HILÁRIO (8) – Não pode rir, tá?

Hoje é curtinho, só para matar a saudade. Estou a caminho de concluir uma tradução, e meu tempo precisa ser dedicado a ela.
Em 1988, tirei meu primeiro passaporte. Isso mesmo, em 1988. Já com meus três filhos. Serginho tinha quase oito anos, Flávia e Daniela tinham acabado de completar três.
Sou uma mãe meio esquisita. Hoje isso já não importa tanto, porque eles são adultos, mas, quando eram crianças, surgiam determinadas situações estranhas. De vez em quando, diante da necessidade de uma bronca bem dada, eu caía na gargalhada. Claro que tinha meus momentos de mãe brava, que nem eram tão raros assim, mas, muitas vezes, minhas reações eram inesperadas. Felizmente, Deus, em sua sabedoria, me deu crianças que não precisavam de muita interferência materna para se tornarem adultos equilibrados. Deus sempre sabe o que faz.
Mas o caso de hoje não envolve nenhum momento de correção, é apenas um dos fatos que aconteceu conosco.
Depois que terminou a festa de aniversário (3 anos) da Flávia e da Daniela, Henrique apresentou um projeto de irmos, papai, mamãe, filhos, genro e netos, passar um mês nos Estados Unidos. Isso foi em agosto, a viagem seria em dezembro. (Não consigo lembrar disso sem lembrar também que viajamos antes do casamento da Adriana. Grande arrependimento, viu, prima?) Com pouco tempo e tudo a preparar, corremos contra o relógio. E pensar que, hoje, fico sabendo na hora do almoço que vou viajar à noite e dá tudo certo. O que a experiência faz!
A primeira providência, claro, foi tirar passaporte e visto. Pus os três no carro e fomos até o fotógrafo. No caminho, fui aconselhando, como era meu costume. Nunca gostei de chamar a atenção das crianças, então eu tentava sempre avisar, antes, como deveriam se comportar, principalmente porque as meninas eram, digamos assim, da pá completamente virada.
– A gente vai tirar a foto para o passaporte.
– O que é passapooooooooorrrrrrrrrrte? (Elas sempre perguntavam assim, espichando bem a última palavra.)
Vou poupar os leitores de todo o diálogo, e dar uma ideia do que eu falei, inúmeras vezes:
– Vocês têm que ficar bem quietinhos. Flá e Dani, não podem ficar se mexendo no banquinho. Não é para encostar em nada, porque se alguma coisa quebrar, eu vou ter que pagar e aí… lá se vai o dinheiro da viagem. Ah, e não pode rir. Vai ter um banquinho, com um pano branco atrás. Vocês vão sentar, olhar para a câmera e ficar bem quietinhos até o moço falar que está pronto. Certo? O Serginho vai primeiro, porque ele é maior, aí vocês veem como tem que ser.
Os três entraram na loja meio ressabiados, depois de tantos avisos. Bem melhor assim. O funcionário nos levou até o estúdio. Serginho foi o primeiro, como combinado. Muito sério, ficou bem quietinho, logo a foto estava pronta.

Aqui deveria ser a foto dele no passaporte, mas eu usei para fazer um mural, então essa fica no lugar da outra.

Em seguida, a Flávia. Apesar de apenas quatro minutos separarem a idade das duas meninas, eu usava o critério do mais velho para a caçula, para facilitar as coisas. Também muito comportada, apesar do ar meio sapeca e de ficar se mexendo um pouco no banquinho.

Com 66% da tarefa concluída, lá foi a Dani, tão comedida quanto a Flá:

Alívio total! 100% de sucesso, sem necessidade de chamar a atenção de ninguém.
E chegou a vez da mãe! Os três foram para a porta do estúdio, e ficaram bem juntinhos, olhando para mim.

Bem, esse não é exatamente o estúdio, mas foi isso que eu vi: três criancinhas olhando para mim e sorrindo. E, tenho a menor ideia da origem, mas tive um acesso de riso incontrolável. Se tivesse sido alguns anos antes, com certeza teria saído de lá com a calça molhada. As crianças e o fotógrafo olhavam para mim, sem entender nada. Eu dizia:
– Tá bom, agora eu consigo.
Parava de me sacudir, mas olhava para os três e caía na gargalhada de novo. Até hoje não sei explicar do que eu estava rindo. O homem começou a ficar irritado comigo. E mandou as crianças saírem para ver se eu parava de rir.
Impasse total. Eu tinha (e tenho) PÂNICO de sequestro de crianças e jamais deixei meus filhos sozinhos em uma loja nem por um segundo sequer. Falei que não deixava de jeito nenhum, só se a porta do estúdio ficasse aberta. Ele disse que a luz atrapalharia a foto. Também que homem chato!
Eu falei que ia me controlar, mas não teve jeito. Aí eu acho que o riso já era de nervoso, de pensar em deixar meus filhinhos por 30 segundos sozinhos na loja.
Foi necessário o fotógrafo chamar a moça do caixa, aí eu ficar com vontade de chorar de medo, mas fiquei o mais parada possível e… enfim, saí do estúdio igual uma louca, chamando os meninos.
Na volta para casa, comentei:
– Vocês aprenderam hoje como a gente não pode se comportar quando vai tirar foto para o passaporte.
Ah, e a minha foto eu não ponho aqui DE JEITO NENHUM!!!!!!!!!!!!!!!!!

