O QUE É DIFÍCIL

Mais uma vez, tenho como ponto de partida postagens do Facebook. Por trabalhar sozinha aqui em meu escritório, sem colegas com quem possa trocar ideias pessoalmente, meu contato com o mundo exterior se faz basicamente através da internet. Ainda bem que ela existe. Coitados dos tradutores e escritores da era pré-net, que viviam realmente fora deste mundo. 
Minha amiga Denise abriu seu coração, contou alegrias e momentos terríveis pelos quais tem passado. Dividiu a angústia e a revolta que passam no coração dela. 
A atitude da Denise me fez pensar no motivo de escondermos tanto nossos problemas. Há algum tempo circulou pelas redes sociais algo como “ninguém é tão bonito quanto aparece no Orkut, nem tão feliz quanto figura no Facebook”. Pura verdade. 
É muito fácil divulgar situações boas, confortáveis, mas poucos usam as redes sociais com a maestria da Denise, para dizer aos amigos que está fraca, que precisa de orações, de apoio, de carinho, de compreensão. 
No meu texto de ontem, contei uma situação muito engraçada, e falei, de passagem, sobre a angústia de ficar presa em um lugar. Tenho tantos outros medos, uns bem mais sérios do que esse. No entanto, ao expor essas coisas, eu me colocaria em situação de vulnerabilidade. Deixaria de ser “prá cima”, engraçada, divertida. Mas a franqueza da Denise toca muito mais fundo o coração.
Vou seguir, um pouco o exemplo dela: estou aflita. Venho enfrentando problemas em algumas áreas da minha vida. Não tenho conseguido trabalhar direito. Em alguns dias, preciso tomar tranquilizantes. Não consigo dormir sem remédio (há muitos anos). Precisei voltar a tomar antidepressivo. Está difícil levantar de manhã. Tenho ouvido de muitas pessoas: “você precisa ser forte”. Só que não sou. Na verdade, sou muito frágil. Passo o dia esperando meu marido chegar, com esperança de que, hoje, ele chegue em casa mais animado do que ontem. (Um recadinho, amor: não precisa se preocupar, estou só expondo minhas fraquezas.) A cada dia, agradeço a Deus mais um dia em que ele permitiu que eu morasse na nossa amada casa que está penhorada por causa de dívidas contraídas por outras pessoas.
Bem, acho que deu para ter ideia. Não tenho vida perfeita. No entanto, como disse para meu filho no domingo, eu sou muito feliz. Sim, sou tão feliz quanto apareço no Facebook. Acho que até mais do que aparece lá. 
Felicidade não é ausência de problemas. Jamais viveremos sem eles. No entanto, somos capazes de fechar a porta de casa e, aqui dentro, somos felizes. Amor em abundância. Entendimento. Harmonia. A presença constante da bênção divina. 
Vovó dizia que minha casa era um ceuzinho. Ela sabia das coisas. Meu lar é, mesmo, um ceuzinho, onde esquecemos as lutas e desfrutamos de nossa profunda felicidade.

