SIMBA, OU EU E OS CÃES

 Esse cachorro bonito se chamava Simba. Eu nunca liguei para ele. Na verdade, toda vez que ele se aproximava de mim eu gritava para ele ir embora e dizia que detestava cachorros. Ele não parecia ligar. Era muito independente, não era chegado a chamegos. Coitado, morava isolado no canil. Confesso, com vergonha, que nem o soltávamos sempre. Bem, ele não podia se queixar do canil, era bem cuidado, ele recebia tudo de que precisava. Menos meu carinho.
Nunca gostei de animais. Sabe aquele negócio de criança querer bicho de estimação? Nunca. Tive um: uma borboleta. Durou uns dois dias, e chorei até quando a pobre morreu.
Quando Serginho era pequeno, demos uma cadelinha para ele, a Pituchinha. O coitado ficou sem ela, porque as irmãs tinham asma e tiveram uma crise por causa do pelo. Depois, compramos um pastor belga, todo preto, lindo, o Flop. Era grande demais, e teve que ir embora. Para substituí-lo, comprei uma fox paulistinha, a Pimentinha. A gente dizia que ela era imorrível. Nem sei quanto tempo viveu. Foi muito. Por fim, foi sacrificada.
Simba chegou lá em casa ainda bebê. Era lindo, uma bolinha de pelo branco. Mas eu não queria papo com ele, assim como não quis com nenhum dos outros cachorros que tivemos. Eu DETESTAVA cachorro.
O Simba, em especial, não cativava, porque não demonstrava qualquer afeto pelos donos. Os meninos, ou o Sérgio, o chamavam e ele partia para o lado oposto. Era engraçado. Pelo menos, sabia ir embora quando eu gritava com ele.
O tempo passou, ele envelheceu. A Paula, veterinária que namorava o Dani, prescreveu vitaminas, porque ele estava muito magro, e disse para passarmos a dar a ele arroz e carne, em vez de ração. Fiquei com certa pena do cachorro, comprei a carne e o arroz para ele, cuidamos direitinho. Ele se fortaleceu um pouco.
Era janeiro, e saímos em férias. Voltei primeiro. Assim que cheguei, a empregada me falou que o Simba estava com hemorragia, perdendo sangue pela boca. Isso foi numa sexta-feira. Eu falei que não queria nem ver, não queria me preocupar com isso.
Mas o assunto me preocupou. Na segunda-feira, Sérgio chegaria com Flávia e Daniela, e fui ver o Simba. Ao me aproximar do canil, vi que ele estava deitado. Ao ouvir meus passos, ele levantou a cabeça, animado, as orelhas em pé, e se levantou. Mas não tinha mais forças. A parte de trás do corpo caiu, ele caiu deitado.
Aquela reação de alegria dele ao me ver tocou fundo meu coração. Ele até balançou o rabo! O cachorro que nunca recebera um momento de carinho sequer de mim sentia um amor incondicional por mim.
Chorei, comovida. Falei com ele, com carinho, que estava triste porque ele estava doente. Saí dali e pedi ao Dani para sacrificá-lo. Dani, sempre bonzinho, levou-o embora enquanto eu ia ao mercado. Quando voltei, chorei diante do canil vazio. Chorei de arrependimento. Errei ao ser tão indiferente com o animal. Descobri que eles fazem parte das manifestações de amor de Deus por nós. Pedi perdão a Deus pelo meu comportamento e falei que não voltaria a ser daquele jeito.
Hoje, temos dois cachorrinhos. São meus bebês. Passam o tempo todo comigo, e eu gosto disso. Quando estão com medo, ou com algum problema, eles vêm para perto de mim. Descobri que, ao rejeitar todos os que passaram lá em casa antes dele, acabei perdendo muito…
Charlie e Lola, os donos da casa

A FELICIDADE ALHEIA

Vivi uma experiência inusitada na primeira quinzena de janeiro: fui a Orlando como guia em uma excursão!
Nunca tinha levado a sério tal possibilidade, já que sou uma das pessoas mais desorientadas (em termos físicos, não emocionais) que conheço. Sou capaz de me perder dentro da FNAC, como me aventurar a ser GUIA de outras pessoas? Mas fui uma guia guiada. Não era a chefe. Mas também não me perdi.
Os grupos de turismo são parte integrante de minha vida, devido ao envolvimento próximo da toda a família com as viagens de todos os tipos. Na verdade, nossa família pode ser considerada um grupo de turistas o tempo todo. Estamos sempre em viagem.
Clarice precisava de mais uma pessoa para janeiro, perguntou se eu queria, e eu aceitei. Sem maiores pretensões. Uma viagem a Orlando, com uma faceta desconhecida.
No entanto, a experiência me agradou muito mais do que eu esperava. Aliás, isso me acontece com bastante frequência: gostar mais do que esperava de uma experiência nova. Por isso mesmo, estou sempre pronta a aceitar o inesperado.
O que mais apreciei na função de guia foi fazer a alegria dos outros. Muita gente vai a Orlando na busca de realizar o sonho antigo de conhecer a magia. E isso a gente encontra lá. Agir como facilitadora para os que tornam sonhos realidade tem tudo a ver comigo. Além disso, conhecer novas pessoas, descobrir pontos em comum com gente que até dias antes era desconhecida são coisas que amo fazer.
Logo nos primeiros dias, descobri que havia no grupo mulheres com a mesma paixão que eu por trabalhos manuais e, especialmente, por scrapbooking. Clarice, mais ocupada do que eu, não teve tempo de conversar tanto, de modo que passei a ela a informação. E tive uma ideia: que tal uma ida à Michael’s? Não estava no programa, mas seria possível incluírmos em algum momento livre? Clarice comprou a ideia. No último dia, pegou a van, e lá fomos nós com sete passageiras para a Michael’s.
(É uma loja com artigos para artesanato. Uma super loja.)
As passageiras ficaram encantadas. Duas horas passaram rápido demais. Compramos, escolhemos, olhamos, desejamos, pusemos e tiramos dos carrinhos. As malas há estavam estourando, mas daríamos um jeito de levar as preciosidades. Eu e Clarice curtimos o passeio tanto quanto as “marinheiras de primeira viagem”.
Enquanto esperávamos as últimas passarem pelo caixa, uma das passageiras se aproximou de nós e disse:
– Quero falar uma coisa para vocês duas. NUNCA, em nenhuma viagem, nunca mesmo, eu fiz um passeio que me agradasse tanto. Sou formada em artes, e esta loja é maravilhosa demais para mim. Poderia passar um dia inteiro aqui dentro, mas essas duas horas já foram uma delícia. Muito obrigada.
Pronto.
Valeu a pena.
Fazer a felicidade de outra pessoa é uma das coisas mais recompensadoras deste mundo. Taí. Amei ser guia. Descobri que ser guia é o mesmo que fazer a felicidade dos outros. Tudo a ver comigo já que, nesse ponto, não sou nem um pouco desorientada.
Eu, guia!!!!
Eu Guia e minha prima Adriana Guia.
Clarice Guia, Eu Guia, Gabriel Guia e João Guia
Vários Zillers Guias