Era uma vez uma igreja. Não ia muito bem. Pouca gente, desânimo. Nada daquela alegria que só as pessoas que frequentam as igrejas entendem.
O costume era haver um culto no dia 24 de dezembro. Uma obrigação a ser cumprida. Não vou dizer em que ano isso aconteceu, mas, quando o culto sem graça terminou, Susana Dytz Fagundes fez uma promessa, não sei se a Deus, a ela mesma, ou à igreja:
– Nunca mais nossa igreja terá um Culto de Natal sem uma Cantata pelo coral.
Já se passaram quase 30 anos. Susana, hoje, frequenta outra igreja. A promessa dela nunca deixou de ser cumprida. A cada ano, mais pessoas se reúnem no dia 24, na Igreja Metodista da Asa Sul, em grande expectativa para participar de momentos de maravilha – diante da beleza da música e da presença de Deus.
Fiz parte de nem sei quantas cantatas e o Sérgio, de praticamente todas. Ele só não cantou nos Natais que passamos fora de Brasília.
Cada uma teve sua beleza. Numa noite inesquecível, o maestro Deyvison Miranda reuniu vários corais e grupos, espalhou por três plataformas, juntou uma orquestra e… UAU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Essa foi maravilhosa, mas eu tenho duas prediletas, por causa da mensagem que transmitem: Natal dos Anjos e a super-hiper-predileta, REI DOS REIS.
Já cantei esta última umas quatro vezes. Regida pela Susana, pelo senhor Tácito, pelo Lincoln, e, agora, cantarei sob a regência do Deyvison.
A Cantata faz parte da história da nossa igreja. Lembro de seu Oséias e seu Grossi fazendo solos. No sábado, a partitura que me entregaram havia pertencido ao seu Osvaldo. Não esqueço do Jairo implicando com o contralto, dizendo que a gente só desafinava, que poderíamos muito bem desaparecer que a cantata continuaria exatamente igual. Na primeira vez em que cantamos, dona Elvira ficou o tempo todo em pé. Na última, já precisava de uma cadeira para se sentar durante os solos.
Lembro também da Bia cantando com uma barrigona, a primeira cantata do Rafa! Num ano em que a coisa ficou complicada, fiquei encarregada de ensaiar o contralto, catando milho no órgão, e quem me socorreu para ensinar mesmo as outras foi a Bette, no gogó.
Eu canto: “O Rei dos reis nasceu, hoje é Natal” e penso na dona Belkiss, que está longe. Olho para o Coral e vejo pessoas que estão ali durante toda minha vida, como a Regina e os irmãos dela, minha irmã, meu marido, meu cunhado, meu primo, muitos amigos de toda a vida (que são quase da família, tamanha nossa amizade). Tão bom!!!!! E as pessoas que foram chegando com o passar do tempo e se tornaram também muito queridas, as que frequentam outras igrejas, mas que gostam tanto da nossa Cantata que vêm todos os anos participar.
Na segunda-feira eu comentei com a Elvirinha que todos os anos eu choro durante a Cantata de Natal, esteja eu sentada no banco ou no Coral. Só de escrever sobre ela já sinto um nó na garganta.
O Natal é minha época predileta do ano. O nascimento de Jesus é, para mim, a razão de toda a existência. De tudo que há de bom neste mundo. A páscoa é a hora da vitória final, mas o Natal é o início da esperança.
No ano passado, tivemos um Natal muito difícil. Fui ao Núcleo da Fé para a Cantata Infantil e, ao final, pr. Ibi chamou à frente aqueles que estavam passando um Natal em meio a muitas lutas. Lá fui eu, claro. Mal sabia eu que as coisas ainda iriam piorar muito. Naquele dia, eram problemas financeiros, havia acabado de sair uma sentença péssima sobre a penhora da casa (contei essa história no post CASA PENHORADA!!!!!!!!), e papai estava sofrendo demais com a artrose. Não enxergávamos rotas de fuga para os problemas.
