SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA

Olhei. Pensei. Peguei, larguei de novo. Dei uma volta para ver se esquecia. Sem sucesso. A boca encheu de água. Confesso que sucumbi. Como os dependentes de outras drogas, agarrei duas. Consumi uma inteirinha no domingo, a outra na terça-feira.
Não, não foram garrafas de uísque, foram barras de chocolate.
Comparo minha relação com o doce (na verdade, o chocolate é dos que menos me atrai) à dos alcoólatras com o álcool. Não posso dar a primeira mordida, assim como eles não podem dar o primeiro gole. Não sei comer uma colher de sobremesa de doce de leite. Tem que ser uma vasilha cheia. Não como um quadradinho do chocolate, lá se vai a barra inteira.
Passei por uma desintoxicação há anos, quando entrei para o Vigilantes do Peso. Venci. Fiquei muito tempo sem comer doce. Chocolate, aliás, até hoje não me atrai muito. O de domingo era especial: daquele Lindt vermelhinho, com um recheio mole. Mas minha paixão são os doces cremosos, musses, tudo feito com Leite Moça, mas sem biscoito (não gosto de pavê com biscoito, não), doces de frutas, sobremesas bem elaboradas.
Nessa época do Vigilantes do Peso, fui deixando de comer açúcar aos poucos. Cada dia era um dia. “Só por hoje”, como no AA. Pronto. O açúcar saiu de minha vida. Nem sentia vontade.
Mas, aí, veio a depressão. Com ela, parei de comer. Ficava o dia inteiro sem pôr nada na boca, não sentia vontade. A médica, preocupada, me disse que era para comer o que tivesse vontade. Ah, isso foi o estouro da boiada! Eu só tinha vontade de comer doce. E lá se foi pelo ralo o treinamento de muitos anos.
Aos poucos, o apetite foi voltando, e eu não tinha forças para resistir ao doce. Tomava uma lata de leite condensado de uma sentada só. Meio vidro de doce de leite. Via os números na balança cada vez maiores, as roupas cada vez mais apertadas, a figura no espelho cada vez mais ampla e eu cada vez mais angustiada com tudo isso, e sem a menor força para nadar contra a maré. Foi difícil, foi muito duro.
Descobri uma coisa: no mercado, 90% dos produtos para dieta são doces. Isso é péssimo, porque é impossível replicar o sabor do verdadeiro açúcar. Aqueles produtos apenas aguçam ainda mais a vontade de comer sobremesa de verdade. Não adiantam nada. Não acabam com o anseio por um bom cheese cake.
É igual ao tratamento de qualquer outro vício: tomar a decisão de não comer, e encontrar, em algum lugar, forças para vencer cada dia. De vez em quando, um Lindt vermelhinho aparece na prateleira e atrai a gente como a sereia com o pescador. Ah, mas ele não tem o poder de me levar para o fundo do mar e me fazer afogar, não. Comi duas barras, mas já voltei à sobriedade. Só por hoje.

UMA CASQUINHA VAZIA, OU VIVA A PRAÇA CENTRAL!

Na semana passada, ao chegar ao shopping, entrei em pânico: fecharam o valet parking que sempre usei!!!!!! Ai, como sofro!
Tenho dificuldade tremenda para alterar determinadas rotinas, que criei para enfrentar certas, digamos assim, lacunas nesta que digita. Essa do manobrista, por exemplo. Eu sempre perco o carro no estacionamento, sempre me perco dentro dos shoppings e das lojas grandes. Meu senso de orientação, numa escala de zero a cinco, está por volta de menos dois. Para evitar maiores problemas (como procurar o carro durante meia hora com sol a pino – já aconteceu, na UnB, carregando livros e dicionários), estabeleci as regras. Uma delas é que, em todos os lugares que frequento, tenho a lugar certo para estacionar.
Bem, acontece que começaram obras (de novo) no Parkshopping, e, ao chegar, constatei que não dava para entregar o carro no lugar onde sempre deixei. Parece incrível, mas houve um tempo, há cerca de dois ou três anos, em que eu voltaria para casa, sem conseguir resolver o “problema”.
Ah, não dessa vez! Com maestria e agilidade quase inigualáveis, me dirigi a outro manobrista, em outra porta do shopping. Depois de entregar o carro, comecei a volta indo pela minha esquerda (TODO MUNDO sabe que é lei ir sempre para a direita) e até atravessei a praça central!
Só quem já se sentiu incapaz de fazer essas coisas sabe o valor de tudo isso. Em primeiro lugar, eu saí de casa. Depois, quebrei paradigmas que estabeleci para me proteger numa fase de grande fragilidade. A sensação de atravessar a praça central do shopping deve ser semelhante à do povo de Israel ao atravessar o Mar Vermelho. Garanto que ela se abriu para mim. Esteve fechada durante muito tempo.
Esse fato, engraçado para alguns, ridículo para muitos e importante para mim, me leva a lembrar de um dia em que disse para minha terapeuta, no auge da depressão:
– Eu me sinto uma casquinha vazia. Sabe quando a gente quebra um pedacinho da casca do ovo, tira tudo de dentro e fica a casca, sem nada dentro, prestes a quebrar? É assim que me sinto.
Com muita sabedoria, ela me respondeu:
– Excelente! Então agora você pode decidir o que vai pôr dentro da casquinha.
Sim, tive a rara oportunidade de me reconstruir. Poucas pessoas têm tal privilégio. Paguei um preço alto, mas pude rever posturas, opiniões, atitudes, costumes. Descobri manias de que não me dava conta, como essa de não atravessar a praça central do shopping. Vi com outros olhos comportamentos enraizados, pude reavaliar muita coisa. E continuo fazendo isso.
Na verdade, não preenchi a casquinha toda, nem pretendo fazê-lo, porque se o fizer, não haverá mais lugar para novidades e surpresas. E eu AMO surpresas!!!!!
VIVA A PRAÇA CENTRAL!!!!!!