6) INDESEJÁVEIS

Toda comunidade tem os indesejáveis, e a nossa não é a exceção que confirma a regra. Felizmente, eles se foram, mas permaneceram em nosso meio durante muito tempo.

Não frequentavam a Escola Dominical. Demonstravam predileção marcante pelo culto noturno. Aliás, acho que nunca foram vistos de manhã. E nunca faltaram a um culto sequer, durante o tempo em que fizeram parte de nossa turma.

Eram muito inquietos. Incapazes de manter silêncio, não sabiam respeitar nem as reflexões mais profundas dos sermões elaborados e pregados com maestria pelo reverendo Garrison.

Apesar de viverem em nosso meio durante muito tempo, foi exatamente no pastorado do reverendo Garrison que eles se manifestaram com maior veemência. Tanta veemência que a liderança da igreja achou melhor se livrar deles. Sim, a expressão é essa mesma: se livrar. Afinal, amor cristão tem limites.

A linha divisória está entre seres humanos e morcegos. Não há qualquer orientação bíblica no sentido se suportarmos as cargas dos morcegos, de alimentarmos morcegos famintos, de darmos abrigo a morcegos sem teto.

Mesmo assim, nós os abrigamos e alimentamos durante muitos anos, em um pé de alguma coisa que ficava bem na frente do templo. Ali, onde hoje tem uns banquinhos gostosos.

Os morcegos gostavam de participar do culto. O coral e o pastor não ficavam naquele parte de cima, ficavam no mesmo nível que a congregação. Aquele “palco” era fechado por uma cortina de veludo vinho.

Como grande parte da humanidade, tenho PAVOR de morcego. E que tormento era, quando um deles errava o caminho de casa e ia parar lá na frente do templo, voando por cima da cabeça dos coristas apavorados. Bem, os homens fingiam que não estavam com medo e ficavam rindo da gente. Reverendo Garrison sempre parava, fazia uma piadinha com a gente e seguia firme em seu sermão. Lamento informar que eu só conseguia dar atenção ao intruso que voava de um lado para outro.

Depois do culto, durante aquele papo infinito (Um aparte: seu Balmes, quando ia à nossa igreja, sempre dizia que gostava muito da Igreja Metodista, mas que só via um problema – a gente não ia embora nunca! Na igreja dele – segundo ele mesmo – era só ir lá, fazer o que tinha que fazer e pronto, voltar para casa. Mas ele dizia isso rindo, conversando sem ir embora, cercado por filhos e netos, feliz da vida.), nossos indesejados “irmãos” faziam rasantes nas nossas orelhas, e ainda tinham o desplante de assobiar.

Todo mundo tinha pavor dos bichos que, segundo meu vasto conhecimento da área (KKK) deveriam comer apenas fruta, já que nunca morderam (morcegos mordem, bicam, chupam – enfim, o que eles fazem?) ninguém.

Um dia, alguém com a inteligência muitíssimo acima da média das pessoas comuns, encontrou  a solução quase impossível: cortou o pé de alguma coisa que abrigava os indesejáveis.

E eles se foram, como aquele rei de Israel, sem deixar de si saudade. Pensando bem, eles acrescentavam um toque divertido às noites de domingo, e dá até para sentir uma ponta de saudade. Puxa, o rei de Israel que não deixou saudade foi ruim MESMO! Pior do que morcego.

5) TEMPOS SOMBRIOS

Viver em comunidade implica, necessariamente, em sofrer quando os outros sofrem. Felizmente, tenho conhecido mais momentos de riso, mas, quando chega a dor, ela é profunda. A aflição pode ser grande.

Claro que existem na Igreja Metodista da Asa Sul exemplos de todo tipo de problemas. Inevitável. Para mim, crianças doentes ocupam posto elevadíssimo caso exista uma escala de sofrimento. Entro em pânico com o menor sinal de febre, e quero, imediatamente, ligar para o Jezreel. É até bordão familiar: “Já ligou pro dotô?”.