HILÁRIO (7) – Iolanda

Não conheço a Iolanda. Nunca a vi, não sei se é loura ou morena, gorda ou magra, alta ou baixa. Não tenho nada contra ela. Nem a favor, mas ela me proporciona, até hoje, lembranças muito agradáveis.
Antes de contar a história da Iolanda, preciso tratar um pouco de como funciona nossa igreja, a Igreja Metodista da Asa Sul, em Brasília, claro.
Há um grupo que faz parte dela praticamente desde a fundação, logo que Brasília foi inaugurada. Minha família faz parte dessa turma. Outros foram chegando um pouco depois e se integraram à “galera” inicial. Com o passar do tempo, famílias moraram algum tempo em Brasília, e fizeram parte da igreja enquanto ficaram aqui. Mas há umas pessoas interessantes: aparecem ninguém sabe de onde, como um vendaval. Participam de tudo, fazem o maior reboliço e, de repente, assim como surgiram, desaparecem.
Bem, o caso de hoje tem a ver com uma dessas famílias. Não me lembro o nome deles, recordo apenas uns apelidos nada cristãos que os adolescentes lhes atribuíram, e que não vou revelar aqui. Eles eram muito peculiares.
Na década de 80, quando eles passaram por nossa comunidade, uma das coisas mais bregas que existia era festa de 15 anos. Felizmente elas foram resgatadas, porque hoje cada uma é mais legal do que a outra. Mas, naquele tempo… ninguém fazia festança. Mas a filha completou 15 anos e foi como um casamento. Convidaram a igreja inteira, convite impresso e tudo! Sérgio logo declarou que não ia. O Amílcar também. Eles perderam, porque foi uma coisa folclórica, que ninguém que presenciou esquece.
Sem os maridos, eu e Zenaide sentamos no último banco do templo (sim, teve culto, ela entrou na igreja como noiva DUAS vezes – uma de maria-chiquinha, a outra vestida de moça). Claro que cochichamos e rimos o tempo todo, como, aliás, quase todos os outros presentes. Sei, sei, reconheço: nada cristão. Sorry, não somos perfeitos.
Na verdade, eu nunca tinha conversado com nenhum dos membros da família, acho que eles nem sabiam quem eu era. Zenaide os conhecia melhor, por causa de uma atividade que faziam juntos na igreja.
Quando acabou o culto, houve fila de cumprimentos. Sim, igual de casamento. Eu e Zenaide entramos na fila, e logo percebemos que a mãe e a filha não davam a mínima atenção para as pessoas que estavam cumprimentando. O tempo todo perguntavam uma para a outra:
– Você já viu a Iolanda?
– A Iolanda veio?
Os únicos momentos em que davam atenção aos convidados era quando percebiam que eles conheciam a Iolanda e repetiam as mesmas perguntas para eles. Foi chegando nossa vez. Não comentamos nada, mas, conversando depois, descobrimos que estávamos as duas intrigadas com a tal Iolanda.
De repente, éramos nós. As duas, paradinhas lado a lado, chiquérrimas, esperando para dar um abraço na aniversariante. Eu, constrangida, porque as duas não me conheciam. Mas elas olharam para nós, abriram o maior sorriso, e avançaram, com os braços abertos, prontas para dar um abração. Eu pensei:
– Nossa, não sabia que elas gostavam tanto da Zenaide…
Sorrimos, meio sem jeito. As duas passaram direto por nós, exclamando:
– I-O-LAN-DA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Pensa em nós duas estateladas no meio do caminho, sem saber o que fazer, com a festa acontecendo às nossas costas. Zenaide, muito circunspecta, comentou:
– Essa Iolanda deve ser alguém MUITO importante.
E eu:
– Ao contrário de nós duas.
Caímos na gargalhada e fomos comer salgadinho na festa. Acho que as duas não sentiram falta de nossos cumprimentos…