OS HOMENS E A CHUVA

Estava começando a caminhada de hoje quando encontrei minha amiga no sentido contrário. Voltei, para aproveitar uns minutinhos de conversa. Foi muito bom. Havia umas coisas no meu coração que eu precisava contar para alguém, e sei que posso contar tudo para a Bette, cobrir todos os temas, dos mais sérios aos mais bobos. Depois que ela acabou o percurso, continuei sozinha para completar meu tempo. E começou a chover. Eu lembrei do dia mencionei por alto no post sobre caminhada. E vou contar com detalhes.
Era tarde de sábado ou domingo (não lembro exatamente), e resolvemos caminhar. Pelo telefone, combinamos sair uns 15 minutos depois, por causa da rotina para enfrentar a caminhada ao ar livre: filtro solar (até no cabelo, claro), fazer rabo de cavalo, vestir roupa leve, pegar os óculos escuros, colocar o boné. A casa dela é a última do condomínio, de modo que ela passa na minha casa e daqui vamos para a rua. Quando ela chegou e Sérgio viu que íamos sair, comentou:
– Acho que vocês não repararam no tempo. Vai chover.
– Vai nada!
E saímos. Não chegamos nem no portão do condomínio e o céu já tinha desabado sobre nós.
– Vamos ou não?
– Vamos assim mesmo.
Parecia que a gente estava embaixo do chuveiro. O creme do cabelo escorria, se juntava ao protetor solar, a gente precisava segurar o boné, os óculos escuros (totalmente inúteis àquela altura) e tirar o aguaceiro do rosto. Pensa em duas mulheres parecendo loucas, chorando de tanto rir. E começou a acontecer um fato estranho. Todo carro que passava e que tinha só homens dentro buzinava para nós.
Aqui cabe uma explicação. Nosso condomínio tem 8 casas. Sempre, durante as caminhadas, passam vários carros por nós, e todos os conhecidos buzinam e acenam, claro! E nós acenamos também, apesar de, muitas vezes, não termos a mínima ideia de quem seja a pessoa que buzinou.
Assim, nas primeiras buzinadas, acenamos, certas de que eram parentes ou amigos. Por fim, percebemos que não temos tantos parentes e amigos assim e paramos de responder. Depois de certa idade, tantas buzinadas fazem um grande bem ao ego.
Para completar os 3km de ida, o último quilômetro é na pista lateral à Park Way, a via por onde entram os carros que chegam de BH, RJ e SP. O movimento é grande. E, ali, nosso sucesso foi total. Até um caminhão cheio de homens na carroceria passou empolgado, com os homens acenando para nós.
E começamos a imaginar o que acontece com os homens quando a gente está molhada. A gente cansa de caminhar por ali seca, e ninguém fica mexendo com a gente. Resolvemos fazer uma pesquisa entre parentes e amigos, com duas perguntas:
– Você acha uma mulher molhada mais atraente do que uma seca?
– Se a resposta anterior foi “sim”, por quê?
Não conseguimos nada. Nem ao menos achavam o assunto interessante. A resposta mais esclarecedora que recebemos foi do Geba:
– Não tenho a menor ideia. Mas, a partir de hoje, a Sílvia está terminantemente proibida de sair de casa na chuva.
Até hoje eu não entendo. Por que fizemos tanto sucesso naquele dia? Sei que somos maravilhosas, mas…
Quando já estávamos chegando de volta, Sérgio foi levar um guarda-chuva para nós. Rimos ainda mais. Entregamos para ele os bonés e os óculos escuros e voltamos curtindo a delícia que é caminhar na chuva.

