VICTOR, O VITORIOSO

Victor, 27 anos. Eu o conheci na barriga da mãe dele, Keyla. Demorou alguns meses para nos conhecermos pessoalmente.

A mãe de Victor, Keyla, faz parte de uma família que amo profundamente. Seu Oseias, o pai dela, tinha voz linda. Muito amigo de meu pai, os dois viajavam por este Brasil juntos, espalhando a mensagem do amor de Deus. Papai pregava e seu Oseias cantava.

A esposa dele, dona Eunice, é um doce de pessoa. Penso que ninguém que a conhece deixa de amar e admirar seu jeito suave de ser. Além disso, é dedicada a Deus e à família como poucas.

Seu Oseias e família chegaram a Brasília há muitos anos, nem sei quantos. Os três filhos – Jezreel, Keyla e Ézer – aos poucos foram se enturmando na igreja. Jezreel me contou que não foi fácil, mas acabou acontecendo e a amizade cresceu e floresceu.

Para tristeza de muitos, eles se mudaram para Anápolis e, quando voltaram para Brasília, foram morar em Taguatinga, de modo que passaram a frequentar a Igreja Metodista de lá. Só ficou conosco o já dr. Jezreel, pediatra, que é chamado de Jez, ou de Dotô.

A Igreja Metodista tem uma tradição muito interessante: eventos que reúnem todas as igrejas de uma região. Em nosso caso, do Distrito Federal. Assim, os metodistas acabam se esbarrando muitas vezes no decorrer da vida. Foi assim comigo e com dona Eunice e Keyla.

Voltemos 27 anos no tempo. Quando peguei o bebê Victor no colo, ele abria e fechava a boquinha, como se fosse cantar. Eu, brincando com ele, falei:

– Eu quero cantar igual ao meu vovô. Vou ter uma voz linda.

Disse isso com dor no coração, porque seu Oseias tinha falecido pouco tempo antes. Mas sonhei que Victor um dia cantaria como o avô dele.

Ele foi crescendo, sempre um menino, depois adolescente e depois homem, muito alegre. Todas as vezes que o vi ele estava cercado de pessoas, sempre no meio da bagunça. Muito animado, brincalhão

Segundo o tio Jez, o maior prazer da vida dele sempre foi ir à igreja. Quando Keyla não queria ir ele ficava meio bravo.

O exemplo de alegria dele influenciou profundamente minha vida.

Acompanhei de longe esse crescimento, observando como ele era feliz e como se dedicavam a ele a Keyla e a dona Eunice. Toda a família, na verdade. Quando ele adoecia era todo mundo mobilizado, uns para orar por eles e a família para cuidar. Ainda de longe, eu observava e admirava.

Igor, filho do Jez e da Célia, é missionário, mora no Havaí. Esteve em Brasília no final do ano passado. Victor fez a mãe levá-lo ao aeroporto às 23h para o Igor orar por ele antes de ir embora.

É, o homem de 27 anos precisava que a mãe o levasse. É incrível ver quantas vidas o Igor tocou profundamente, porque ele viveu todos os seus anos preso em uma cadeira de rodas. Não andava, não controlava as mãos, não sustentava o pescoço, não falava como nós falamos. Tinha o jeito dele de se comunicar. Keyla foi, durante todos esses anos, um exemplo de dedicação, amor, perseverança e paciência.

Anteontem, para tristeza de nós que aqui ficamos, Victor foi se encontrar com Jesus. Hoje ele anda, fala e faz tudo mais que um ser humano pode fazer.

Na hora em que fiquei sabendo da morte dele, lembrei-me do que falei quando o peguei no colo. Hoje ele canta não só como, mas com o avô. E aposto que meu pai está apreciando.

Família do seu Oseias e da dona Eunice, oro para que Deus os console de forma milagrosa. Jamais esquecerei o exemplo de dedicação que vocês deram durante esses 27 anos.

Amo vocês, simples assim.