MUITO MAIS, E ALÉM

O avião particular pousou, taxiou e parou em frente ao hangar. Dava para ver a vovó pela janelinha redonda. Logo os dois tripulantes chegaram para ajudá-la a recolher tudo que tinha usado para se entreter durante a viagem – a Bíblia, como sempre, e alguns livros. Vinha de São Paulo para iniciar a temporada em nossa casa.

Olhando para ela, tão bonita, com joias valiosas e roupas finas, cercada por gente que tinha como única missão cuidar dela, eu chorei. Chorei de alegria, por ver o cumprimento de uma promessa de Deus. Segurei as lágrimas e fui receber minha vovó, com o coração repleto de alegria.

Evangelina, ou Ina, como diziam seus amigos. Ou Dona Ina. Contava e recontava sua história de amor, sua vida de casada. Falava muito pouco, pelo menos comigo – e olha que conversávamos muito – sobre o que acontecera antes de conhecer o vovô. Pelo pouco que sei e a julgar por seu modo fino e elegante de ser, sua família tinha recursos. Mais do que isso não sei, e, na verdade, não me interessa muito. Se ela não contou, não era importante para ela. Então, não é importante para mim.

Evangelina e Synval se conheceram em um evento de jovens presbiterianos. Ela morava em Rio Claro, interior de São Paulo, ele estudava no Seminário Presbiteriano em Campinas. As moças de Rio Claro ficavam empolgadas com esses eventos em que encontravam os seminaristas. Ela logo se encantou pelo futuro pastor, e foi imediatamente correspondida. Antes de qualquer revelação desses sentimentos, um fato determinou o caminho dos jovens, cujos desdobramentos, hoje, já chegam à quarta geração.

O evento não era em Rio Claro e o combinado era encerrar as atividades no final da tarde de sábado. Cada um voltaria para sua casa. Alguém sugeriu passarem a noite na igreja e voltarem para casa no domingo, depois da Escola Dominical e do almoço. Minha vovó ficou com o coração dividido. Morria de vontade de ficar um pouquinho mais na companhia do seminarista bonitão que parecia estar interessado nela, assim como ela estava por ele. Mas havia um problema: ela precisava providenciar uma figura que estava faltando para a aula das crianças da manhã seguinte. Havia prometido que faria isso assim que voltasse do passeio. Os amigos insistiam:

– Fica, Ina! Seus pais não vão brigar, há adultos conosco!

Ela repetia apenas que não podia ficar, sem dizer o motivo. Na verdade, pensava que os outros iam achar bobagem o que, para ela, era muito importante. Por fim, a insistência foi tanta que ela explicou:

– O problema é que falta uma figura para contar a história para as crianças amanhã. E eu prometi que ia providenciar. Preciso voltar.

Alguns acharam, mesmo, que o motivo era bobo. Mas a insistência parou. Synval não falou nada, ela também não disse mais nada.

Bem triste, tomou o trem e voltou para Rio Claro, certa de que tinha perdido a chance de conquistar o belo seminarista. Mas, segundo ele contou a ela tempos depois, foi exatamente esse o momento decisivo. Ele pensou:

– Uma moça tão bonita e tão comprometida com a obra de Deus que troca a diversão por uma figura para contar história para crianças é, com certeza, a moça certa para mim.

Não foi a primeira, nem a última vez que minha vovó renunciou ao que queria por amor a Deus.

Ela e vovô se casaram. Ele foi pastorear a Igreja Presbiteriana em Resplendor, cidade pequena no Vale do Rio Doce, interior de Minas Gerais. Cidade pequena, igreja pequena e salário do pastor minúsculo.

Vovó deixou para trás todo o conforto que tinha na casa de seu pai. Por amor. Ao meu avô e também a Deus. Passaram todo tipo de provação. Ao contar para mim, muitos anos depois, ela não demonstrava qualquer traço de arrependimento ou amargura. Sua única tristeza: a morte prematura de seu amado.

