8) NA CABEÇA

Coral = diversão. Sim, muito ensaio, compromisso durante a semana, chegar mais cedo no domingo, deixar de ver o jogo do time do seu coração. Mas os cantores se divertem muito, posso garantir.

Hoje, não faço parte do Coral sempre. Apenas nas Cantatas. Durante muitos anos, porém, fui figurinha carimbada. Então, quando afirmo que é divertido, sei do que estou falando. Acontecem coisas que ninguém nem imagina. Há piadas e brincadeiras “internas” que os outros não entendem.

Tenho muitas histórias de Coral para contar, mas preciso poupar, porque quero escrever 50, e ainda estou na oitava!!!!! Se reunir muitas em uma só, vou acabar sem matéria-prima.

Vamos ao que interessa.

Certa noite estrelada de domingo, lá estava o magnífico Coral IMAS sentado de frente para a congregação. Becas azuis tão quentes que a gente emagrecia uns 3kg a cada culto (Coral também é boa forma física). As tais becas azuis eram saunas portáteis disfarçadas.

Eu e Zenaide sempre sentávamos uma ao lado da outra, na primeira fila. Ela passava por um período de dor de cabeça constante, mas, apesar disso, não deixava nunca suas atividades prediletas. O regente era o seu Tácito. Nos levantamos para cantar, e deixamos as Bíblias e bolsas juntas, entre nós duas. Terminada a música, seu Tácito nos mandou sentar. Viramos ao mesmo tempo para pegar nossas coisas depressa, para não ficar em pé depois dos outros e… PUM, PAFF, TOW (qual é o barulho de duas cabeças se chocando?).

A cabeçada foi tão forte que caímos as duas sentadas no banco, meio tontas (e ela inda estava com DOR DE CABEÇA!!!!!). Fui tomada, imediatamente por um acesso de riso incontrolável. Quanto mais tentava parar, mais ria. Amílcar e Sérgio, atrás de nós, tentavam nos fazer parar, mas, quanto mais eles chamavam nossa atenção, mais a gente ria. Não sei de onde o Amílcar tirou a ideia de que seria bom me dar uma coisa para ler no hinário. Achei graça da ideia dele e ri mais ainda. Sabe aquela situação em que você está quase conseguindo controlar e a outra pessoa dá uma sacudidinha e volta tudo? Pois é.

Quando vi que não ia me controlar, resolvi sair um pouco. Sacudindo com as risadas, fui passando pelas outras coristas, e… tropecei naquele negócio em que a gente ajoelha e saí catando cavaco pela frente do templo. Consegui não cair, saí, ri de chorar, até que me controlei. Como ainda íamos cantar uma música, voltei.

Como diz a Julia Roberts em Uma Linda Mulher: “Big mistake! Big, big mistake!”. Assim que sentei ao lado da Zenaide, ela deu uma risadinha e pronto. Vieram GARGALHADAS! Tive que abandonar o culto por completo. Não houve recuperação possível.

E acho que a cabeça dela parou de doer naquela noite. Ficou livre da dor pelo menos por algumas semanas…

7) SERENATAS

Acho que ninguém mais faz serenata. Talvez eu esteja envelhecendo, mas sinto que os jovens perderam uma coisa muito boa quando o costume foi abandonado.

Não havia um acampamento sem serenata. Caprichada. Com solos, divisão de vozes. As meninas corriam agitadas de um lado para o outro no quarto escuro, de camisola, tentando enxergar os garotos. Era um tal de “shhhhhh, fica quieta” que ninguém aguentava. Claro que a gente tinha múltiplos acessos de riso de puro nervoso. Quando eles acabavam a “linda” apresentação, a gente acendia e apagava as luzes duas vezes, para eles saberem que tínhamos ouvido (como se não tivessem ouvido toda a correria e risadaria de antes).

Certa vez, o acampamento foi… dentro. Isso mesmo, no nosso prédio. Os meninos dormiam no andar de baixo e nós, no de cima. Com as portas trancadas, para não haver qualquer “interação” oculta. Não havia parede entre a sala que hoje é dos juvenis e a dos jovens, de modo que era um espaço bem amplo, então todas as meninas dormiram ali mesmo. Sei que havia outra igreja também, não tenho certeza se era o pessoal de Belo Horizonte, ou de outra igreja daqui de Brasília mesmo. O fato é que ficamos deitadas, conversando e rindo, à espera da infalível serenata. De repente, movimento lá embaixo. Todas corremos para a janela. Bernadette e Daso namoravam, e ela queria ver o amado cantando para ela. Mas tinha menina demais, tomaram conta de todo o espaço disponível. Empurra daqui, empurra dali, Bette conseguiu chegar à janela. Alguém cochichou: “Olha o Daso ali!”. Ela, empolgadíssima, foi olhar e… pow! uma cabeçada monumental no vidro da janela. Foi menina caindo pra todo lado de tanto rir. Depois que a tontura passou, a coitada conseguiu vislumbrar o futuro marido por alguns breves instantes.

Bem, mas a serenata mais inesquecível de todas foi feita pelo coral. Poucos dias antes do Natal, alguém fez uma lista com endereço de membros da igreja que não cantavam no coral. E o grupo saiu, fazendo serenata de Natal!!!! Não me lembro em que ano foi, mas tem muito tempo. Foi tão gostoso! Até os vizinhos abriam as janelas para ouvir os hinos lindos, e muitos perguntavam de onde era aquele grupo. Ah, e foi surpresa! Era bom ouvir alguns dizendo, espantados: “Nossa, é o coral da minha igreja!”. Claro que gostaram do presente inesperado de Natal.

Seja para rir ou levar a sério, sinto, mesmo, muita saudade das serenatas embaixo da janela…