PENSA NUMA PESSOA LERDA (5) – OPORTUNIDADE PERDIDA

Não gosto de perder oportunidades. Penso que lamentar uma coisa que não fizemos é muito pior do que uma tentativa fracassada.
Há algum tempo, Dani foi passar um ano em Sacramento. No final do período combinado, a host dela a convidou para ficar lá e cursar a faculdade. Eu já estava contando os dias para ter minha filhinha de volta quanto ela me solta essa bomba. Pensei muito e falei para ela ficar. Não queria ser responsável por ela perder uma oportunidade, já que também não gosto de deixar as coisas escaparem. Felizmente, seis meses depois ela já tinha decidido voltar para casa, onde se encontra até hoje. Ufa, foi por pouco.
Toda minha vida tem sido um aprendizado nesse sentido. Começou com meus pais, aceitando o desafio de vir para Brasília quando a cidade tinha apenas dois anos. Foi difícil deixar a família para trás, vir para uma cidade sem infraestrutura adequada, mudar totalmente a vida. Sofremos, claro, mas sou grata a eles por terem tido tal coragem. Somos muito felizes aqui…
A mesma disposição que tiveram no início da década de 60, meus pais demonstram até hoje. Mesmo com os problemas de locomoção do papai, eles participam de eventos, fazem parte de nossa vida, viajam conosco. Aliás, no início do mês, papai e mamãe fizeram aquele passeio maluco em Foz do Iguaçu, num barquinho que vai até embaixo da cachoeira, onde, recentemente, morreram DUAS pessoas! Que loucura boa!
Apesar do exemplo dos meus pais, eu precisei aprender com minha própria experiência. E uma das mais marcantes foi uma oportunidade que perdi.
Nem lembro bem como aconteceu, mas eu, Sérgio, papai e mamãe fomos para a Itália. Sei que a viagem, como tantas que já fiz, foi decidida e se tornou realidade em menos de um mês. Eu e Sérgio fomos no domingo, eles na segunda-feira. Era a primeira vez que eu ia a um país que não falava inglês. E, na época, eu não “capiscava” nada de italiano. Hoje, “capisco” um pouco. Eu estava assustada. Quando a gente sai do Brasil, eu tenho que me virar. Sérgio emudece. Ele não se interessa por línguas e, como diz, tem uma tradutora a tiracolo, pra que se preocupar? Coberto de razão. Dividimos as tarefas: ele paga, eu falo.
Chegamos a Milão de madrugada. Eu, que gosto de estudar cada lugar aonde vou, com muita calma, tive pouquíssimo tempo para ler sobre tudo: Milão, Innsbruck (Áustria – para visitar o Zillertal), Veneza, Florença e Roma. Milão era apenas nossa porta de entrada e saída, de modo que não me preocupei muito em aprender sobre a cidade. Pegamos o carro (pré-GPS, ai como sofríamos!) e a estrada que nos levaria até o hotel. Procurávamos a Vialle Monza. Não sei que burrice bateu na gente, mas, àquela hora da manhã, a única coisa que queríamos era chegar ao hotel. De repente, uma placa! Monza à esquerda! Ai, que alegria… Nossa rua devia ser uma das principais, já que tinha placa na estrada. Nem sei quanto tempo rodamos antes de conseguir entender que estávamos na cidade de Monza, e não na rua chamada Monza em Milão.
Aqui um parênteses. Sérgio é apaixonado por corridas de automóvel. Eu também gosto muito, apesar de ter perdido muito da graça depois que Airton Senna morreu. Mas o Sérgio continua inabalável. Não perde treinos nem corridas, incluindo os que acontecem no meio da noite.
Assustada por estar perdida, sem ter como pedir informações, eu só queria ir embora de Monza, encontrar a Vialle Monza. Logo vimos placas indicando Milão, comemoramos como se fosse a Terra Prometida e pouco tempo depois estávamos no hotel na Vialle Monza.
Nem sei quanto tempo depois a ficha caiu: POR QUE NÃO FOMOS VISITAR O AUTÓDROMO DE MONZA????????????????????????????????? Como dois fãs de automobilismo chegam por acaso naquela cidade e vão embora sem visitar um dos circuitos mais famosos do mundo?!? E passamos o resto do dia andando por Milão, visitando lugares que visitaríamos de novo, no dia seguinte, com meus pais.
Eu me lembro da última cena do impagável Debi & Loide. Um ônibus cheio de mulheres de biquini para, e elas dizem que precisam de dois rapazes para passarem protetor solar nelas. Os dois mostram o caminho da cidade e comentam que dois caras de lá vão se dar muito bem. E um diz ao outro (e faço minhas as palavras dele):
– Um dia a gente também vai se dar bem. É só a gente não bobear…
Bom, mas eu garanto que não voltei a perder esse tipo de oportunidade. Pelo menos ainda não me dei conta de nenhuma… Se lembrar, escrevo o PENSA NUMA PESSOA LERDA (6). kkkkk

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