Demonstrava sofrimento, também, ao relembrar que precisava mandar os filhos para Cachoeiro do Itapemirim quando concluíam o ensino primário, porque Resplendor não tinha ginásio, muito menos ensino médio.

O dinheiro era tão pouco que ela e vovô faziam os maiores sacrifícios para mandar uns trocados para os filhos. Ela me contou que usavam jornal velho em vez de comprar papel higiênico e que tomavam banho com sabão de cozinha que ela fazia – sabonete, só aos domingos, para irem cheirosos para a igreja.

Ela costurava muito bem. Seu irmão tinha um bom emprego e uma esposa generosa, que ajudava como podia a família da cunhada. Mandava caixas cheias de doações: roupa de cama, livros, vestidos e ternos usados e assim por diante. Vovó não queria que suas filhas e seu filho usassem roupas “herdadas”. Por isso, desmanchava as que recebia, lavava e passava bem o tecido, para ficar parecendo novo. Ela me disse que se ajoelhava e falava com Deus:

– Meu Deus, daqui deste tecido precisa sair um vestido (ou um terno) bem bonito. Por favor, me ajude!

Existem fotografias lindas para mostrar como Deus atendia o pedido feito pelo coração da mãe amorosa. Minha mãe, minhas tias e meu tio estavam sempre muito elegantes.

Depois de duas décadas em Resplendor, vovô foi convidado para pastorear a Primeira Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte. Foi um pequeno período de alívio financeiro. Vovô adoeceu gravemente e veio a falecer pouco tempo depois. A Igreja cuidou com tando carinho e amor do pastor e de sua família que vovó, mesmo não tendo moradia fixa em Belo Horizonte, fez questão de continuar arrolada como membro. Com o passar do tempo, chegou o dia em que meu tio pôde sustentar a vovó com os luxos que ela merecia, e, aí ela passou a doar para a Primeira Igreja toda a pensão que recebia como viúva de pastor. Não era muito, mas o ato fala do tamanho da gratidão dela àquela comunidade.

Ao perder o amor de sua vida, vovó poderia ter se voltado contra Deus. Afinal, deixara tudo para seguir no ministério. A reação dela, porém, foi se apegar ainda mais a seu primeiro amor. A Igreja continuou a ocupar lugar de destaque em sua vida. E esse Primeiro Amor promete que aqueles que abandonam tudo por amor a ele receberão recompensas ainda nesta vida. Foi assim com minha vovó.

Seu filho, orgulho maior de sua vida, prosperou. Muito. Um exemplo de dedicação. Telefonava para a mãe todos os dias, conversavam sobre todos os assuntos e outros mais. Ele lhe dava tudo que ela não pôde ter, e muito mais. Quando ela foi se encontrar com vovô no Céu, eram tantas joias que todas as filhas e netas receberam uma ou duas. Eu fiquei com um anel maravilhoso e um colar de pérolas.

Naquele fim de tarde, quando vi minha amada vovó pela janelinha do avião, essas coisas todas passaram por minha mente (menos as joias da herança, claro – por minha vontade elas ainda pertenceriam à dona original, que estaria aqui comigo). Deus falou ao meu ouvido:

– Está vendo? Eu cumpro o que prometo, por mais impossível que pareça. Vou além. Dei à sua avó muito mais do que aquilo que ela abandonou por amor a mim! Eu sou fiel!

Chorei.

Descendentes de Synval e Evangelina celebrando 60 anos de casada da primogênita deles!

Descendentes de Synval e Evangelina celebrando 60 anos de casada da primogênita deles!

A HISTÓRIA DE ANA 3 (ficção)

CONTINUAÇÃO DE A HISTÓRIA DE ANA 2

Ana cantava e cantava, não raciocinava mais. Não sabia há quantos dias estava presa naquele lugar esquisito. E sua mente continuava presa às lembranças de sua vida.

