A PISCINA DO PASTOR ANTÔNIO

Pastor que tem piscina? Posso até visualizar narizes torcidos, julgamento precipitado. Não, não se trata de um daqueles pastores que recolhem sacos de dinheiro e compram jatinhos e outras “coisitas” mais. Nem daqueles que chutam santa ou esbravejam ameaçando todo mundo com o fogo do inferno. Ele é pastor de verdade, na essência do significado da palavra que, infelizmente, poucos entendem hoje.

Conheci-o há muitos anos. Era solteiro, surfista, jovem amigo de meu irmão que também era jovem. Ouvia-se falar que pastor Antônio ia surgir na área e as garotas entravam em ebulição. Excluo-me da ebulição, não que não o achasse muito bonito: eu já era casada. Mal sabiam as ebulidoras que não tinham a menor chance. Ele já era noivo, apaixonado pela que, hoje, é sua esposa e mãe de seus três filhos.

Antônio Carlos sempre foi movido por paixão. Sua fala, pessoalmente ou do púlpito das igrejas, é intensa e tocante. Penso, porém, que só os que desfrutam de uma convivência mais próxima conhecem seu profundo senso de humor. Não posso dizer que somos amigos muito próximos, contudo meus pais o hospedaram muitas vezes e sempre há muita risada e diversão por causa das tiradas cômicas e irônicas do pastor Antônio.

O jovem surfista virou ativista político movido por amor fervente ao próximo – aliás, a marca do pastor de verdade. A injustiça o abala. De seu trabalho resultou a ONG Rio de Paz, hoje conhecida por todo o território nacional, tanto pelas manifestações pacíficas e criativas quanto pela atuação nas comunidades carentes, com o objetivo de resgatar os que estão perdidos, sem rumo e sem esperança na vida. Passou a dar voz aos que não têm voz. Tanto protesta contra a morte do cidadão abatido pela polícia quanto abomina o assassinato de um policial pelos bandidos.

Nos últimos dias, seu bordão é: Votar Mal, Mata. Tem percorrido o país, sem declarar em quem vai votar, insistindo com as pessoas para pensarem bem antes de escolher seus candidatos.

As manifestações da Rio da Paz são notórias: cruzes na areia de Copacabana, vassouras para varrer a corrupção do Congresso Nacional, homens de máscara simbolizando o poder escondido por trás do poder, bolas com cruzes vermelhas pintadas para saber quem lucraria com a Copa e várias outras.

De todas as lutas, talvez a mais comovente tenha sido o esforço infrutífero de encontrar com vida o pedreiro Amarildo. “Onde está Amarildo?” era o bordão espalhado pelas redes sociais e pela imprensa, repetido em todo o país.

Pastor Antônio continua pastor. Não entende como dissociar sua atuação política de sua fé. Prega a Bíblia e também faz palestras sobre atuação política. Vai de uma a outra sem qualquer dificuldade. E continua engraçado. Muito engraçado. Em sua página do Facebook, no meio de fotos de manifestações e protestos, de vez em quando aparece uma tirada que me leva a rir de verdade.

Ontem foi assim. Pastor Antônio e sua esposa tinham dois filhos. Deus os abençoou com a chegada de uma garotinha temporona, alegria da família. Ele postou uma foto dela brincando super alegre em uma piscininha de plástico, e escreveu, usando o jargão dos pseudocristãos que enganam tantos por aí: “Fui na reunião da prosperidade total, declarei a vitória, e agora Alyssa pode dizer que mora numa casa com piscina. O inimigo está furioso!”.

Dei gargalhadas na frente do computador. Depois, pensei em como admiro o pastor Antônio.

Como ele consegue manter a capacidade de enxergar tal ironia, quando convive todos os dias com coisas que, segundo ele mesmo, nem pode contar? Onde encontra a fonte de alegria que permite a ele conservar a ternura e reservar tempo para curtir seus momentos em família, para tirar foto da filha se esbaldando na piscina de plástico? Como é capaz de fazer pausas para brincar com uma criança, contemplar a beleza do Rio de Janeiro, desfrutar da praia com seus amados, depois de visitar os intestinos da sociedade? De onde retira o equilíbrio para estudar, pensar, analisar, enfim, usar o intelecto?