Felizmente, não foram muitas as experiências de doenças graves em crianças em nossa igreja. E Deus nos abençoou com o retorno à saúde. Algumas dessas experiências se destacam em minha memória.

O primeiro mês de vida da Ana Beatriz foi uma provação. Os primeiros dias, um terror. Nenhuma notícia trazia qualquer indício de melhora. Na sexta-feira, um culto de intercessão na igreja. Lágrimas, muitas. Clamor. A igreja estava lotada. Como toda aquela gente ficou sabendo do culto, marcado de uma hora para outra? Ela começou a melhorar. Deus ouviu o choro de seu povo, e a curou. Duvida? Vá lá na igreja no próximo domingo e veja a criaturinha “reinando” soberana. Aliás, nossa igreja possui um tesouro inestimável: nem dá para contar quantas criancinhas, todas “reinando” soberanas em seus domínios.

Outra criança que nos levou aos pés de Deus em sofrimento foi o Gabriel Dantas. Ele tinha febre. Isso mesmo: febre. Por quê? Porque tinha febre. Os meses passavam, e ele com febre. Foi ficando abatido, magrinho, pálido. E a igreja orou. Chorou. Parecia não haver solução. Mas Deus interferiu, mostrou à mãe dele onde estava o problema. Ela ouviu, agiu, e, hoje, Gabriel é um jovem forte, cheio de vida, engraçado, que canta muito bem no grupo de louvor da mocidade.

E o Lucas… ai, quanto sofrimento! “Não há solução, não há tratamento.” Foi isso que os pais ouviram dos médicos. Não era essa a resposta de Deus. Por caminhos que só ele poderia imaginar, Lucas acabou em um hospital em Porto Alegre. Cirurgia arriscada. Enquanto ele ia para a sala de cirurgia, cercado por pais, avós e vários pastores, sua família e os membros de sua igreja foram para o altar de nosso templo. Prostrados, ali ficamos, chorando e clamando, até que veio a notícia: acabou e ele está bem. Continuamos orando até ele voltar para casa. E prosseguimos, durante a recuperação e os anos difíceis que se seguiram. Hoje ele está esquiando com a família no Canadá. Adulto saudável.

A pior experiência foi a que passei com minha filha Daniela. Claro, por maior que seja o amor que sentimos pelas outras crianças, nossos filhos são… nossos filhos. Em uma crise de asma, o quadro foi se complicando. Parecia que a vida dela escorria por entre nossos dedos. Nada a fazia melhorar, nenhuma injeção, nenhum remédio. Médico ao lado da cama dela, no hospital, se desdobrando, mas nada adiantava. Ele acho melhor transferi-la para a UTI, mas nem lá ela melhorou. Reverendo Manoel Ferreira foi ao hospital, ficou muito tempo conosco na porta da UTI, assim como nossa família e vários membros da nossa família da fé. Orávamos e chorávamos. O médico veio nos dizer que seria necessário colocar nossa bebezinha (ela tinha um ano) no respirador artificial. De repente, rev. Manoel sumiu com dona Hélia. Voltaram cerca de meia hora mais tarde. Ela, com uma garrafa térmica cheia de chá quentinho. Ele, em casa, pegara o rol de membros da igreja e telefonara para cada um, pedindo oração pela Daniela. O fato é que ela nunca chegou ao respirador. Assim que o povo de Deus começou a orar (e muitos foram até o hospital, orar “in loco”), ela começou a melhorar. No dia seguinte, saiu da UTI. Nem nos lembramos mais de como é o barulho da respiração do asmático.

Sim, em 50 anos, passamos por muitos tempos sombrios, por lutas e sofrimentos. Mas sempre tivemos a companhia uns dos outros, a certeza de que havia alguém se preocupando conosco, sentindo nossa dor, nos sustentando no que fosse necessário. Nem tudo é riso, mas tudo, absolutamente tudo, é amor.