Este Natal será bem melhor. Sim, ainda há dívidas a pagar, mas as empresas que aumentavam o buraco todos os dias foram vendidas. A casa continua penhorada, mas a decoração de Natal está linda – destaque especial para uma mesa com velas que o Sérgio arrumou e ficou maravilhosa. Sérgio está prestes a tomar posse em seu primeiro emprego (kkkkk). Considero o ano de 2011 o mais difícil de toda minha vida. A imagem que o descreve é o Sérgio na UTI, ainda sob efeito da anestesia, depois da cirurgia de câncer, com uma sonda horrorosa entrando no nariz em um saco pendurado nela, cheio de líquido. Ali estava a fotografia deste ano.
Exatamente por causa disso, nunca vi tanto a presença do REI DOS REIS. Ele cuidou de nós a cada dia. Cada vez que o Henrique precisou ser internado (a Renata também), em toda crise pior que papai teve, nos momentos em que os remédios o deixavam alucinado, em cada dia em que o Sérgio precisava “fabricar” dinheiro. Em cada injustiça sofrida por ele. No momento do diagnóstico de câncer (segundo o médico, na hora “exata”). É, o Rei dos Reis lutou nossas lutas, entrou na batalha por nós.
No sábado em que estava internado, depois da cirurgia, Sérgio acordou cedo e ligou a televisão. Era o programa do Núcleo da Fé. Pr. Ibi falava sobre os três porquinhos. O Rei dos Reis tem senso de humor: usou meu bichinho predileto (o porquinho, não o pastor) para falar comigo. Ibi dizia que os dois porquinhos tontos ficavam zombando do mais ajuizado:
– Você é otário, por construir uma casa de tijolos. Dá muito trabalho! Devia fazer de qualquer jeito, e aproveitar a vida.
Ibi comentou que era otário, com muita convicção e orgulho, porque fazia questão de construir uma vida sólida. Sérgio e eu também somos assim. E o interessante é que Sérgio usa essa mesma palavra para falar dele mesmo, quando sabe que alguém o passou para trás, e aceita a situação por causa de princípios que são firmes demais para ele quebrar. O que acontece é que quem constrói casa de palha ou madeira não tem como se proteger das tempestades. E acaba precisando correr atrás do otário, que é, no fim das contas, quem acaba se dando bem. Estou falando em se dar bem de verdade, aquele bem que dura para sempre, não de coisas passageiras que não trazem satisfação permanente.
Só há um jeito de ser um otário de verdade, desses bem sucedidos como meu marido: seguir sempre o Rei dos Reis. O lobo sobe no telhado, tenta pegar o porquinho, mas o otário construiu paredes bem fortes, segundo o projeto elaborado pelo Rei dos Reis. Daí, o lobo cai no caldeirão de água fervendo, e o porquinho pode festejar o Natal com a família, cantando bem animado a Cantata na Igreja Metodista da Asa Sul.
Vai lá conferir, você vai amar!!!!!!!!
Eu “tava” pensando…
SUPER CLÁUDIA x VENDEDORES(AS)
Poucas categorias de pessoas me irritam tanto quanto vendedores mal treinados. Para ser justa, muitos nem têm culpa, é a filosofia de trabalho do patrão que os torna insuportáveis.
Quando eu vou fazer compras, ao contrário do que acontece com muitas mulheres, eu já não estou lá muito empolgada. Não gosto de fazer um montão de compras, acabo cansada. É, a tal falta de energia tem lados positivos. Além disso, sou altamente introspectiva, ou seja: gosto de ficar eu comigo mesma, sem ninguém me atrapalhando. E isso fica ainda mais exarcebado quando vou fazer compras e eu e eu mesma precisamos conversar sobre o que vamos adquirir.
Mas, fala sério, há certo treinamento de vendedores que foi criado especificamente para me irritar. Alguém me estudou e decretou: vou fazer exatamente o que impedirá que pessoas como a Cláudia façam compras nas minhas lojas.
Vou dar um exemplo. Quero comprar óculos escuros. Sei exatamente o que quero: tipo aviador, com aro fino, lente preta bem escura. No domingo, depois de almoçar no Pier, vi uma loja Chilli Beans. Bem na entrada, o display com os óculos do tipo que quero. Eu e Sérgio entramos. Eu nem tinha me aproximado direito e já se materializou do meu lado uma chata de galocha (o que aparece em itálico é o que tive vontade de dizer, mas só pensei):
– A senhora precisa de ajuda?
