FRAGOSO ALCANTIL

O refrão de uma de minhas músicas prediletas diz:

No fragoso alcantil, na amplitude celeste,

Um hino ressoa ao Senhor.

É o Hino 120 do Hinário Evangélico. Eu pensava em fragoso alcantil como uma campina bem verde. Nada disso. Meu hino tão querido fala de um dos lugares que mais amo no mundo, onde desejaria muito estar agora.

Fragoso significa de acesso difícil, agreste, áspero. Alcantil, escarpa bem altas, despenhadeiro.

Esse lugar que amo povoou minha imaginação durante muito tempo. A primeira vez que vi uma foto eu deveria ter sete ou oito anos. Fiquei tão maravilhada que não cheguei nem a sonhar em ir lá. Era inatingível, impossível. A fascinação cresceu com o passar do tempo.

Cresci, descobri o nome do lugar. Continuei a cantar o hino, sempre pensando em uma campina verde ao cantar o refrão. Simplesmente deduzi, nunca fui procurar no dicionário.

Com 31 anos eu fui até lá. Era inverno, ele estava coberto de neve. Primeiro contato com a neve naquele lugar. Deus me dá cada presente! Lindo demais. Chorei de emoção ao vê-lo. Parece que Deus passou o dedo pela superfície terrestre para criar. Parece, não. Passou mesmo.

Voltei depois no verão. O sol estava se pondo. Ele, todo dourado, brilhava à minha espera. Mais bonito do que nevado? Não sei. Prefiro no calor, porque dá para aproveitar mais. No inverno a gente só quer voltar correndo para o carro aquecido. No verão, fiquei andando por ali, contemplando, cantando, envolvida pela beleza inimaginável.

Nenhuma das fotografias que vi, nenhum dos filmes a que assisti, consegue dar ideia da grandiosidade do lugar.

Da última vez, estive em uma parte que não conhecia, porque antes era fechada ao público. Hoje, uma passarela de vidro sobre o abismo imenso aterroriza e encanta os turistas.

Tanto envolvimento emocional com esse lugar e eu não sabia que o refrão do meu hino querido falava dele. Um dia, há pouco tempo, dei-me conta de que não conhecia o significado das duas palavras. Com surpresa, verifiquei no dicionário que vinha cantando, desde criança, o que meu coração fazia diante do Grand Canyon: cantar hinos de louvor a Deus ao contemplar o despenhadeiro imenso, num lugar árido, de difícil acesso!

E volto a pensar: é, Deus tem, mesmo, senso de humor. Bem que eu gostaria de estar lá no Grand Canyon agora, neste exato momento.

Eu e minhas irmãs no Fragoso Alcantil. Estamos no cantinho porque não tive coragem de pisar no vidro.

Eu e minhas irmãs no Fragoso Alcantil. Estamos no cantinho porque não tive coragem de pisar no vidro.

BLANK

Aparece quando a gente entra em uma página da internet que não tem nada: blank. De vez em quando minha cabeça fica exatamente assim diante da tela do computador: blank! Vida de blogueira não é moleza. Há dias em que tudo flui que é uma beleza. Em outros, parece não haver nada a escrever. Muitas vezes, esse blank dura dias, ou semanas.

Acontece que uma pessoa que precisa escrever PRECISA ESCREVER! Se não coloco em palavras estruturadas, em papel ou aqui no blog, um pouco do que borbulha dentro de mim, fico igual a uma panela de pressão a ponto de explodir. E a minha explosão está mais para implosão. Mergulho em uma rotina de retroalimentar os pensamentos, em especial os negativos, que me deixa fraca.

E penso: serei eu uma escritora? Demorei anos para conseguir me pensar como tradutora. Ainda o sou, mas não venho exercendo a profissão. Estou mais para escritora, hoje. Será que livros publicados por mim mesma, no Kindle, me qualificam para o título que me parece inatingível? Stephen King escreveu um livro para escritores – On Writing – onde afirma que, se você escreve, você é escritor. Mas, para mim, é bem difícil me classificar assim.

Por enquanto, sou, no máximo, blogueira, com um livro publicado por mim mesma no Kindle, e outro prestes a seguir o mesmo caminho.

Será que o fato de ter bloqueio em temas para o blog me qualifica como pessoa que tem bloqueio de escritor? Lanço a pergunta ao espaço sideral.