THANKSGIVING

Minha profissão e as muitas viagens me levam a ter muito contato com a cultura dos Estados Unidos. Muitas coisas me desagradam, mas outras me atraem bastante. Não tenho a menor vontade de morar lá, mas gosto de morar aqui no nosso Brasil brasileiro e ir passear e aproveitar o que eles têm de bom.
Desde a primeira vez em que fui à Califórnia, sentia vontade de fazer duas coisas: usar sempre cinto de segurança e parar na faixa. Mas no Brasil não era costume, de modo que ficava na vontade. Hoje, o trânsito em Brasília mudou bastante, e a gente para, sim, na faixa para os pedestres atravessarem. IUHUUU! Eu gosto.
Há vários outros costumes que eu gostaria de adotar. Um dos meus prediletos é o Dia de Ação de Graças. Um dia dedicado a agradecer a Deus. Só para isso. Com ceia, bem parecida com a do Natal. Comidas especiais, momento de oração em família. Cultos nas igrejas.
Infelizmente, a cultura atual banalizou a celebração, e, hoje, muitos apenas agradecem ao vazio. Ao universo, a uma energia, a um ser superior. No entanto, na origem, o dia era destinado a agradecer a uma pessoa específica: Deus, Yaweh, o Criador que se encarnou em Jesus Cristo para salvar este mundo perdido e habita em nós hoje pelo Espírito Santo. Senhor e Soberano de tudo que existe.
No ano passado, pela primeira vez, nossa família fez um jantar no dia, agradecemos a Deus as bênçãos e a presença constante em nossa vida, rimos, choramos e comemos bem. Amanhã teremos de novo nosso jantar de Ação de Graças em família.
Ontem, o dia oficial, eu e Sérgio fomos ao Núcleo da Fé para o Culto de Ação de Graças. Que delícia! Igreja repleta, cânticos de gratidão, testemunhos, palavra inspirada.
Naquele igreja cheia, quanta gente enfrenta lutas tremendas,  nós inclusive! O ano passou diante dos meus olhos: lutas financeiras, enfermidade grave na família, depressão, casa penhorada, alegria, viagens, vitórias, cura, superação, conforto, saúde e segurança dos meus filhos, meus sobrinhos (é, o resto da família também, kkk)… Só agradecendo muito a Deus!
Alguns momentos deste ano foram muito especiais: as férias em Natal, o contato com minha prima Márcia, o lançamento da Divina Comédia traduzida por meu avô, a experiência como guia na Disney, a viagem a NY, a viagem do Sérgio à Argentina, a expressão tranquila do meu pai na UTI depois da cirurgia do quadril, o abraço da Moema depois de um culto, as tardes que passei na casa dos meus pais depois da cirurgia dele, Sérgio se recuperando da cirurgia sem qualquer dor, e por aí vamos.
Durante o culto, fiquei olhando minha pulseira Pandora. Nela, coloco lembretes de momentos especiais. Eu quis muito comprar essa pulseira, e consegui em NY, depois de andar MUITO e ficar encharcada por causa da chuva. Meu intuito é usá-la como recordação de coisas boas que Deus faz. Por enquanto, só tem quatro charms, mas são os principais: C, S, coração e um anjo para me lembrar sempre de que “O Anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que O temem e os livra”. E toda vez que olho para o anjinho eu lembro disso mesmo. Sou grata a Deus pela minha pulseira também!
Que bom que estamos começando a adotar o costume do Dia de Ação de Graças! Às vezes, nos acostumamos tanto com tudo que recebemos que nos esquecemos de agradecer. Sendo assim, quero declarar, com todas as letras: MUITO OBRIGADA, MEU DEUS AMADO, POR TODAS AS BÊNÇÃOS QUE O SENHOR ME DÁ, TODOS OS DIAS!!!!!!!!!!

