FALLING SHORT

Gosto muito de navegar entre duas línguas. Sendo tradutora, minha mente em geral processa as palavras tanto em português quanto em inglês. Na hora de falar, muitas vezes me falta um termo exato na língua em que estou falando e surge o da outra. Isso aumenta muito a capacidade de expressar pensamentos e sentimentos. Gosto.

Explico melhor. Digamos que eu esteja falando sobre o planejamento do dia seguinte. Quero detalhar o que vai acontecer, o horário, o local. Provavelmente não vou dizer planejamento. Vou falar sobre o meu schedule. O conceito em inglês é mais abrangente do que em português.

Várias palavras não têm tradução exata. Isso acontece entre todas as línguas. Diante de um livro em que estou trabalhando, não há receita exata para transferir palavras como, por exemplo, awkward, amazing, awesome, amusement schedule. Usamos mais de uma em português, tentamos encontrar a correspondência, substituímos a frase inteira. Não tem outro jeito.

Seria fácil se toda palavra tivesse sua parceira exata, se go fosse sempre ir, ou se get fosse sempre pegar. Mas, aí, eu estaria sem trabalho. Qualquer computador traduziria com perfeição.

Nessa classe das coisas que não tem tradução perfeita encontram-se algumas expressões muito interessantes. Uma delas é fall short.

Nunca sei o que fazer de imediato quando me deparo com fall short em um livro. O significado é de alguma coisa que fica quase à altura de outra. Quase, mas não chega lá. É perto, falta pouco. Ainda assim falta.

Vou dar um exemplo meu. Para isso, vou falar de minha tia Minó. Já falei um pouquinho no post A Varanda

Tia Minó partiu para a eternidade na quinta-feira passada. Deixou aqui marcas profundas. Eu a chamava de Minha Timinozinha. Nos anos 1940 e 50 nasceram muitos sobrinhos de tia Minó. Família italiana, era costume mãe e bebê irem passar os primeiros tempos na cada de minha tia, que sempre foi a casa da minha avó. Minha mãe me contou que ela dava os primeiros banhos, sempre conversando com a criança:

– Cadê a coisa linda de Timinozinha?

Pronto, adotei o apelido que ela mesma se deu. Apelido do apelido. O nome dela era Albina, Minó era a forma carinhosa como a família a chamava.

Esse nosso início de vida sob os cuidados da tia Minó era apenas um traço do que viveríamos por todos os nossos dias. Ela nos cobria de mimos e agrados. Que ninguém fique bravo comigo, mas a casa dela era meu lugar predileto neste mundo. Tudo ali era delicioso.

Tia Minó respirava e transpirava amor. Em meio a lutas, dores, alegrias, vitórias e qualquer outra coisa, ela amava. Depois, continuava a amar. Era de um desvelo incomparável na hora de cuidar desses que amava. Tinha sempre uma palavra doce, um elogio, um carinho, um sorriso.

Desde que me entendo por gente, meu sonho é espalhar amor à semelhança da tia Minó. Eu quero me parecer com ela. Quero mesmo. De verdade.

Na sexta-feira, enquanto nos dirigíamos para o cemitério para a despedida, recebi o telefonema de meu primo Cláudio. Ele me disse que eu sou como ela. Ah, mas não sou, não.

I fall short. Eu que sei.

É, eu me esforço. É, eu tento. Quase consigo. E, mesmo que eu conseguisse, ainda assim estaria falling short, porque a essência da Minha Timinozinha era assim. Ela não precisava se esforçar para distribuir a abundância de amor que distribuía.

Saudade…

 

NÓS DUAS