82,7 – MINHAS PORCARIAS

Certo dia, minha amiga Lenira comentou que, para mim, tudo vira coleção.
Sou bastante obsessiva. Quando gosto de uma coisa, é como a Lenira falou: logo vira coleção.
Decidi cuidar de orquídeas. Bem, tenho um orquidário. Resolvi fazer velas. Comprei todo tipo de material, fiz curso, comprei livros sobre o tema (mais sobre os livros um pouco adiante). Resolvi fazer scrapbooks. Tenho pilhas de adesivos, tesouras, colas. Já falei que, quando morrer, quero levar tudo, então é para enfeitarem meu caixão com as coisas. Vou ter o caixão mais lindo que já se viu (brincadeirnha…). 
Na verdade, falei que vou construir uma pirâmide aqui em casa, para guardar meus tesouros para a posteridade. Felizmente, também sou obsessiva quanto a me livrar de coisas, e, saio distribuindo parte de meus tesouros periodicamente.
Há as paixões mais permanentes. Livros e trabalhos manuais. Tenho quase mil livros (literalmente). Todos devidamente catalogados e dispostos em ordem dentro do armário destinado a eles. Ah, e quanto a eles, sou compulsiva também na hora de comprar. Tenho pilhas de livros que ainda não li. E uma desculpa maravilhosa: o trabalho! Preciso de livros e dicionários para consulta. Maravilha das maravilhas! Uma obsessão justificada pela profissão. 
Outra paixão permanente é o tricô. Acumulo lãs, agulhas, revistas, trabalhos começados, desde que era criança. Agora resolvi fazer cachecois. Modéstia às favas, cada um mais lindo que o outro. E as lãs! Com pompom, cheia de pelinho, com bolotinhas, com paetês. em degradê, com babadinho. Fico alucinada. O que fazer com tanto cachecol? Sei lá – dou, vendo, fico para mim. O que me dá prazer é comprar a lã e fazer. Depois, não sei o que acontece.
Outra obsessão que tenho é cuidar de meu corpo com cremes, esfoliantes, shampoos, hidratantes, e tudo mais que possa existir neste mundo de meu Deus. Daniela me ligou, do Mar Morto:
– Mãe, estou na loja da Ahava! Quer alguma coisa?
– KKKKKKK
– Eu sei. Estou perguntando se quer alguma coisa especial.
– Não. Traga o que seu coração mandar. E não seja tímida, cai matando. Ah, mas tem um esfoliante…
E já lembrei de uma coisa específica, expliquei direitinho. Amo ficar uma eternidade no banheiro, me besuntanto com todo tipo de coisa. Para mim, um banho bem tomado precisa incluir esfoliante no rosto, outro no corpo, outro nos pés e outro nas mão. Depois, sabonetes cremosos específicos para cada parte do corpo. E terminar com um creme em volta dos olhos, outro em volta da boca, outro no resto do rosto e no pescoço, outro no corpo, outro nos pés e outro nas mãos. Ah, e depois de secar o cabelo, serum!!!!! Saio do banheiro poderosíssima. Leva de 40 minutos a uma hora. Limpa meu corpo e minhas emoções por completo.
Essa coisa dos cremes é piada. Uma vez, em Orlando, encontrei uma promoção de cremes da Victoria’s Secret. Dez por 30 dólares. Fiquei alucinada. Comprei dois conjuntos da promoção, mais shampoo e outras coisitas. De volta ao hotel, coloquei tudo no meio da roupa suja, como sempre faço, porque no dia de arrumar para voltar para casa só tenho que mexer na outra mala (será que isso é obsessão?). Voltamos ao shopping, esqueci do tanto que já tinha comprado, lá vai outra sacola imensa. No último dia, achei melhor dar uma examinada. Peguei os cremes e espalhei no chão. Caramba! Vou ficar na alfândega! Ninguém vai acreditar que isso tudo é para mim. Minhas companheiras de quarto riam. Clarice entrou, olhou:
– Caramba, até mesmo para você isso está meio demais, né?
No ano passado, fui a Orlando em agosto. Depois, a Nova York em novembro. Ainda tinha (e tenho) Victoria’s, de modo que me proibi até de entrar na loja. Mas não tem jeito, eles me encontram. Descobri preciosidades em outros lugares, claro. Meu banheiro tem uma mureta repleta dos meus bálsamos. Em janeiro, Flávia foi para Orlando, a serviço. Fiz uma listinha, que começava assim: PRECISO!!!!! NÃO VOU VIVER SEM… E listei uma série de itens essenciais. 
Meu sobrinho Marcos pegou a lista, leu, deu uma risadinha safada e pediu:
– Tem uma caneta?
Emprestei, ele foi com minha lista e a caneta para a outra ponta da mesa. Ainda aprendendo a escrever, pediu ajuda para a Flávia. Dali a pouco voltou, e me entregou a lista, onde tinha escrito, na parte de baixo da página:
Vai viver sim! FICA COM AS PORCARIAS QUE VOCÊ JÁ TEM!
Ele não sabe que as porcarias são parte importante de minha boa forma!