PRESA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Há alguns dias rolou um “papo” no Facebook, por causa da pobre da Daniela, que ficou presa fora da Platinum, sendo que a chave do carro estava trancada lá dentro e ela não tinha como ir embora para casa. Flávia lembrou de outra ocasião em que a Dani ficou presa, e eu senti vontade de contar o caso todo.
Isso posto, contarei antes um fato que ocorreu na Escola Dominical há algumas semanas. Eliana deu aula sobre murmuração. Sobre a gente reclamar dos contratempos e dos problemas, ficar resmungando e pra baixo quando as coisas não saem do jeito que a gente quer. Na semana seguinte, a aula foi reservada para contarmos nossas experiências. Comentei com Evany, que estava do meu lado, que eu não enfrento grandes dificuldades nessa área. Não sou de murmurar. Enquanto ouvia as outras pessoas contando suas vitórias e derrotas, eu me dei conta de uma coisa: meus pais não me ensinaram a reclamar. Na nossa família, a gente sempre acha um jeito de rir das dificuldades e, quando o problema é sério mesmo, a gente o enfrenta, mas sem ficar se queixando. Isso, com certeza, aparece aqui nas minhas histórias, porque eu tendo a ver as coisas pelo humor que há nelas, não pelos incômodos que provocam. Aliás, são exatamente os incômodos que criam o humor. Não sou boazinha (muito pelo contrário), é que aprendi assim.
Então, vamos à Dani presa.
Era dezembro. Estávamos em Orlando. Papai, mamãe, eu, Sérgio, Dani (voltando para casa depois de dois anos na Califórnia), Flávia (trabalhava no Magic Kingdom), Cristina, Joel, Marcos e Fernando. Era dia de tomar café com os personagens Disney.
Uma dúvida existencial me acompanhou durante vários anos. Já a solucionei, mas não vou entregar de mão beijada. Lançarei ao espaço sideral, para deixar outros tão intrigados quanto eu:
– Por que raios os personagens Disney insistem em marcar 7 horas da manhã para tomar café com a gente? Isso lá é hora de uma pessoa em férias estar toda arrumada em um restaurante? SETE HORAS DA MANHÃ É NOITE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Pois é, as corujas Cláudia, Flávia e Daniela tinham que acordar às 7 da matina. A coitada da Dani ainda estava com o fuso da Califórnia, 4 horas a menos. Não estávamos em hotel da Disney, de modo que precisaríamos do tempo de deslocamento até lá. Hora de despertar: 5:30.
Do total de reclamações em minha vida, 90% ocorrem quando tenho que acordar cedo. O sábio ensinamento de meus pais não penetrou nessa esfera do meu ser. Resmungando contra o Mickey, dizendo que ele não entende nada para marcar um horário tão cedo, fui para o banheiro. Sérgio (o único que acorda cedo aqui em casa) já estava pronto. Depois de todas as providências que tinha que tomar dentro do banheiro, fui abrir a porta. NADA! Lá foi o grito desesperado da claustrofóbica:
– AMOR, ESTOU PRESA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Pensa numa pessoa agoniada. Meu herói tentou abrir, me deu instruções para rodar a maçaneta prum lado, proutro lado, e eu PRESA! Já comecei a suar frio. Nem janela tinha no bendito banheiro. Não tinha jeito. Sérgio precisou ir à recepção pedir socorro. As meninas toda hora falavam comigo, para eu não entrar em pânico.
Cabe ressaltar que ainda não eram nem 6 horas da manhã! “Eu vou matar o Mickey!”, pensei. E as coisas que o amor verdadeiro faz! Sem falar uma palavra de inglês, Sérgio conseguiu explicar para o cara da recepção que eu estava presa no banheiro e que precisava aparecer alguém com ferramentas! Claro que o homem das ferramentas estava na casa dele, dormindo, porque ele não é bobo.
O funcionário da recepção fabricou uma chave de fenda e foi com ela até nosso quarto. Eu só ouvia os barulhinhos, e parecia que a situação só piorava. O cara não tinha a menor ideia do que estava fazendo. De repente, meu herói falou, em bom português:
– Me dá isso aqui que eu resolvo.
Sei lá o que ele fez, mas destruiu a maçaneta. Ficou só um ferrinho, eu puxei e… saí do calabouço!
Todo o processo levou cerca de uma hora. Sérgio remontou a maçaneta, mas avisou para ninguém fechar a porta, até o encarregado chegar e consertar direito. Como estávamos atrasados e prontos, eu e Sérgio descemos para o lobby, onde todo mundo já esperava a gente. Claro que começamos a rir da aventura. Uma pessoa que odeia acordar cedo e sofre de claustrofobia ter que se levantar às 5:30 e ficar presa em um banheiro sem janela tem que ser motivo de muita risada. Pouco depois a Flávia apareceu. Estávamos preocupados com o horário, mas ela, que entende tudo de Disney, falou que a gente não ia perder a reserva, não tinha problema. Relaxamos, esperando a Daniela. De repente, Flá lembrou que tinha esquecido alguma coisa no quarto e foi buscar. Dois minutos depois, chegou à recepção, se dobrando de tanto rir e soltou:
– A BURRA da Daniela está presa no banheiro!
Ela disse que estava de fora do quarto ainda, só ouviu a porta bater e a voz da Dani lá de dentro:
– Oh, my God!!!!!!!!!
Lá foi nosso herói atrás do homem da chave de fenda. Incrédulo, ele achou que era brincadeira. Convencido, subiu, refizeram todo o processo de destruir a maçaneta e liberar a prisioneira, que surgiu no lobby, em todo seu esplendor, por volta das 7:30 da manhã, para ser saudada pelo coro de gargalhadas de sua amada família.
Devo ressaltar, em defesa do chato do Mickey que insiste nesse horário desumano, que ele nos recebeu muito bem, apesar de nosso atraso de quase duas horas. Os amigos dele também foram bem simpáticos.

Eu pensava que tinha dado 2 Buzz Lightyear pro Marcos. Vendo essa foto descobri que foram 3: esse aí também fui eu quem deu. KKK

As prisioneiras e seu resgatador
Em outra viagem, minhas pobres sobrinhas, vítimas do horário desumano do Mickey, dormem enquanto esperam nossa mesa ser liberada.