberdade, e senti que jamais seria livre novamente. Aquele bebê dependia de nós, teríamos que fazer tudo por ele. Depois, ele cresceria e partiria, porém, levando sempre nossos corações. Ele podia sumir, e ainda assim, o sofrimento pela ausência dele seria uma “cadeia”. Não era ruim, era maravilhoso, meu filho era perfeito, inteligente, engraçado, obediente. E levou embora minha liberdade.

Eu trabalhava no Banco do Brasil. Com três filhos, meu maior desejo era poder cuidar deles em tempo integral. Assim aconteceu. Chegou a oportunidade, eu a aproveitei e, numa curva bem agradável, deixei o emprego e virei mãe em tempo integral. Houve uma época em que dirigia cerca de 150km por dia, levando e buscando crianças em toda parte. Gostava muito de minha rotina. Essa curva não envolveu qualquer sofrimento. Curti de montão. Uma vez, estava conversando com minha tia e falei que gostava muito das idades em que eles estavam. Ela ouviu com atenção e depois me falou: “Mas, Cláudia, você gosta de todas as idades!”. Estava completamente certa. Hoje, eles com quatro décadas de existência, descobri que gosto muito de ter filhos de 40 anos. Sim, amo todas as idades, tia Cê!

Logo que nos casamos, eu ainda não estava no Banco e nos faltava dinheiro. Eu tinha um sonho: ser tradutora de livros cristãos. Não tinha qualquer experiência, era um sonho distante. Tentando, sem saber nem procurar orientação de quem sabia, mandei uma carta para uma editora, oferecendo meus serviços, mas não enviei currículo nem nada. Recebi uma carta educada que dizia que não precisavam de mim, estavam com todos os tradutores de que precisavam. Mais adiante, trabalhei muito com essa editora, a Betânia, e cheguei a comentar com eles que, sabendo o que aprendi depois, me surpreendo pela atenção deles de me responderem! A maioria das editoras não teria nem respondido, como não responderam quando eu já tinha um currículo bem robusto. Sim, eu me tornei tradutora. Os primeiros passos foram dados graças a meu irmão, que precisava da tradução de um livro. O autor, Eugene Peterson, é muito bem conceituado no meio cristão. Traduzi uns cinco ou seis livros dele. Depois, perdi as contas de quantos traduzi para minha amada Editora Betânia e para a Universidade da Família. Duas instituições que admiro e respeito profundamente. Foi um tempo realmente de sonho. Na porta de meu maravilhoso escritório, pendurei um quadrinho que dizia: “Aqui trabalha gente feliz”. Passei noites em claro para cumprir prazos, houve uma ocasião em que trabalhei a noite toda, às 7h da manhã tomei um banho, entrei no carro e fui para o Rio de Janeiro. Traduzi em viagens, em casa, em lanchonetes, bibliotecas. Foi um tempo maravilhoso e sinto saudade. Foi uma curva muito gostosa.

Penso a seguir em uma curva drástica. A morte do meu pai. Eu era muito ligada a ele. Nosso temperamento semelhante, pronto a rir, nos unia muito. Tínhamos várias histórias “nossas”. Por exemplo, ele me acordava todos os dias me mostrando uma corda que ficava pendurada na maçaneta do meu quarto. Pegava a corda e me cutucava. Era “a corda”. Assim, eu já iniciava o dia com uma brincadeira. Acordando à noite, eu sempre chamava por ele, que atendia logo. Até eu me casar, ele levou água para mim no meio da noite. Perdê-lo foi horrível. Desde pequena eu temia esse momento. Quando chegou, senti como se estivesse desamparada, apesar de todo cuidado que me dedicavam meu marido, meus filhos, amigos e até os cachorrinhos. Não foi uma curva bonita, nem agradável. Foi fechada demais e o novo cenário não me agradou. Aliás, toda a família entrou em uma curva desagradável e levamos bastante tempo para nos acostumarmos com a nova estrada.

Meus pais tinham o casamento dos sonhos de qualquer pessoa. Ele era bem mais velho do que ela, no entanto ela me disse que nunca tinha pensado que ficaria viúva. Aconteceu, e ela não se acostumou a morar sozinha. Meu irmão encontrou uma casa deliciosa no Lago Norte, e trocamos o apartamento dela pela casa. Eu e Sérgio fomos morar com ela. E por essa eu não esperava! Foi uma curva na hora certa. Precisávamos sair de nossa casa, que foi alugada, e fomos dividir a casa com a mamãe, no lado oposto da cidade, onde eu nunca tinha pensado em morar. Foi um tempo agri-doce. Eu e minha mãe éramos muito diferentes e, morando juntas, ela idosa e eu adulta, pudemos nos conhecer melhor, descobrir o que tínhamos em comum. Foi maravilhoso! Deixei de ser a dona da casa, função que nunca tinha me agradado mesmo. Amo ser esposa, mãe, avó, filha, irmã, tia, etc. etc. Dona de casa, porém, sempre foi complicado. Não gosto dos serviços domésticos e sou um desastre na cozinha. Então, deixar de ter essa obrigação me agradou. Ainda assim, foi complicado não ter mais uma casa controlada do nosso jeito, mais informal e mais simples. Tanto eu quanto ela tivemos que abrir mão de algumas coisas e aceitar outras. Fiquei sete anos sem ter casa. A família dizia a casa da mamãe, os amigos se referiam à casa da dona Ângela. E foi muito bom.

