21) CANTANDO VOU

Alguém me disse que Bach afirmava que toda nota tocada neste mundo deveria ser em louvor a Deus. Quem sou eu para discordar dele? A música nos leva bem pertinho de Deus. E a música na Igreja Metodista da Asa Sul sempre foi da melhor qualidade!

Tanto o Coral “oficial”, quanto outros, como o dos Homens, e os grupos com menos componentes, quanto o momento de louvor. Sempre música excelente!

Mas eu quero falar especificamente do Coral. Se você quiser fazer amizades na IMAS, entre para o Coral. É o melhor caminho para conhecer pessoas, se entrosar, louvar a Deus e… se divertir muito.

Poderia encontrar 50 histórias apenas acontecidas no Coral. Já até contei uma, em BRASIL x HOLANDA (https://claudiazillerfaria.com/2012/04/10/10-brasil-x-holanda/). Hoje vou contar outra, em que o astro é meu cunhado Joel.

O Coral foi cantar em Anápolis, a convite do Seu Oséias, que morava lá na época. Ônibus alugado, todo mundo acomodado, caminho rodado, culto começado. Joel faria um solo. Digo faria, porque não fez.

Não sei por que cargas d’água, em vez de segurar a partitura, foi fazer o solo olhando a letra na partitura do companheiro ao lado. E disse que a culpa foi do pobre inocente. Falou que ele tremia e, por isso, Joel não conseguia enxergar a letra. Falou as duas primeiras palavras e… não sabia continuar. Ficava fazendo:

– Ummmmmm, zummm, ummmm…

Seguindo a melodia, claro. O coitado que funcionava como porta-partituras começou a rir (como, de resto, todo o Coral) e balançava cada vez mais o papel. Joel via cada vez menos. E prosseguia, animado, no solo:

– Ummmmm, zummmm, ummmm, zummm…

Foi assim até o final.

E, depois que o culto acabou, cadê a coragem para entrar no ônibus? Como não tinha outro jeito, precisava voltar para casa e o que havia era aquele ônibus, enfrentou a galera. Claro que foi trucidado, tadinho. Entrou e todo mundo:

– Ummmm, zummm, ummmm, zummmm…

A música foi batizada de “Melô da Mosca”. Se chama assim até hoje.

Para não criar um problema em família, preciso dizer que ele canta muito bem, tem voz linda, e já fez inúmeros outros solos sem esquecer a letra. Bem… tem uma ocasião em Alphaville, mas isso fica para outra hora.

13) A VIDA POR UMA PANELA

Todos admiram pessoas capazes de dar a vida por outra. É a expressão maior de amor. Muito mais admirável, então, alguém capaz de entregar a própria vida por uma panela! Vi isso acontecer, com estes olhinhos que olham para a tela no presente momento. Imagem gravada de forma inesquecível em minha memória.

Bem, vamos ao que me fez lembrar desse momento sublime.

Ontem, Luiz Tiveron postou uma foto de um acampamento em 1981. Muitos comentários, tentativas de descobrir onde foi (pelo pouco que se vê, era um lugar, digamos assim, pavorível. Pelo menos para mim, uma pessoa 101% urbana. Bem, isso me fez lembrar de outro lugar bem horroroso em que nossa mocidade acampou. Barro Preto. Nome sugestivo, não? Eu não dormia lá. Só passava o dia e depois… pra minha casinha!

O lugar era só uma casinha pequena, cercada de mato e barro por todos os lados, uma ladeira (de barro preto, claro) que levava a um rio. À margem do rio, um bambuzal. As meninas dormiam na casinha e os garotos dentro dos carros ou em barracas. Pensa no conforto. Um banheiro só para dez mil jovens.

Na cozinha, reinava, soberana, dona Cleuza. Assim sendo, apesar do lugar abaixo do precário, comíamos MUITO bem. Depois do almoço, os meninos tinham que lavar os panelões no rio.

Um dia, não sei por que motivo, estávamos só eu, Adelchi e Joab na beira do rio. Os dois lavavam as panelas e eu batia papo. Adelchi ficou bem na beirada, e Joab entrou um pouquinho mais. Tinha chovido, e a correnteza estava forte. Joab caiu e foi arrastado para o meio do rio, agarrado na panela. Entramos em pânico, mas Adelchi teve a presença de espírito de quebrar um bambu bem comprido e estender para o Joab pegar a ponta. Ele pegou, mas a panela, presa só por uma das mãos, encheu de água, ficou pesada e… foi embora na correnteza.

Joab não titubeou. Gritou:

– A panela! Minha mãe vai me matar!

Largou o bambu e pulou no rio atrás da panela. Lá se foi, carregado pela correnteza. Adelchi gritava, eu também.

– Esquece a panela, agarra o bambu!

Adelchi ia correndo pela margem, acompanhando o Joab. Graças a Deus, ele ficou preso em uns galhos, mas ainda tentava se soltar para pegar a maldita panela. Vendo a catástrofe se aproximar, pensei que devia buscar ajuda. A casinha tinha uma varanda, e o pessoal estava todo lá, naquele papo gostoso de depois do almoço.

Subi a ladeira correndo e escorregando no barro. Caí, me levantei, caí de novo, mas consegui completar a escalada. Cheguei esbaforida à varanda e gritei:

– Alguém aí sabe nadar?

Pensa na situação ridícula. Uma pessoa toda suja, sem fôlego, perguntando se alguém sabia nadar num lugar em que natação era completamente impossível. Ninguém respondeu.

– Gente, alguém sabe nadar?

Nada ainda.

– Alguém precisa fazer alguma coisa, o Joab está morrendo afogado!

Por que não falei isso primeiro? Tá, sou lerdinha. Mas ISSO motivou todo mundo. Começaram a falar todos ao mesmo tempo, corremos todos para o rio. Ele ainda estava agarrado nos galhos e ainda queria ir atrás da panela. Com os dez mil gritando para ele esquecer a porcaria da panela e agarrar o bambu, finalmente ele se convenceu.

Foi difícil ele sair do rio, a correnteza estava muito forte mesmo. Outros rapazes também pegaram bambus, deram as mãos, até que um alcançou o Joab, que já estava muito fraco pelo esforço de tentar pegar a panela.

Graças a Deus, de verdade, de coração – não é só um modo de dizer. Graças a Deus o Joab não se afogou naquele dia. Mas ficou, para sempre, o exemplo de uma pessoa capaz de doar a vida por uma simples panela (ou por medo da bronca da mãe…).