82,4 – A HISTÓRIA DE NÓS DOIS

Nem sempre nos demos bem. Na verdade, até hoje nosso relacionamento é bem peculiar.
Na infância, enquanto os amiguinhos se deleitavam com ele, eu preferia um livro e um trabalho manual. Sempre gostei de ficar sozinha e, quando era criança, para me encontrar com ele, teria que me envolver em algum tipo de atividade em grupo. Ainda não eram divulgados os tipos de relacionamentos individuais que conhecemos hoje.
Na escola, éramos obrigados a nos dedicar a ele pelo menos duas vezes por semana. Eu obedecia, não tinha jeito, mas nunca gostei dele.
O tempo passou e, certa semana, quando eu já chegava aos 30 anos, três médicos diferentes me disseram que eu precisava urgentemente dele:
– Você está totalmente sedentária (como assim????? corria todo dia atrás de duas gêmeas com energia similar à da bomba atômica…). Precisa dele, do exercício físico.
Well, não tinha jeito. Foram três médicos. Precisava me reconciliar com meu desafeto da infância. Mas, como? Trabalhava à tarde,depois  buscava as crianças na escola e íamos para casa. Morávamos longe. Chegávamos depois das 19:00. Jamais fui amiga de acordar cedo, então não me propunha a chegar à academia às 6:00 na madrugada.
Tive uma ideia fantástica. Passei a chamar de passeio. Toda manhã, convencia Flávia e Daniela a sentarem no carrinho. Serginho empurrava um, eu, o outro. Assim, eles tomavam sol e eu caminhava. O coitado do Sér começou a fazer caminhadas ainda bem novinho.
Pouco depois, nos mudamos para mais perto do serviço e do colégio das crianças. Eles foram estudar de manhã. Eu os deixava na escola, ia à academia para ginástica localizada e, depois, para o serviço. Mas não surgiu a mínima paixão pelo meu desafeto da infância.
Em 1991, grande mudança na minha vida: larguei meu detestado emprego no Banco do Brasil. Eu e minha prima Zenaide começamos a caminhar no Parque da Cidade, todas as manhãs. Aí eu descobri o charme dele. Foi só em 1991 que ele passou a exercer atração em mim. Foram mais de 10 anos de relacionamento cada vez mais profundo. As caminhadas levaram à musculação e, depois, descobri um grande prazer: jogar tênis. Era péssima, jamais ganhava um jogo, mas ADORAVA jogar.
Em setembro de 2002, longe de ser sedentária, com o peso sob controle, precisei tirar o útero. Foram dois meses até conseguir me recuperar (sou mole com esse tipo de coisa). Em novembro, voltei à academia e ao tênis. Mas sentia dor no braço direito. Achei que era por causa dos dois meses parada. Estava errada, e paguei caro por isso. Era tendinite no ombro. Passei 2003 com dores horríveis no braço, em tratamento intenso. Meu braço ficou paralisado. No início de 2004, estava curada e voltei ao meu amado exercício. Mas, no fim do ano, comecei a sentir dor no braço esquerdo. Agora, já sabia. Comecei logo a tratar, o danado também perdeu os movimentos. No início de 2005, a depressão. Daí em diante eu e ele demos um tempo. Como acontece com os casais humanos, não sabíamos se daria para continuarmos juntos. Foram cinco anos de idas e vindas. Reatávamos, mas logo rompíamos de novo. Sofri com saudade dele.
Só no início deste anos voltamos de verdade. Assim mesmo, nosso relacionamento ainda tem muitos altos e baixos. Passo muitos dias com raiva dele, mas depois sempre acabo me reconciliando. Ele é inabalável. Se eu o procurar, tudo bem, mas jamais veio atrás de mim. Bem, preciso aceitá-lo como ele é…