TANGENDO A LIRA (2)

Nos dias 5 e 8 de março, escrevi sobre uma linda poesia que meu avô dedicou a seus netos, que termina pedindo para continuarmos a “tanger a lira” depois da morte dele.  E dizia que, em nossas conquistas, ele continuaria a cantar, apesar de não estar mais entre nós.
Nesse último fim de semana, vovô cantou a valer.
Durante 25 anos, ele se dedicou a uma obra monumental: traduziu a Divina Comédia, de Dante, do italiano para o português. Ninguém mais qualificado do que ele. Italiano foi sua língua nativa. Português, a que ele escolheu para sua vida adulta. Sendo ele mesmo poeta, sabia como fazer poesia, não apenas traduzir poemas.
Não teve seu trabalho reconhecido em vida. Sua tradução foi publicada duas vezes, mas em tiragens pequenas.
Meu primo Zilmar sonhou e realizou: uma publicação à altura da obra. Ah, ouvi o vovô cantando muito, super feliz. O volume que está à venda nas melhores livrarias por todo o país é uma beleza. Contém o texto em italiano e português. As ilustrações são de Boticelli. Zilmar trabalhou duro na revisão do texto, acompanhando passo a passo todas as etapas da publicação.
No sábado passado, final da tarde, a Zillerada se reuniu para o lançamento oficial do livro:

A gente quase que ouvia o canto do vovô, literalmente. Nossas risadas que ecoavam pelo salão certamente seriam música para ele.
Por ser tradutora, imagino a dificuldade que vovô enfrentou para trabalhar com texto tão longo, num tempo em que não existia nem ao menos máquina de escrever elétrica. Quando eu erro, basta digitar por cima, acrescentar palavras, apagar outras. Ele tinha que datilografar tudo de novo! Foram 25 ANOS, sem receber pagamento, só por amor à obra, ou, para falar bonito, por diletantismo.
A obra que Zilmar produziu faz jus a tanto esforço do vovô. As ilustrações são de Boticelli!!!!!!! Dá para acreditar? João Ziller, com certeza, nunca pensou nisso. E Zilmar também trabalhou por diletantismo.
Apesar de todo o luxo do livro, eu acredito que o que mais encheria o coração do vovô de alegria está retratado nas fotos abaixo: o encontro delicioso de seus descendentes. Cada um tangendo a lira da melhor forma possível.
Há quem pense que as crianças não se interessam por tais assuntos. Alice, da altura de seus 7 anos, participou ativamente de tudo. Assim que encontrei meu exemplar da Divina (como dizemos na família), sentei em um sofá e fui folhear. Ela sentou do meu lado, depois me tomou o livro. Achou tudo interessantíssimo. Quanto às ilustrações maravilhosas, encontrou semelhanças com os filmes de Nárnia. Viu o leão, achou os centauros, identificou até um semelhante ao Mr. Tumnus. Assim, vai aprendendo que as obras clássicas não são restritas a poucos nerds. É, vovô, estamos tangendo a lira! Ah, e com muita alegria.

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