Nada disso, não se trata daquelas malfadadas ruguinhas que insistem em aparecer do lado dos meus olhos. Aliás, não sei como elas brotam ali do dia para a noite. A vantagem de não enxergar bem é que raramente as vejo. Mas, quando me deparo com elas, que susto!
Estou divagando. Não quero falar sobre rugas. Quero ensinar mais um jeito de assustar criancinhas. Lembramos dessa em uma conversa no sábado, contando “causos” para a prima Márcia.
A Cristina tinha uns 3 anos. Para o jantar, mamãe gostava de fazer sopa. E variava muito. Cada sopa mais gostosa do que a anterior. Certo dia, fez uma canja de galinha deliciosa. Para dar mais sabor, colocou os pés e o pescoço da coitada.
Cristina se sentava em sua cadeirinha alta, que era de madeira cor de rosa. Mamãe serviu o pratinho dela e ela começou a pedir:
– Quero o pé de galinha.
– Você não vai gostar.
Dali a pouco ela repetiu o pedido. Negado. Pediu de novo, e aí foi atendida. Mamãe pegou o tal com a concha e colocou no pratinho.
Assim que a arma do crime pousou sobre a canja dela, Cristina se afastou o máximo possível para trás, com a expressão de maior pavor que já vi numa criancinha. E começou a chorar, sem ter nem forças para pedir para alguém tirar aquele negócio da frente dela.
Todos rimos da coitada. Bem, vivendo na nossa família, você aprende cedo a conviver com todo mundo rindo de você em situações estranhas. Mamãe a livrou do pé de galinha, mas ela não quis a canja. Talvez tivessem permanecido resquícios do horror, nunca se sabe.
Depois do jantar, tudo calmo, conversei com a Cristina. Perguntei por que ela tinha sentido tanto medo. A resposta dela faz sentido:
– Porque é feio e tem dedo.
Como comer uma coisa que tem dedo? Concordo com ela. O fato é que, até hoje, ela morre de medo de todo tipo de ave. Especialmente de galinha. Então, quem quiser que uma criança tenha medo de galinha, basta dar a ela canja com um pé da supracitada. Fácil, né?
Umas risadinhas
MONGA
Início da década de 80. Minha experiência de aterrorizar criancinhas vem de longe. O local, Playcenter. Éramos quatro adultos, a Cristina adolescente e a Clarice, com 8 ou 9 anos.
Brincamos muito. Rodamos, pulamos, rimos a valer. Sérgio gritou pela mãe dele na montanha-russa. Bem, já era noite, estávamos cansados, tínhamos ido a todas as atrações.
Clarice participava de tudo, em sua animação característica. Os adultos e a adolescente, com a maior boa vontade, viraram crianças de novo. Clarice estava de maria-chiquinha, muito bonitinha.
De repente, vimos: Monga, a mulher-gorila! Clarice logo avisou:
– Eu não quero ir!
E foi acompanhada por um coro de protestos, todo mundo falando ao mesmo tempo:
– Larga de ser boba! Deve ser legal. Acho que parece com aqueles trens-fantasma que nem dão medo. Eu quero ir. Você é chata, a Monga deve ser legal.
Voto vencido, lá foi ela, muito a contra-gosto. Para ser honesta, preciso confessar que também não estava muito animada, não. Mas, naquele tempo, eu ainda não tinha assumido minhas pequenas e irrelevantes fobias.
Era uma sala pequena, toda fechada e escura. Apagaram as luzes e acenderam uma luz negra. Ficamos com aquela cara de caveira. E começou o, digamos assim, show.
Uma mulher horrorosa, com biquini horroroso de oncinha, fazia uma dança horrorosa num palco horroroso, numa tentativa horrorosa de parecer sexy. Uma voz cavernosa ia avisando que a mulher se transformava em gorila, por isso estava atrás das grades. Sim, ela estava em uma jaula horrorosa. Clarice, agarrada em mim, com um medo horroroso.
Os sons foram ficando mais altos, o homem falando da transformação, alertando para o perigo, mandando a gente manter silêncio absoluto para não irritar a mulher-gorila. De repente, lá estava um gorila imenso, batendo no peito e urrando como King Kong. Claro que a plateia gritou, Clarice e eu nos agarramos mais e o homem alertou:
– Não gritem, ela vai se descontrolar e aí, a jaula não a conterá!
Nem bem ele acabou de dizer isso, a Monga destruiu as grades. Clarice partiu, rápida como um raio, para a saída. Na escuridão, a gente começou:
– Cadê a Clarice? Gente, ela me soltou! Clarice!
Ninguém ouvia nada, por causa dos urros horrorosos da Monga. Num lapso de bom senso, pensei que a Clarice deveria ter saído. Quando deixei o lugar horroroso, lá longe ia minha irmãzinha, zunindo pelo Play Center, com as maria-chiquinhas pulando. Os outros também tinham saído, e começamos a correr atrás dela. Ouvindo o barulho, ela pensava que era a Monga atrás dela e corria mais.
Por fim, conseguimos alcançá-la. Todos esbaforidos, precisamos segurar, porque ela queria fugir mais ainda. E só dizia:
– Eu DISSE que eu não queria, que estava com medo!
Nós não tivemos condições de dizer nada. A verdade é que ficamos bem aliviados de ter a desculpa de correr atrás dela para podermos sair daquela atração horrorosa.
Bem, fica aí mais uma ideia para assustar criancinhas. E garanto que o medo fica para sempre. Até hoje ela tem horror a Mongas. Ou seja, esse é um modo bem eficiente de deixar a criancinha traumatizada para sempre.
Desculpe aí, viu Clarice?