VAI, AMOOOOOR!!!!!

No dia 10.10, Wilbert Batista, ou Ibi, ou pr. Ibi, se tornou um Finisher, em uma das provas físicas mais difíceis que existem: Ironman em Kona, no Hawai. Com ele estava sua equipe de apoio: Alice, sua esposa. Isso. Só ela. Ponto final.

Em dezembro de 2011, estávamos em um navio. Um Encontro de Casais organizado pela igreja deles. Eu e Sérgio participávamos. Comentei com Alice que Ibi tinha emagrecido bastante. Ela me contou que ele tinha resolvido deixar de ser sedentário e que queria emagrecer. Tomara três providências. Nada de doce nem de refrigerante e 15 minutos de caminhada todos os dias. Sob sol ou chuva. Apenas 15 minutos.

O que levou-o até Kona? Entre essa conversa de 2011 e o dia 10 de outubro não se passaram nem 4 anos completos!

Sei que ele foi se empolgando com o exercício físico. Começou a caminhar mais, depois a correr, nadar, pedalar. Foi se apaixonando cada vez mais pelo exercício e aí entraram preparador físico, nutricionista, e não sei mais o quê. Mas não é isso que interessa.

Durante todo o tempo, desde a primeira corrida de rua de que ele participou, Alice estava lá, na torcida, com o grito que se tornou sua marca. Ela se coloca em algum lugar do percurso e, quando ele passa, grita a plenos pulmões:

– Vai, amooooooorrrr!!!!!

E ele vai. Em provas longas, ela vai mudando de lugar. Durante o percurso, ele ouve o grito de incentivo de sua amada não uma, várias vezes.

Esse grito dela me dá o que pensar. Se todos nós gritássemos “vai” para nossos amados que se lançam a novos desafios, sei que veríamos muito mais gente se superando. Não digo que todos chegariam a Kona, nem é esse o propósito da maioria das pessoas. Todavia, haveria novas experiências, novos projetos, novos sonhos.

Eu me identifico com a Alice nesse grito, porque sou de falar “vai” para os projetos mais inusitados a que meus amados se lançam.

Flávia e Daniela não tinham completado 18 anos ainda quando começaram a sonhar com uma viagem a Orlando. Sem adultos. Apenas com dois amigos. Por conta própria, sem excursão. Muitos pais, tios e amigos disseram que não iam conseguir. Desde o início eu falei que caso quisessem mesmo e se dedicassem ao projeto, fariam a viagem. Em outras palavras, fiquei no percurso e gritei:

– Vão, amooooreeeessss!

E elas foram. Realizaram o sonho.

Quanta gente poderia se superar, realizar coisas lindas, coisas fantásticas, se, ao menos, tivessem à sua volta alguém que dissesse:

– Vai! Não desanima! Segue em frente! Você é capaz!

Além disso, voltando à Alice, tenho certeza de que muitas vezes ela teve que abrir mão de alguma coisa para apoiar o marido. Lembro-me de uma das primeiras provas de que ele participou. Estava ansioso para começar. Levantou-se, segundo informações da filha, às 5 da manhã e ficava andando de um lado para o outro da casa, fazendo barulho, se arrumando. A filha falou:

– Coitada da minha mãe!

Alice riu. Não se sentia coitada, porque estava ocupada dizendo:

– Vai, amooooorrrrr!

Pela minha experiência de incentivar outros, sei que ela sentiu a vitória em Kona como vitória dela também, assim como eu me alegrei com a viagem das minhas filhas. A conquista delas foi minha, porque eu participei, ajudei no que foi preciso.

Conheço tantas pessoas que precisam de um “vai, amor” bem gritado! Pode ser de parente, de amigo, de conhecido, de desconhecido. As pessoas carecem de incentivos, de apoio, de saberem que há alguém torcendo por elas, feliz com a vitória delas, por menor que pareça aos olhos dos outros.

Assim sendo, se você, que me lê aqui, está com um projeto e ninguém te apoia, eu grito para você:

– Vai, amooooorrrrr! Não pare!