A resposta está em outra foto que ele postou de sua garotinha. Ela está sorrindo em primeiro plano, mas dá para ver a sala, uma mesa repleta de livros, papéis, computador e tudo mais que se usa, com a legenda: “Veja quem chegou no local onde papai ora, escreve, lê, medita… Ao fundo, minhas principais armas!” [as armas são Bíblias].

É, admiro pra caramba o surfista pastor Antônio. Oro para que ele continue surfando em todas as camadas de nossa sociedade por muitos anos ainda. E que me leve a dar muitas gargalhadas, quem sabe, em tempos melhores para nosso país.

O NASCIMENTO DE TIA CLÁUDIA

Tia Cláudia nasceu no dia 14 de setembro de 1978. O trabalho de parto foi longo e difícil. Começou cedo. O médico, atento e competente, avisou, ao final da tarde, que não dava mais para esperar por um parto normal. A cesariana seria necessária. Havia preocupação, claro. A família toda se afligia, esperava o final feliz, com a chegada do bebê, um dos mais esperados do século passado.

Estive no hospital à tarde. Como não podia ajudar em nada, só me restava esperar, voltei para casa e fiquei ao lado do telefone. Bia me prometeu que me avisaria assim que a figura mais esperada entrasse em cena.

Finalmente, o telefone tocou. Nasceu! Corri para o hospital, o mais rápido possível. A tiracolo, o namorado que todos conheciam, mas que ainda não sabiam que havia se tornado meu namorado quatro dias antes.

A mãe estava sedada. Não dava para falar com ela. Ah, mas dava para vê-lo. Com a cabeça encostada no vidro do berçário, senti as mãozinhas dele agarrarem meu coração. Nunca havia sentido tanta vontade de proteger, de cuidar, de evitar sofrimento. Descobri, ali, inúmeros sentimentos inéditos, que, inclusive, não sei colocar em palavras. Chorei, olhando para ele. Por que precisava ficar sozinho? Até minutos antes estava protegido na barriga da mãe e, agora, estava em um local inóspito, frio, sem o calor humano de que precisava. Lembro-me bem. Encostei a cabeça no vidro do berçário e falei, baixinho (não queria que o Sérgio ouvisse, ele ainda não me conhecia o suficiente para ver certas maluquices):

– Oi, eu sou a tia Cláudia!

Só isso. Ele entendeu, eu também. Nem somos parentes de DNA, mas o somos de coração. Engraçado foi que repeti a mesma frase, em fevereiro de 2002, quando vi meu primeiro sobrinho pela primeira vez:

– Oi, eu sou a tia Cláudia!

Só depois me lembrei de que já tinha dito isso antes, lá, com o Dasinho, quando a tia Cláudia nasceu.

Mulheres de nossa geração têm mil e um papéis a desempenhar: mãe, esposa, dona de casa, profissional, mulher elegante, antenada. Creio que desempenho de forma razoável cada um deles. Mas um dos que me dá mais prazer é o de tia! Ainda não sou avó, provavelmente esse será o suprassumo, então, hoje, curto a tia. Pode, tia? Pode, sobrinha. Pode, sobrinho.

É, mas foi lá, na maternidade e no instante em que meus olhos contemplaram o Dasinho, que a tia Cláudia nasceu. Foi ele sempre o desbravador, o inovador. O primeiro a fazer todas as coisas, a me ensinar o que as tias devem saber, aquilo que elas podem fazer para mimar essas preciosidades que Deus coloca em nosso caminho, em nosso coração.

Sou grata a Deus pela vida do Dasinho. Pelo tanto que aprendi, e ainda aprendo, com ele. Admiro, hoje, o homem que ele se tornou, a família que formou. E foi se casar logo com minha amada Lúcia! Que delícia!

Muito obrigada, meu amado, por me ensinar a ser tia. Repito, um dos papéis que tenho mais prazer em desempenhar. Eu e você fazemos aniversário hoje!