AVENTURAS DAS AMIGAS ADOLESCENTES

Era domingo. Almoçávamos no shopping. Família toda, como quase sempre. Na quinta-feira seguinte, sairia a excursão Platinum para Orlando. Dani, que morava na Califórnia, iria para Orlando e trabalharia como guia. Flávia iria alguns dias depois, para trabalhar 6 meses na Disney.
Conversa vai, conversa vem, decidido: Cláudia via na excursão. Encontra a Dani e a Flá ao mesmo tempo!
Flávia criou uma história engraçada. Renata, Júlia, Isabela, Amanda, Paulinha e Gui também faziam parte do grupo. Ela disse para eles que uma mulher chatíssima, chamada dona Laura, tinha entrado de última hora na excursão. Falou que a mulher ia atormentar todo mundo. Minha ida ficou em segredo e todo mundo temendo a tal dona Laura.
No dia da viagem, descobriram que era eu quando embarquei junto. Dani não sabia que eu ia, de modo que foi uma surpresa para ela (espero que boa, né?) me encontrar no aeroporto de Orlando. A garotada da excursão, mesmo a turma que não nos conhecia, achou a história o máximo, e participou ativamente do encontro, curtindo comigo, me escondendo até o último minuto para a surpresa ser completa.

Claro que eu e Dani ficamos no mesmo quarto no hotel, junto com Thaís e Bárbara, que logo se tornou minha amiga adolescente.

Apesar dela ser da idade do meu filho, acabou fazendo mais amizade comigo e com a Renata do que com a garotada. Nos divertimos a valer. Mas o ápice foi o Epcot Center.
Renata contou que existe um passaporte que a gente compra e vai de um país a outro carimbando. Achamos a ideia o máximo, e resolvemos fazer isso. Passamos a manhã nas outras atrações e, à tarde, rumo aos países. Renata gripada, com febre, e eu e a Bárbara a arrastar a coitada de um lado para outro.
Descobrimos, na “barraca” do México, uma salinha para colar todos os adesivos (é, tem UM MONTE de adesivos para colar no passaporte).

Sei que parece sala de espera de alguma costureira, mas é, sim, uma salinha no pavilhão do México do Epcot Center. Adesivos colados, lá fomos nós. Meio lerdinhas, só por volta do terceiro ou quarto pavilhão foi que nos demos conta de que o tal passaporte era uma atividade PARA CRIANÇAS. Ou seja, em cada país, na fila para carimbar os supracitados, havia umas dez criancinhas e… três patetas. A gente ria de se dobrar. A coitada da Renata, com febre, sentava e dizia que não aguentava mais. Eu e Bárbara, em nossa energia adolescente, puxávamos a coitada, e lá ia ela, arrastada.

A pobre coitada ainda arrumou forças para sorrir.

Entre trancos e barrancos, conseguimos TODOS os carimbos. Demos a volta ao mundo. Foi a tarde mais divertida que já passei no Epcot Center. Coisa boa é, de vez em quando, esquecer que a gente já passou da idade de fazer uma coisa e fazer assim mesmo. As criancinhas das filas olhavam pra nós com cara de espanto, os cast members que carimbavam os passaportes também, e alguns até riram. Mas posso garantir que, naquela tarde, relaxamos como poucas vezes na vida. Nenhuma das três pensou em problemas.
Houve apenas um contratempo, e bem sério: descobrimos que Bárbara, uma amiga adolescente tão legal, torce para aquele time cujo nome não pronunciamos. Foi uma tragédia. Mas estava tão divertido que decidimos relevar esse grave defeito de caráter.
Bem, meu intuito maior na viagem era encontrar minhas duas filhas ao mesmo tempo. Essa tarde divertidíssima foi um bônus a mais que Deus me deu. E eu as encontrei, como queria:

E, com mais um bônus especial, encontrei a primAdriana dentro da Victoria’s Secret. A sacola era dela. A minha eu ainda não tinha enchido. E enchi a valer:

Nesse tempo, ela ainda não era guia Platinum… Agora é!!!!!!