Ah, e te dou um conselho de amiga: não conte seus sonhos e projetos para pessoas que vão te puxar para baixo. Conte apenas para quem vai te apoiar. Estou às ordens, caso precise de uns gritinhos de “vai amor”.

E, num toque especial, cheia de orgulho, para meu irmão Henrique, o novo Controlador-Geral do DF:

– Vai, amoooooorrrrr!

IUHUUU! RECEBI A HERANÇA!!!

É, recebi a herança. Todinha. Meu pai trabalhou muito, teve bons empregos. Primeiro, funcionário do Banco do Brasil. Aposentou-se em um bom cargo. Depois, trabalhou mais de 10 anos na EMBRAPA, organizando as licitações. Sem jamais receber propina, fique bem claro. O salário era bom. Aposentou-se de novo. Ainda tinha muita energia e saúde, não queria ficar parado. Lá foi ele trabalhar na Câmara Legislativa do DF, na elaboração de Lei Orgânica. Finalmente, se aposentou mesmo.

Basta uma análise rápida do perfil profissional dele para ver que ele ganhou bastante dinheiro. E deixou para nós uma herança de tamanho imensurável. Sem preço.

Recebemos o seguro de vida. Já gastamos. Deixou também o apartamento onde minha mãe mora e dois automóveis. Pronto.

Ah, mas a nossa herança ele distribuiu durante nossa vida. Como só os pais sábios conseguem fazer, vivemos juntos a herança. Cada centavo que ganhou durante a vida ele gastou conosco. No dia a dia. Estudamos em bons colégios, havia abundância em nossa casa. Não havia pessoa que o procurasse precisando de dinheiro que ele não ajudasse.

Óculos, aparelho nos dentes, lentes de contato, corte de cabelo, piscina do clube, roupas, carro – não era de luxo, mas ele fazia questão que sua família tivesse o máximo que seu salário podia pagar.

Ele sempre repetia que o primeiro salário da EMBRAPA serviu para pagar o bufê de meu casamento. Falava que os valores eram praticamente idênticos.

O maior investimento dele, contudo, foi nas viagens. Nunca deixamos de viajar nas férias. Ele dizia:

“A gente entra no carro e vai até gastar metade do dinheiro. Aí, começa a voltar.”

Era assim mesmo. Um mês passeando. Visitando parentes, conhecendo novos lugares, desbravando o Brasil. O dinheiro investido nessas aplicações rendeu muito mais do que se ele tivesse escolhido qualquer outro tipo de aplicação. As coisas que vivemos moldaram o caráter de cada um de nós, formaram nossa personalidade, criaram o vínculo extremamente forte que nos une.

Em 1988, incentivado pelo Henrique, ele começou a investir nas viagens internacionais. Tornou-se o investimento predileto dele, especialmente se a viagem fosse para a Disney ou a Califórnia. Quantas coisas aprendemos nessas viagens! Convivência, alegria, bom-humor. Papai fazia piada com praticamente tudo. E praticamente o tempo todo. Essa parte da herança nós aproveitamos a valer.

Talvez muitos não acreditem, mas garanto que é verdade: nossa família é capaz de passar um mês junta, em férias, sem ter uma briga sequer. Nem discussão. Essa é nossa herança.

A porção mais importante da herança, porém, é outra. O exemplo de amor a Deus e ao próximo, integridade, dedicação ao trabalho, idealismo, seriedade, e muitas, muitas outras qualidades que ele demonstrou durante toda sua vida. Eu nunca vi meu pai mentir. Nunca mesmo. Nem daquelas mentirinhas que a gente considera desculpáveis, tipo “fala que eu saí”, ou de exagerar ao contar uma história.

É, recebi a herança. Não foi ontem, nem hoje. Foi durante toda minha vida. Ele não guardou nada, distribuiu com generosidade de tudo que tinha, material ou não, enquanto permaneceu neste mundo. E pudemos desfrutar juntos de privilégios que poucos, muito poucos, têm. E sou extremamente grata a Deus, a meu pai e a minha mãe por ter sido assim.