PENSA NUMA PESSOA LERDA (5) – OPORTUNIDADE PERDIDA

Não gosto de perder oportunidades. Penso que lamentar uma coisa que não fizemos é muito pior do que uma tentativa fracassada.
Há algum tempo, Dani foi passar um ano em Sacramento. No final do período combinado, a host dela a convidou para ficar lá e cursar a faculdade. Eu já estava contando os dias para ter minha filhinha de volta quanto ela me solta essa bomba. Pensei muito e falei para ela ficar. Não queria ser responsável por ela perder uma oportunidade, já que também não gosto de deixar as coisas escaparem. Felizmente, seis meses depois ela já tinha decidido voltar para casa, onde se encontra até hoje. Ufa, foi por pouco.
Toda minha vida tem sido um aprendizado nesse sentido. Começou com meus pais, aceitando o desafio de vir para Brasília quando a cidade tinha apenas dois anos. Foi difícil deixar a família para trás, vir para uma cidade sem infraestrutura adequada, mudar totalmente a vida. Sofremos, claro, mas sou grata a eles por terem tido tal coragem. Somos muito felizes aqui…
A mesma disposição que tiveram no início da década de 60, meus pais demonstram até hoje. Mesmo com os problemas de locomoção do papai, eles participam de eventos, fazem parte de nossa vida, viajam conosco. Aliás, no início do mês, papai e mamãe fizeram aquele passeio maluco em Foz do Iguaçu, num barquinho que vai até embaixo da cachoeira, onde, recentemente, morreram DUAS pessoas! Que loucura boa!
Apesar do exemplo dos meus pais, eu precisei aprender com minha própria experiência. E uma das mais marcantes foi uma oportunidade que perdi.
Nem lembro bem como aconteceu, mas eu, Sérgio, papai e mamãe fomos para a Itália. Sei que a viagem, como tantas que já fiz, foi decidida e se tornou realidade em menos de um mês. Eu e Sérgio fomos no domingo, eles na segunda-feira. Era a primeira vez que eu ia a um país que não falava inglês. E, na época, eu não “capiscava” nada de italiano. Hoje, “capisco” um pouco. Eu estava assustada. Quando a gente sai do Brasil, eu tenho que me virar. Sérgio emudece. Ele não se interessa por línguas e, como diz, tem uma tradutora a tiracolo, pra que se preocupar? Coberto de razão. Dividimos as tarefas: ele paga, eu falo.
Chegamos a Milão de madrugada. Eu, que gosto de estudar cada lugar aonde vou, com muita calma, tive pouquíssimo tempo para ler sobre tudo: Milão, Innsbruck (Áustria – para visitar o Zillertal), Veneza, Florença e Roma. Milão era apenas nossa porta de entrada e saída, de modo que não me preocupei muito em aprender sobre a cidade. Pegamos o carro (pré-GPS, ai como sofríamos!) e a estrada que nos levaria até o hotel. Procurávamos a Vialle Monza. Não sei que burrice bateu na gente, mas, àquela hora da manhã, a única coisa que queríamos era chegar ao hotel. De repente, uma placa! Monza à esquerda! Ai, que alegria… Nossa rua devia ser uma das principais, já que tinha placa na estrada. Nem sei quanto tempo rodamos antes de conseguir entender que estávamos na cidade de Monza, e não na rua chamada Monza em Milão.
Aqui um parênteses. Sérgio é apaixonado por corridas de automóvel. Eu também gosto muito, apesar de ter perdido muito da graça depois que Airton Senna morreu. Mas o Sérgio continua inabalável. Não perde treinos nem corridas, incluindo os que acontecem no meio da noite.
Assustada por estar perdida, sem ter como pedir informações, eu só queria ir embora de Monza, encontrar a Vialle Monza. Logo vimos placas indicando Milão, comemoramos como se fosse a Terra Prometida e pouco tempo depois estávamos no hotel na Vialle Monza.
Nem sei quanto tempo depois a ficha caiu: POR QUE NÃO FOMOS VISITAR O AUTÓDROMO DE MONZA????????????????????????????????? Como dois fãs de automobilismo chegam por acaso naquela cidade e vão embora sem visitar um dos circuitos mais famosos do mundo?!? E passamos o resto do dia andando por Milão, visitando lugares que visitaríamos de novo, no dia seguinte, com meus pais.
Eu me lembro da última cena do impagável Debi & Loide. Um ônibus cheio de mulheres de biquini para, e elas dizem que precisam de dois rapazes para passarem protetor solar nelas. Os dois mostram o caminho da cidade e comentam que dois caras de lá vão se dar muito bem. E um diz ao outro (e faço minhas as palavras dele):
– Um dia a gente também vai se dar bem. É só a gente não bobear…
Bom, mas eu garanto que não voltei a perder esse tipo de oportunidade. Pelo menos ainda não me dei conta de nenhuma… Se lembrar, escrevo o PENSA NUMA PESSOA LERDA (6). kkkkk