Até que chegou a hora da curva horrível de nos despedirmos da mamãe. Eu acreditava que a dor maior teria sido a morte do meu pai, no entanto, perder a mãe é inconcebível. Só quem faz parte do clube dos “sem-mãe” entende. É um clube sofrido, e quem entra nele sem pendências é abençoado. Foi assim que entrei. Devido aos sete anos em que moramos juntas, pudemos resolver as pendências. Mas é muito dolorido. Minha irmã fala que cortamos o primeiro cordão umbilical no nascimento e o definitivo na morte. Senti um vazio esquisito. Faz um ano e meio que ela se foi e parece que cada dia mais eu quero conversar com ela. Tenho tanto a contar, tantas coisas que ela gostaria de ouvir! Mas, também, houve o tempo de sentir alívio por ela não estar aqui, pois sofreria muito. Essa parte da estrada, depois da morte dela, foi repleta de curvas acidentadas, importunas e muito doloridas. Não quero pensar nessa parte da estrada, então vou avançar.

Sofro de depressão há muitos anos. Na verdade, minha médica afirma que nasci com depressão. Não sei se é verdade, mas reconheço em meu passado muitos momentos em que tive crises não diagnosticadas como depressão na época em que aconteceram. Passei os últimos três anos de cama. Literalmente. Viciei-me em medicamentos, sofri com a abstinência ao abandoná-los. Atravessei o vale da sombra da morte de que fala o salmista no Salmo 23. Apesar de tudo, a palavra de Deus se mostrou verdadeira: não senti medo, porque ele estava comigo o tempo todo. E, nos últimos tempos, tenho vivenciado um tempo maravilhoso: o renascimento. Desde que tive a doença diagnosticada, há mais de 20 anos, não tinha dias tão gostosos, sem ter angústia, nem mal-estar, conseguindo “fazer” coisas. Sabe o que é ter um hobby que você ama, ficar deitada na cama, imaginando o que poderia estar criando, assistindo aulas no YouTube porque não consegue “fazer” nada? Sabe o que é querer muito se exercitar e não conseguir, porque você se levanta e quase cai de tontura? E como é não conseguir engolir qualquer alimento durante mais de dois dias, você sabe? Sabe a sensação de ninguém, absolutamente ninguém, nem aqueles que mais te amam, entenderem a dor que, sem motivo, fere seu coração? Eu sei isso e muito, muito mais. Coisas tristes e duras. Mas chegou, para mim, a curva do renascimento. Enfim! Ontem, comentei isso com uma colega, na aula de beach tênis. Sim, você leu direito, estou jogando beach tênis! Meu “orquitório”, que é como chamo meu ateliê de artesanato, está sendo arrumado. E agora, preciso encerrar, porque vou ali levar minha empregada e a neta dela no ponto de ônibus. Há algum tempo, esse ato simples teria sido impensável!!!! É, estou gostando desta curva…

2 comentários sobre “A Estrada

  1. Claudia — ou tia Claudia, se me permite… kk — fiquei muito feliz em ler seu texto e me emocionei com cada palavra. Acompanhar, mesmo de longe, um pouco da sua caminhada e agora esse tempo de renascimento enche o coração de esperança. Suas analogias sobre as retas e curvas da vida fizeram muito sentido para mim.

    Apesar de estarmos afastados há tantos anos, você sempre foi uma inspiração pela sua educação, delicadeza e leveza ao falar das coisas. Quando nos reencontramos no velório da Dona Alzira, mãe do Rubens, muitas lembranças da infância voltaram à mente… e também a curiosidade de saber como você estava.

    Eu sou o Julio — o “Julinho, filho do Bira”. Hoje sou pai da Flora e da Lara, casado com a Marcela, e depois de enfrentar também diversas curvas bem fechadas da vida, sou profundamente grato a Deus pelo privilégio de ter minha família e viver dias felizes.

    Fico muito tocado em ver você atravessando essa curva de renascimento. Que venham muitas outras, sempre com força e com a paz do nosso Senhor Deus.

    Lembranças e abraços ao tio Sérgio, ao Serginho, à Daniela e à Flávia.

    Com carinho,
    Julio

    • Julinho, querido, que alegria seu comentário amoroso me deu! Muito obrigada por tanto carinho. Claro que sou tia Cláudia. E me lembro muito bem de você, de como curti seu nascimento! E também foi bom o tempo em que fomos vizinhos. Um grande abraço!

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