O OUTRO LADO DO MUNDO (2)

Ontem, Sérgio fez a segunda sessão de quimioterapia. Bem, está fazendo, porque fica com a tal bombinha injetando remédio até amanhã. Passou a noite em claro. Não se sentiu mal, apenas não tem sono.
Ao contrário da primeira sessão, sentiu um gosto amargo na boca, e sensibilidade a alimentos gelados. Da primeira vez, não sentiu absolutamente nada no primeiro dia. Aliás, só começou a sentir alguma coisa quatro dias depois.
Foi assim: na terça-feira, ficou na clínica até o fim da tarde. Veio para casa com a bombinha, sem ter qualquer efeito adverso. Trabalhou normalmente quarta, quinta e sexta. Na quinta, tirou a bombinha. Tudo certíssimo, sem dificuldades. Sexta-feira, a história mudou. Não dormiu um minuto sequer e, no sábado, estava muito abatido. Cansado, claro. Mesmo assim, fomos almoçar na casa da minha mãe. Ele começou a  ficar meio rouco. De volta em casa, caiu em sono profundo, que durou, com poucas interrupções, até terça-feira às duas horas da tarde. E ficou afônico. A voz saía em um fio. Sentiu dores na barriga. Dormiu tanto que eu fiquei com medo de uma queda de algum desses negócios tipo sódio e potássio, e ficava o tempo todo verificando se estava frio ou quente, não sabia se ligava para o médico. Por fim, como era um sono muito tranquilo, decidi esperar. Foi interessante, porque sou eu a que dorme muito (durante o dia), mas aconteceu uma inversão: eu fiquei acordada e ele dormia.
Era feriado na terça-feira. Eu resolvi fazer almoço (milagre dos milagres!!!!!). Minha mãe ligou, disse que eles iam almoçar na galeteria. Como ele gosta muito de lá, acordei-o e perguntei se queria ir. Ele respondeu que sim, então fui tomar banho e me arrumar. Ele se levantou para se arrumar, mas veio escorando na parede, disse que estava zonzo. Eu falei para continuar dormindo, que eu ia fazer almoço. Ele concordou na hora e se deitou de novo (outro fato inédito). Isso aconteceu por volta de uma da tarde. Fui para a cozinha, e estava aprontando o almoço, já às duas e meia, quando ele apareceu prontinho:
– Vamos?
Simplesmente não lembrava de nada do que tínhamos conversado, nem ao menos de ter se levantado. Mas fomos, apesar de estar tão tarde. Depois, passamos no hospital para visitar dona Marlene. Ela tinha colocado um marca-passo na véspera, e acabara de sair da UTI. Eu e Marta achamos que ela ficaria muito preocupada se falasse com ele por telefone, por causa da falta de voz. Então, sugeri que déssemos uma passada no hospital, assim ela poderia ver que ele estava bem, apesar de sonolento e sem voz.
Daí em diante, ele foi melhorando. Acho que foi de ver a mãe! A voz começou a voltar ao normal, passou aquele sono infindável. Tem chegado em casa muito cansado, mas nada que cause preocupação.
Contei tudo isso para chegar ao outro lado do mundo. Essa quimioterapia é PREVENTIVA. A mais branda que existe. Ontem o Lula fez a dele também. Eu fico pensando no que ele e outras pessoas que fazem as formas mais fortes que existem. Como devem sofrer! Sérgio não tem náusea, não tem enjôo. Não vai perder o cabelo. Não teve diarreia.
No outro lado do mundo as pessoas sentem tudo que ele sentiu, e mais uma porção de coisas. Além da dúvida: será que vou ficar curado? Será que esse sofrimento todo vai adiantar alguma coisa?
No outro lado do mundo, as pessoas precisam ainda mais da presença e do consolo de Deus. Elas buscam de todas as formas. Fazem “cirurgias espirituais”, tomam chás mágicos. Aliás, foi uma das primeiras recomendações do médico, uma das mais enfáticas: chá, só de mercado. Nada de fórmulas mágicas. Mas, no desespero de não ter a certeza da presença do Deus que é AMOR, as pessoas se agarram a qualquer mentira que o pai da mentira inventa.
No outro lado do mundo o sofrimento não é apenas físico e emocional. Ele é, acima de tudo, espiritual. Talvez seja por isso que eu não me sinto parte desse outro mundo. Talvez por isso eu me sinta uma estrangeira – porque realmente sou. O meu lado do mundo é controlado e dirigido por Deus. Nele não há espaço para desespero, para falta de esperança, para desconsolo. Mesmo se estivermos no vale da sombra da morte, sabemos que Deus está conosco. E não há companhia melhor. Por isso jamais seremos parte do outro lado do mundo, mesmo que sejamos obrigados a visitá-lo por algum tempo.