Meu conceito de boa forma vai muito além de peso ideal. Busco muito mais do que apenas um número na Cicinha. Claro, quero muito emagrecer, mas vou muito além.
Já emagreci muitas vezes. Antes de entender que a única forma de manter o peso sob controle era com alimentação equilibrada combinada a exercícios físicos, fiz muitas loucuras. As piores foram a dieta do abacaxi, a da sopa e tomar remédio para emagrecer. Como o mundo não é feito só de abacaxi, nem só de sopa, quando saía da dieta eu caía comendo até os pés da mesa. E, com o remédio, recuperei o peso com mais velocidade do que tinha perdido, e fui além.
Tudo isso, porém, foi antes de eu fazer um tratamento com uma médica que começou a me ensinar a comer direito. O caminho foi longo. Depois dela, vieram Vigilantes do Peso e uma nutricionista que também influenciaram muito meus hábitos alimentares.
Já vivi meio século e os conceitos de bem-estar físico mudaram muito nesse tempo. Na minha adolescência, não se falava em nutrição como ciência. Ninguém sabia da existência desses profissionais. A gente engordava e fazia dieta. Minha mãe sempre foi muito cuidadosa com a alimentação da família, sempre comemos verduras, legumes e frutas. Mas a gente desconhecia muitas coisas. Por exemplo, eu me lembro que, na compra de todo mês, lá vinham 4 sacos de 5kg de açúcar, para uma família de 6 pessoas. Hoje, isso é impensável. Ninguém tinha tendência a engordar, só eu…
Bem, mas, além da alimentação, tem o exercício. Eu era obrigada a fazer “educação física” no colégio. Abominava. Descobri, ao ter a crise mais forte de depressão, que sofria da doença desde a infância, e que a preguiça e o desânimo que sempre senti faziam parte da doença. Porém eu não sabia – nem eu, nem ninguém mais – de modo que sofri a vida toda por causa da maldita educação física. Eu já era casada quando comecei a ouvir falar em exercício associado ao bem-estar. E só verifiquei a veracidade disso quando já tinha três filhos, na década de 90.
A boa forma só é possível, no meu entender, quando nos sentimos bem. A alimentação controlada proporciona bem-estar, o emagrecimento vem como consequência. Quanto ao exercício, a mesma coisa. A motivação precisa ir além de eliminar quilos.
Enfim, quando falo em boa forma, penso, sim, em menos quilos, mas, também, em disposição para realizar as tarefas de todos os dias, sono tranquilo, bom humor, corpo saudável (livre de doenças). Nada do aperto que sempre senti no abdômen, causado pela doença que me acompanhou a vida toda sem que eu soubesse. Boa forma inclui acordar e me levantar da cama, pronta para viver plenamente o dia que começa.
Posso afirmar que estou muito longe de conseguir tudo isso. Mas, também, posso afirmar que procuro, a cada dia, crescer rumo a meu ideal.
Embelezando
82,9 – DIA AGITADO
Bem que eu escrevi ontem: em certos dias a Cicinha resolve apresentar números maiores, e ninguém a convence do contrário. Sem problemas, depois ela desce de novo.
Saio muito pouco de casa. Mas, contrariando meus costumes, hoje, saí de manhã, almocei na rua e só cheguei de volta no fim da tarde. Até agora não revelei uma coisa importantíssima que está para ocorrer, motivo de minhas andanças: finalmente vou fazer cirurgia para corrigir os estragos do tempo nos seios e nas pálpebras! Estou fazendo os exames.
Sinto muita vontade de “consertar” os seios desde que Flávia e Daniela nasceram, há 25 anos! No entanto, nunca tive coragem de gastar tanto dinheiro comigo. Sempre havia uma coisa com os filhos: aparelhos nos dentes, colégio, bicicleta nova, viagens, festas de aniversário, etc, etc, etc. Tive prazer em fazer cada uma dessas coisas, não sou daquelas mães que se ressentem pelo que gastaram com os filhos. Curti tudo. Só o que gastamos em viagens daria para me consertar inteira e sobraria para consertar mais umas três, mas não troco o que fizemos por nada. Uma vez, Sérgio reservou um dinheiro para a cirurgia, mas a Dani resolveu ir para os EUA, ficar um ano, e meus seios viraram intercâmbio. Sem problema, curti com ela as experiências maravilhosas que ela teve. Mas estou radiante porque, enfim, chegou a minha vez.
Tive uma consulta de manhã e outra à tarde. Pensei que ia sair dos consultórios com tudo resolvido e que poderia fazer a cirurgia na semana que vem. Doce ilusão! Cada um pediu mais um exame, e, pelo menos até dia 19 de outubro, nada de cirurgia. Droga!
No intervalo entre as duas consultas, fui ao shopping. Mais uma vez, verifiquei como a imagem mental que faço de mim mesma difere da real. Devido ao calor, vesti uma camiseta sem mangas e uma calça jeans. Sapatinho bonitinho, combinando com o cinto. Brinco de argola, batom cor de boca, relojão dourado, anel imenso como gosto. Arrumada com apuro! E, na minha mente, a Crau dos 64kg. Toda vez que passava na frente de um espelho, levava um susto com a imagem refletida.
Isso acontece desde que comecei a engordar de verdade. Minha mente não assimilou essa pessoa gorda. Não sou eu. É ruim quando me vejo, eu fico atônita: “Puxa, tinha esquecido que estou deste jeito!”. Não gosto disso.
Enquanto eu não conseguia fazer nada para reverter o engordamento, sofria bastante nessas ocasiões. Hoje, não. Vejo, fico aborrecida, mas penso: “estou agindo para resolver o problema”. Sei que hoje estou melhor do que na semana passada e que na semana que vem estarei melhor do que hoje. E vamos em frente que atrás vem gente.
Sinto desconforto imenso com o excesso de peso. Nem sei como tenho colocado ali no título, todos os dias, os números que a Cicinha me mostra. Quando a médica me perguntou, hoje, quanto eu pesava, fiquei no peso de ontem: 82,5. Só 400g, acho que ela não vai se aborrecer. Mas EU sei que hoje havia mais 400g. Coisa difícil isso.