COPA E DESABAMENTO

Um desabrigado declarou ontem, em Natal:

– Estou triste porque perdi tudo, mas alegre porque nem uma pessoa morreu.

Graças a Deus ninguém morreu, mas aquele homem perdeu tudo que tinha. Não penso no que pode ser reposto. Cama, mesa, televisão, sofá, tudo isso compramos de novo. E o que não é substituível? Fotografias, roupas de bebê que guardamos de lembrança, trabalhinhos feitos pelos filhos na escola, recordações de pessoas queridas que já faleceram, presentes especiais recebidos em datas também especiais e tantas outras coisas que guardamos por amor. Não dá para ir a uma loja e comprar. Sei que se perdesse tudo, essas coisas eu choraria por muito tempo. Foi assim quando ladrões entraram em minha casa. Até hoje, mais de 20 anos depois, lamento terem levado as alianças de casamento de meus avós e uma pulseira que meu pai me deu no dia em que me formei no primário. Todo o resto compramos de novo, mas esses objetos são insubstituíveis.

Enquanto o homem que vi na televisão e mais um enorme grupo de pessoas se abrigavam em um estádio coberto, na mesma cidade, na bela Arena das Dunas, jogavam Estados Unidos e Gana. Belo espetáculo. Gente bonita, tudo organizado.

A indignação ferve dentro de mim. Por um motivo simples: não vi os números, e mesmo assim sei que o dinheiro gasto na construção da arena seria suficiente para construí-la e TAMBÉM evitar grande parte da tragédia causada pela chuva.

O contraste das cenas dos jogos com as das pessoas carregando os que conseguiram salvar de seu resto de moradia causa revolta. Até quando essas coisas vão acontecer no Brasil, sem que culpados sejam punidos, sem que os governantes levantem a voz para, pelo menos, tentar consolar a população? Por que a presidente, a governadora do Rio Grande do Norte (só soube que é mulher porque olhei no site do estado na hora de escrever o post) e o prefeito de Natal não se manifestaram publicamente para dizer que vão ajudar essas pessoas?

Não sei a que partido pertencem a governadora e o prefeito. É totalmente irrelevante. O descaso pela população extrapola a divisão partidária, percorre todas as camadas da sociedade. Claro, o jogo não poderia ter sido suspenso. É um evento mundial, marcado com antecedência. E teria sido uma linda oportunidade para os governantes mostrarem ao mundo que sua posição é servir ao povo que os elege. Infelizmente, eles não sabem disso e perderam a oportunidade. E a população segue se contentando em sobreviver…

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