5) TEMPOS SOMBRIOS

Viver em comunidade implica, necessariamente, em sofrer quando os outros sofrem. Felizmente, tenho conhecido mais momentos de riso, mas, quando chega a dor, ela é profunda. A aflição pode ser grande.

Claro que existem na Igreja Metodista da Asa Sul exemplos de todo tipo de problemas. Inevitável. Para mim, crianças doentes ocupam posto elevadíssimo caso exista uma escala de sofrimento. Entro em pânico com o menor sinal de febre, e quero, imediatamente, ligar para o Jezreel. É até bordão familiar: “Já ligou pro dotô?”.

Felizmente, não foram muitas as experiências de doenças graves em crianças em nossa igreja. E Deus nos abençoou com o retorno à saúde. Algumas dessas experiências se destacam em minha memória.

O primeiro mês de vida da Ana Beatriz foi uma provação. Os primeiros dias, um terror. Nenhuma notícia trazia qualquer indício de melhora. Na sexta-feira, um culto de intercessão na igreja. Lágrimas, muitas. Clamor. A igreja estava lotada. Como toda aquela gente ficou sabendo do culto, marcado de uma hora para outra? Ela começou a melhorar. Deus ouviu o choro de seu povo, e a curou. Duvida? Vá lá na igreja no próximo domingo e veja a criaturinha “reinando” soberana. Aliás, nossa igreja possui um tesouro inestimável: nem dá para contar quantas criancinhas, todas “reinando” soberanas em seus domínios.

Outra criança que nos levou aos pés de Deus em sofrimento foi o Gabriel Dantas. Ele tinha febre. Isso mesmo: febre. Por quê? Porque tinha febre. Os meses passavam, e ele com febre. Foi ficando abatido, magrinho, pálido. E a igreja orou. Chorou. Parecia não haver solução. Mas Deus interferiu, mostrou à mãe dele onde estava o problema. Ela ouviu, agiu, e, hoje, Gabriel é um jovem forte, cheio de vida, engraçado, que canta muito bem no grupo de louvor da mocidade.

E o Lucas… ai, quanto sofrimento! “Não há solução, não há tratamento.” Foi isso que os pais ouviram dos médicos. Não era essa a resposta de Deus. Por caminhos que só ele poderia imaginar, Lucas acabou em um hospital em Porto Alegre. Cirurgia arriscada. Enquanto ele ia para a sala de cirurgia, cercado por pais, avós e vários pastores, sua família e os membros de sua igreja foram para o altar de nosso templo. Prostrados, ali ficamos, chorando e clamando, até que veio a notícia: acabou e ele está bem. Continuamos orando até ele voltar para casa. E prosseguimos, durante a recuperação e os anos difíceis que se seguiram. Hoje ele está esquiando com a família no Canadá. Adulto saudável.

A pior experiência foi a que passei com minha filha Daniela. Claro, por maior que seja o amor que sentimos pelas outras crianças, nossos filhos são… nossos filhos. Em uma crise de asma, o quadro foi se complicando. Parecia que a vida dela escorria por entre nossos dedos. Nada a fazia melhorar, nenhuma injeção, nenhum remédio. Médico ao lado da cama dela, no hospital, se desdobrando, mas nada adiantava. Ele acho melhor transferi-la para a UTI, mas nem lá ela melhorou. Reverendo Manoel Ferreira foi ao hospital, ficou muito tempo conosco na porta da UTI, assim como nossa família e vários membros da nossa família da fé. Orávamos e chorávamos. O médico veio nos dizer que seria necessário colocar nossa bebezinha (ela tinha um ano) no respirador artificial. De repente, rev. Manoel sumiu com dona Hélia. Voltaram cerca de meia hora mais tarde. Ela, com uma garrafa térmica cheia de chá quentinho. Ele, em casa, pegara o rol de membros da igreja e telefonara para cada um, pedindo oração pela Daniela. O fato é que ela nunca chegou ao respirador. Assim que o povo de Deus começou a orar (e muitos foram até o hospital, orar “in loco”), ela começou a melhorar. No dia seguinte, saiu da UTI. Nem nos lembramos mais de como é o barulho da respiração do asmático.

Sim, em 50 anos, passamos por muitos tempos sombrios, por lutas e sofrimentos. Mas sempre tivemos a companhia uns dos outros, a certeza de que havia alguém se preocupando conosco, sentindo nossa dor, nos sustentando no que fosse necessário. Nem tudo é riso, mas tudo, absolutamente tudo, é amor.

4) VAI UM DINHEIRINHO AÍ?

Deve ter sido em 1964 ou 1965, ainda na capelinha de madeira na 412 Sul.

Naquela era pré-praçadealimentação, a Escola Dominical começava e acabava cedo, porque as mulheres tinham que ir para casa fazer o almoço. Muitas, como minha tia Nair, que tinha muitos filhos, nem podiam ir de manhã à igreja – afinal, era necessário até depenar galinha. Nada de congelados, nem de microondas.

Mas, naquele domingo, ninguém teve pressa de ir embora. Surgiu do nada um missionário! Foi nos visitar. No final da Escola Dominical, todo mundo voltou para o templo para ouvir o testemunho dele. Crianças sentadinhas nas primeiras filas, em cadeirinhas.

Nenhuma criança, jamais, deveria ouvir a história que aquele homem contou. Sofrera torturas horríveis, e as descreveu (passei dias sem dormir direito, lembrando daquilo) com detalhes. Ele gritava, gesticulava, andava de um lado para outro. A gente não conseguia desgrudar os olhos dele. Dizia que tudo acontecera em algum país da África.

Mulheres choravam, homens tentavam não chorar e as crianças… se torciam de pavor.

Por fim, ele bradou:

– Quando me precatei (O que será que vem a ser isso????????), eu estava agarrado nas grades, gritando!!!!!!!!!!!!

E nós quase gritamos também.

Reverendo Traxler, extremamente comovido, propôs levantar uma oferta naquele momento para ajudar o missionário tão sofrido. Nossa igreja já era generosa desde aquele tempo, e foi uma oferta substancial. Papai, muito escolado, disse para o pastor não entregar todo o dinheiro naquela hora, para tentar verificar a procedência do tal missionário. O pastor ficou bravo, achou que não era certo duvidar daquele homem que sofrera tanto pelo evangelho. Além de entregar o dinheiro, convidou-o para pregar no culto da noite. Algum membro da igreja levou o homem até a pensão onde estava hospedado.

Papai e dr. Daso resolveram tomar a frente e ir conversar com o missionário depois do almoço. Marcaram um horário e se encontraram na pensão. Você estava lá? Nem o “missionário”, claro. Nunca mais foi visto. Nem ele, nem o dinheiro.

Mas valeu a pena. A congregação, naquela manhã, pagou para termos uma história a mais para contar. De perseguição, só restaram os pesadelos que perseguiram os ouvintes durante anos, lembrando das torturas que o homem inventou.