RAINHA DA FRANÇA

Uma luz amarelada, fraca, gostosa, era a única iluminação no ambiente. Dentro do ofurô quentinho, temperado com essência e óleos de lavanda, eu passava pétalas de flores pelo corpo para tirar a aveia da esfoliação que tinha acabado de fazer. Alguém abriu a porta, quase sem fazer barulho. Baixinho, falou:

– Trouxe sua água, as castanhas e o espumante.

Colocou a mesinha ao lado do ofurô e me deu uma toalha para eu enxugar as mãos e pegar castanhas, caso quisesse. Provei. Tomei um gole do espumante. E pensei:

– Toda mulher deveria ter o direito de receber esse tipo de tratamento!

Voltemos ao início, um bom lugar para começar. Amo de paixão o lugar onde estava. Nuwa Spa. Sérgio e nossos filhos sabem disso e gostam de me dar de presente pacotes que o Nuwa prepara em datas especiais, como Dia das Mães e dos Namorados. Também já ganhei como presente de aniversário e de aniversário casamento. Falo sério: é o presente que mais me deixa empolgada! Todos os tratamentos e massagens que fiz no Nuwa foram excelentes, comparáveis apenas aos que fiz nas Thermas de Araxá. Mas o local, aqui, é muito mais agradável. Então. Ganhei um pacote de presente no Dia das Mães. Marquei para ontem: cerca de quatro horas de “tratamentos” que vou contar para curiosos e curiosas de plantão.

Cheguei, recebi o chinelo do número do meu pé (importante dizer – já fui a um lugar de massagem em que os chinelos pareciam pranchas de surf!), o roupão e a chave do armário. O rapaz informou:

– Seu pacote é o Rainha da França.

Pensei:

Muito adequado!

Fui até o vestiário. Tirei os sapatos e pisei no chão. É aquecido. Juro que é. Bem, tirei a roupa, vesti o roupão e fui para a sala em que tudo começa.

Escalda-pés. Água bem quente, óleos, flores, rodelas de laranja. Peguei o travesseirinho, apoiei a cabeça no encosto do sofá e falei para a mulher que estava ao meu lado:

– Se eu roncar você me acorda, tá bom?

Ela riu e ali ficamos, escaldando os pés. A Silvana chegou, massageou meus pés e fomos para a sala de massagem, aquela que descrevi no início. Esfoliação com creme à base de aveia e mel. Retiradas todas as células mortas, Silvana falou:

– Vamos para o ofurô para a senhora descansar um pouco?

Como assim, descansar de quê? Na verdade, eu fico meio constrangida. Ela, tão atenciosa, acho que precisava de descansar muito mais do que eu. Enfim, lá fui eu. Lavei toda a aveia e o mel, usando as flores e os óleos de lavanda. Ela colocou uma toalha para apoiar minha cabeça e saiu. Foi aí que veio a moça com as castanhas, o espumante e a água.

Não tenho a menor ideia, nem quero ter, de quanto tempo depois a Silvana voltou. Voltei à cama (aquilo não é maca!) para hidratação com cremes. Depois, 50 minutos de massagem relaxante com óleo de uvas. Ela massageava pescoço e ombros e eu ia sentindo os nós se soltando. Pensa que acabou? Engana-se. Ela saiu da sala de novo para eu descansar mais. E ainda não tinha acabado.

Como não tinha tomado todo e espumante, nem comido todas as castanhas, a mesinha voltou comigo, como num passe de mágica, para a sala onde tudo começou. Lá, mais massagens, específicas para mãos e pés. Eu falei para a Silvana que achava que nem havia mais o que hidratar ou massagear. Ela riu. Perguntei se elas, as massagistas, recebem massagem de vez em quando. Ela disse que é raro. Muitíssimo injusto. Elas deveriam receber sempre. Abençoam muito a gente com aquelas mãos de fada.