COMO APRENDI A ASSUSTAR CRIANCINHAS

Morar em Brasília no início da década de 60 foi um privilégio. Tínhamos os confortos das cidades grandes e as delícias das pequenas. Até hoje eu acho que morar aqui é um privilégio. Por mais que conheça outros lugares, nunca encontrei nenhum com a qualidade de vida de que desfrutamos.
E não me venham dizer que todo mundo em Brasília é ladrão e rouba do contribuinte. Os que roubam são os que os moradores dos outros estados mandam para a gente aqui. Nós trabalhamos honestamente, como os cidadãos de todos os outros lugares.
Mas vamos ao que interessa: assustar criancinhas.
Naqueles primeiros anos em Brasília, surgiam histórias apavorantes, que iam passando de boca em boca e criavam uma verdadeira histeria coletiva.
A primeira de que me lembro foi A Loura. Era uma mulher, obviamente loura, que havia sido assassinada. Em busca de seus assassinos, ela aparecia a toda hora, por toda parte. A preferência da Loura era surgir atrás de você, no espelho do banheiro. Que medo a gente passava! Na escola, corriam as histórias das aparições da Loura. Foram meses de sofrimento por causa dessa criatura sobrenatural.
Depois que a Loura caiu no esquecimento, surgiu a história mais pavorosa de todas. Nasceu um bebê. Era o bebê mais feio que já existiu na face da Terra. Nem o médico se conteve ao ver o coitadinho e falou:
– Mas que bebê feio!
Com voz cavernosa, o recém-nascido declarou:
– Muito mais feia vai ser a tempestade do dia 7!
E morreu imediatamente.
Estávamos ensaiando para o desfile do dia 7 de setembro, e todas as crianças de Brasília acreditavam que morreriam afogadas na tempestade do dia 7. A gente comentava o assunto baixinho na escola, não tinha nem coragem de contar para os pais. Coitados, iam morrer todos e nem sabiam! Foram dias de pavor. Tá rindo, né? Mas vem aí o dia 7 de maio. Cuidado! O bebê não teve tempo de especificar o mês nem o ano.
Mas o meu aprendizado sobre susto em criancinhas se completou em um acontecimento politicamente incorretíssimo. Vou contar assim mesmo. Morávamos na SQS 308, reservada a funcionários do Banco do Brasil. A todo momento do dia, uma infinidade de crianças povoava os parquinhos, os espaços embaixo dos blocos. A gente brincava de amarelinha, pular elástico, andar de bicicleta, patins ou patinete, jogar finca, futebol, queimada e tudo mais que se possa pensar. Ah, claro, ela, a imaginação, corria solta.
Um dia, surgiu um anão. Foi um pandemônio. Crianças assustadas, nos reuníamos em grupos para nos defender do homem. O pior foi que ele começou a aparecer todo dia por ali. Surgiram as histórias. Ele sequestrava crianças, que nunca mais eram vistas (ninguém se deu ao trabalho de explicar como ele as carregava, já que era menor do que a gente). O medo do anão tomou conta da SQS 308. Ele surgia de um lado, as crianças davam um jeito de desaparecer pelo outro. Estávamos todos apavorados.
Certa tarde, estávamos em casa, mamãe costurando no quarto dela, quando alguém tocou a campainha. Naquele tempo, não havia interfone, e a gente nem ao menos trancava as portas de casa. Eu fui atender, sem espiar pelo olho mágico. Era assim que a gente fazia. Quando abri a porta, PAVOR DOS PAVORES: lá estava o anão! Na porta da minha casa!
Bati a porta e saí correndo para o quarto. Lembro, como se fosse hoje, da mamãe perguntando:
– O que aconteceu? Por que você está branca assim?
– Oooooo aaaaaannnnnnnãããããoooooooo!!!!!!!!!
Ela foi lá. O coitado estava recolhendo donativos para alguma associação de caridade, ou vendendo livros, ou alguma coisa semelhante.
Depois desse dia, eu recebi meu certificado. As aulas práticas estavam concluídas. Eu já sabia exatamente o que fazer para assustar criancinhas. Como meus posts anteriores sobre o tema mostraram, eu concluí o curso com louvor!!!!