– (Se você me deixar em paz já será uma grande ajuda.) Não, obrigada, quero ver estes óculos.
– São modelo aviador.
– DRRRRRRRRRRRRRRR
– São inspirados nos modelos Ray-Ban.
– Você acha que sou burra, alienada, ou o quê?
Eu tentava mexer nos óculos, para experimentar alguns. A criatura, plantada na frente do espelho (o que, óbviamente, me impedia de ver minha linda pessoa com os óculos no rosto), ficava dando pitaco:
– Esses são lindos, com lente marrom.
– Eu quero preta.
– Ali na outra estante eu tenho outros, com o aro mais grosso.
– Quero destes, bem fininhos.
– Mas os outros vão ficar lindos na senhora.
– Ai, como sofro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Volto outra hora.
– A senhora me procura, meu nome é XYZ.
– Volto nunca, e de preferência no dia da sua folga.
E fui embora. Sérgio que já me conhece já muuuuiiiiiiito tempo, saiu rindo da minha irritação.
O que aquela vendedora “excelente” não sabia é que eu IA comprar os óculos e, talvez, um relógio branco. Ela me enxotou da loja. Raramente eu entro em uma loja sem intenção de comprar uma coisa. Se não pretendo comprar, não entro. Simples assim.
Eu gosto de andar em lojas sem ninguém na minha cola. Um dos lugares em que mais compro é na J.C. Penney, uma loja dos Estados Unidos (aliás, dona Obama também gosta). Não é chique. Tem um monte de araras. Encontro tesouros ali, sem ninguém a me chatear. Quando preciso de ajuda, sempre há alguém por perto, mas ninguém a deduzir que sou burra, nem que não sei fazer minhas próprias compras e preciso que me guiem por todas as etapas.
Eu conheci a vendedora ideal. Trabalhava na Arezzo, há muitos anos. Pena que não decorei o nome dela, porque poderia prestar, agora, uma homenagem pública.
Antes de saber que sofria de depressão, os períodos em que eu estava em crise, que me deixavam totalmente sem energia, eram conhecidos em família como “mal-estar generalizado”. Nas piores situações, dizíamos que eu estava “generalizadíssima”. Cristina inventou isso, por causa de “infecção generalizada”.
Eu estava generalizadíssisssisssissima. Meus filhos ainda não dirigiam, estudavam à tarde, e eu os deixei no colégio. Resolvi ir ao shopping me arrastar por lá, em vez de voltar para casa e me jogar na cama.
Estávamos preparando uma viagem para os Estados Unidos. Passando na vitrine da Arezzo, vi uma bolsa de viagem muito bonita, que seria ideal para levar na mão.
Entrei na loja e fiquei olhando. A vendedora se aproximou:
– A senhora precisa de ajuda?
– Não, obrigada, estou só olhando.
Andei pela loja à vontade. Ela não me mostrou nenhum lançamento, não veio com aquelas conversas de “aquela da novela” que são as que me fazem fugir da loja como se tivesse um tsunami atrás de mim. Odeio coisas “iguais à da novela”.
Cansada (lembra, eu estava generalizadíssima), sentei. Ela me ofereceu ajuda. Perguntou se eu estava me sentindo bem, se queria água. A água eu aceitei. Quando ela trouxe, falei que estava olhando aquela mala, mas estava desanimada demais para comprar. Ela falou que, se eu quisesse, podia ficar sentada onde estava, que ela traria a mala e tudo mais que eu pedisse para ver.
Recostei no sofá. Ela trouxe mala, mochila, bolsa, sapato. Saí de lá com tudo. Na hora de pagar, falei para ela:
– Acho que você é a melhor vendedora que já encontrei. Eu cheguei aqui me sentindo tão mal, que não tinha forças para comprar nada. Olha o tanto de coisa que você me vendeu.
– Eu vi que a senhora estava passando mal. Melhorou?
– MUITO!!!!!
Fui embora feliz da vida. Ainda sem energia, mas super contente com minhas compras.
Pensando bem, felizmente a maioria das vendedoras se parece com a da Chilli Beans, porque se elas fossem como a da Arezzo eu estaria ferrada.
Olha eu aí, toda chique com meu vestido que comprei sem ninguém me incomodar na J.C.Penney:


