TRIÂNGULO AMOROSO

Ela sempre foi a dona do pedaço. Bonita, charmosa. Mandona, Ele sempre andou atrás dEla como um cachorrinho. Ela, esnobava. Chegou a ter filhos com Ele e continuava no relacionamento. Todavia, nunca tinha um gesto sequer de carinho com Ele. Vi, muitas vezes, Ela brigar com Ele porque Ele tinha encostado nEla. Um absurdo. Tinha a capacidade de empurrar o coitado. E Ele aceitava tudo, sem reclamar. Parece que havia nEle uma noção de que a vida era assim mesmo, que não existia outro jeito de viver.

Um dia, tudo mudou. Apareceu a Outra. Ficava desfilando pela frente da casa deles, toda exibida. Ele se encantou. Fazia de tudo para chamar a atenção da Outra, que não estava nem aí pra Ele. Ela entrou em pânico. Chorava, contava suas dores, seus sofrimentos para os amigos. Tentava chamar a atenção dEle, que começou a passar o dia e a noite procurando um modo de agradar a Outra. Ela ficou arrasada. Agora, não adiantava chorar o leite derramado. Deixara Ele escapar. Quer fazer? Seguir com a vida, apegando-se aos amigos e aproveitando todas as oportunidades para demonstrar seu desagrado e tentar reconquistar Ele.

Tentando identificar os personagens? Conhece algum caso idêntico? Como foi o final? Esse aí tem o final determinado.

Tratam-se de nossos cachorros. Ela é Lola, Ele é Charlie. A Outra, é a Belinha, a cachorra que pertence à vizinha. Belinha entrou no cio, e Charlie, que sempre anda atrás da Lola como, bem, um cachorrinho, só tem faro para a Belinha. Passa o dia grudado na cerca e a noite uivando dentro de casa. E a Lola, que despreza o Charlie, não deixa ele encostar nela, briga com ele sempre, está morrendo de ciúme. Quando a gente o chama para entrar, ela avança nele, late, irada. E, às vezes, fica latindo perto da gente, como que se lamentando, contando suas dores.

Estou impressionada com esse triângulo amoroso, porque é exatamente igual ao que acontece com os seres humanos! Todas as ações e reações dos três envolvidos são idênticas às das pessoas. Dá o que pensar…

37) FELIZ DESANIVERSÁRIO, DONA NANCY!

A notícia do falecimento de Dona Nancy, ontem, me deixou muito triste. Lembrei-me de que nunca concluí meu projeto de 50 histórias para os 50 anos da IMAS, então, decidi contar um fato muito engraçado que aconteceu, envolvendo Dona Nancy.

Mulher doce, sempre sorrindo, simpática, extremamente delicada com todo mundo. Ser esposa de pastor nunca é fácil. Ela soube desempenhar sua função com maestria. Com certeza tinha seus momentos de perder o controle, mas eu nunca vi. E olha que a gente entrava e saía da casa dela a qualquer hora do dia ou da noite.

Foi na casa dela que conheci creme de milho com molho branco! Um jantar que ela, Rev. Garrison e Márcia ofereceram para nossa família. Foi lá, também, que conheci brownies, num tempo de mundo ainda não globalizado. Ah, e foi a Márcia que me apresentou ao que se tornou, durante muito tempo, meu passatempo predileto: os quebra-cabeça de mil peças.

Bem, passemos à história, rindo um pouco em meio à tristeza da perda, relembrando tempos felizes.

A família Garrison chegou a Brasília logo no início do ano para começar seu longo e delicioso (pelo menos para nós, espero que tenha sido para eles também) período na Igreja Metodista da Asa Sul. Jane e John estudavam nos Estados Unidos, Nanneth, já casada, também morava lá. Mas veio a Márcia! Nosso pastor tinha uma filha adolescente! Estávamos empolgados. E a amizade nasceu, a Márcia virou a nossa Cocota – era assim que a chamávamos e, se ficarmos na companhia dela algum tempo, provavelmente chamaremos até hoje.

Voltemos à chegada da família. Creio que foi em janeiro, porque eu não estava em Brasília, estava na praia. Sei que era já meados de fevereiro quando minha tia Sarah, então secretária da Classe dos Adultos da Escola Dominical, entregou à Dona Nancy uma fichinha para ela preencher com os dados pessoais. Assim que recebeu a ficha de volta, minha tia partiu para a ação:

– Pessoal, Dona Nancy preencheu a ficha da ED, e eu vi que o aniversário dela é nesta semana. Precisamos fazer um Assustado para ela.

Assustado era exatamente assustar o aniversariante. Chegava todo mundo de surpresa à casa do homenageado. Não éramos totalmente doidos. Cada um levava um pratinho de doce ou salgado e um refri. E assim acontecia a festa. Como era a esposa do pastor que acabara de chegar, a igreja toda se mobilizou, ansiosa para fazer a família se sentir bem-vinda.

Na noite de sábado, foi aquela semi-multidão para a casa do pastor. Todo mundo com pratinho, refri e presente. Cada um que chegava abraçava Dona Nancy, dava parabéns, aquelas coisas todas de brasileiro expansivo. A família pastoral estava meio sem graça, o ambiente estava estranho. Até que Dona Nancy teve coragem e falou, hesitante:

– Mas hoje não é meu aniversário! Eu faço aniversário em dezembro!

A semi-multidão se virou para tia Sarah. Ela não sabia o que dizer.

– Eu vi, na ficha. A senhora escreveu 26/2!

Conversa vai e vem, os Sherlocks de plantão entenderam tudo. Elementar: ela escreveu 26.12. Tia Sarah não viu o ponto e pensou que o 1 fosse uma barra. Mistério desvendado, a festa continuou. Dona Nancy perguntou se era para devolver os presentes. Claro que não! E no dia 26/12 houve outro Assustado para ela. Só que nesse, ela não se assustou. Já conhecia a IMAS, já fazia parte da família.