Depois disso, aí, sim, acabou. Já eram oito da noite. Quatro horas de descanso e relaxamento. Que delícia! Eu me senti, mesmo, a Rainha da França. E afirmo e reafirmo que toda mulher deveria ter o direito de ser Rainha da França de vez em quando. É uma pena. Em muitas famílias, ninguém pensa no que elas gostariam. Há mulheres que negam a si mesmas qualquer tipo de atividade que não envolva obrigação, tarefa, dever. Felizmente, meus amados aqui em casa gostam de massagear meu ego, e eu fico exultante de aceitar essas massagens.

Sendo assim, viva eu, a Rainha da França! Bem, hoje já estou aqui, de volta à rotina de estudar para o concurso, mas o tratamento de ontem me deu combustível para bastante tempo. Avante, Maria Antonieta!

E A COPA?

No dia 20 de maio completamos 19 anos morando aqui nesta casa. Daqui a alguns dias, começa a quinta Copa do Mundo que assistimos aqui. Assistimos mesmo. Família reunida. Todo mundo de uniforme da seleção. 

Antes, com televisões menores, Sérgio levava para a churrasqueira, arrumava um toldo para diminuir a claridade, a gente levava o microondas para a pipoca, e a festa era lá. Depois, a televisão grande, na sala, e Sérgio refugiado em nosso quarto, porque nós, mulheres, fazemos barulho demais. A festa passou a ser dentro de casa mesmo.

Houve um momento de tensão. Brasil perdendo. Meu cunhado Joel brigando com os jogadores. E eu brigando com o Joel. Por fim, ele falou:

– Não estou incomodando ninguém!

E eu:

– Está ME incomodando!

O coitado foi embora, claro. A dona da casa fala que ele está incomodando. Me perdoe aí, viu, Billy? Não vou fazer isso nunca mais.

Fora esse incidente, sempre é uma delícia. Vai chegando o horário do jogo e a turma vai aparecendo. Com refri, pipoca, bolo, paçoca, e outras coisinhas gostosas.

Não me esqueço do dia em que a seleção voltou, depois daquele jogo contra a França. Fomos para perto do aeroporto, como sempre fazemos quando eles passam por aqui. O ônibus passou por nós, e todos lá dentro estavam olhando meio desconfiados para as pessoas no caminho. Zagallo estava no primeiro banco, com ar triste. Passou bem perto de mim, acenei para ele, fiz sinal de positivo. Ele hesitou e acenou para mim com um sorriso meio sem graça. Depois, em entrevista, ele e os jogadores disseram que estavam assustados, achando que íamos brigar com eles. Mas estávamos lá para dar uma força, para dizer que amamos nosso time de futebol. Clarice os viu já no centro da cidade. A situação era outra. Todas as janelas abertas, eles com meio corpo para fora do ônibus, acenando alegres para os torcedores. É assim o relacionamento dos brasileiros com a seleção. Fazer o quê? Aproveitar e torcer.

O melhor dia foi quando o Brasil foi campeão, na Copa seguinte, em jogo contra a Alemanha. Fizemos um brunch só com comidas alemãs. Cada um trouxe uma coisa. Até linguiça branca e chucrute nós conseguimos. Tínhamos tanta certeza de que íamos ganhas que já preparamos antes. E foi só correr para o abraço.

Tenho cumbucas verdes e amarelas que só usamos durante as Copas. Bandeiras que penduramos na varanda. Houve um ano em que enfeitamos a garagem com bandeirinhas verdes e amarelas, daquelas de festa junina.

E eu pergunto: e neste ano, como será?

Espero que do mesmo jeito. Todos reunidos, torcendo, rindo e chorando, como costumamos fazer.

Penso em como seria se os preparativos para a Copa não tivessem envolvido tanta corrupção, tantos desmandos, tanto engano… O Brasil estaria todo pintado com nossas cores nacionais, o povo cantando e dançando pelas ruas. É uma pena, mas eu vou torcer. Como sempre, apaixonada pela seleção. Espero, de todo coração, que a família queira se reunir aqui de novo. E, se ganharmos, vou celebrar. 

E se acharem que sou alienada? Bem, não sou muito de pautar o que faço pela opinião alheia, então… Brasi-i-i-i-i-i-lllll!!!!!