Com muito esforço e trabalho, os três filhos conseguiram concluir a universidade. Ana e João não permitiram que trabalhassem na infância, mas, com 15 ou 16 anos, eles passaram a estudar à noite e trabalhar de dia. O estudo os levou a conseguirem empregos melhores. Casaram-se, e a alegria da vida foi aumentando: chegaram os netos! Um dia, em uma das muitas reuniões da família, Pedro, o mais velho, comunicou que os três casais haviam se reunido e tomado uma decisão. Daquele dia em diante os pais não trabalhariam mais. Estavam aposentados. Seriam sustentados por uma mesada que os filhos fixaram. Era mais do que ganhavam trabalhando. João tentou retrucar que era forte, que não ia ficar à toa. Paulo falou que, então, estava na hora de começar a fazer o que ele gostava: trabalhar com madeira. Dariam um jeito de montar uma pequena oficina, para o pai preencher seu tempo construindo móveis para dar ou vender, conforme quisesse. Mas não precisava tirar dali o sustento. Agora seria aposentado.

Ana não relutou por um segundo sequer. Foi logo dizendo:

– Que maravilha! Agora vou poder cuidar dos meus netos!

Nem ela, nem João, conhecia a vida sem trabalho de sol a sol. Foi fácil se acostumar a se levantar depois do nascer do sol, tomar café na cozinha com calma, conversando sobre tudo e qualquer coisa ou ficando em silêncio, porque tudo já fora dito. Em seguida, Ana ia à Catedral e João ia se divertir em sua oficina. Depois do almoço, uma sonequinha. Luxo dos luxos. À tarde, faziam o que queriam. Um pequeno passeio, visita aos filhos, brincadeiras com os netos, costura, bordado, marcenaria… A vida se tornara uma delícia, finalmente!

Ana não sentia fome mais. Nem dor. O corpo parecia todo anestesiado. A mente não parava, pensava o tempo todo em seus amados – netos, filhos, marido, com um traço de amargura. Não entendia como eles a tinham deixado presa em um lugar tão horrível. Mas pensava que talvez tivesse sido sequestrada e eles a estivessem procurando. Repetia cada nome, relembrava seu namoro com João, noivado, casamento, o nascimento de cada filho, os primeiros passos de cada um, as formaturas, os casamentos, o nascimento dos netos, o dia em que eles declararam que os pais estavam aposentados. Tantas lembranças maravilhosas!

Tentou descobrir há quanto tempo estava lá. A luz sumira várias vezes, mas não conseguiu contar.

Assim que o terremoto horrível parou, João saiu desesperado rumo à Catedral. Sabia que sua esposa estava lá. A cada passo, pedia a Deus para encontrá-la. O tremor, porém, fora tão forte que não era possível chegar à igreja. As ruas estavam bloqueadas por pilhas e pilhas de destroços. Telefones não funcionavam. Conseguiu chegar à casa de Pedro que, milagrosamente, não havia desabado.

Os outros filhos, o genro e as noras também foram aparecendo. Pela graça divina, só ferimentos leves. Mas, cadê a Maria? Todos sabiam que ela estava na Catedral, e tinham ouvido falar que ela caíra inteirinha. Combinaram ficar ali, na casa de Pedro, pedindo a Deus pela mãe, até ela ser encontrada.

A vigília que começou naquele dia não parava. Amigos chegavam, ficavam um pouco, depois iam embora. Um, dois, três dias se passaram. As pessoas, agora, começaram a tentar consolar a família, fazer com que aceitassem o que parecia ser inevitável: Ana devia estar morta sob os escombros da Catedral. A família, porém, se recusava a aceitar isso. João declarava:

– Não vamos desistir de pedir para Deus um milagre. Só vamos parar quando ela for encontrada!

E, assim, uma semana se foi.

Ana não tinha a mínima ideia de quanto tempo fazia que estava presa. Ouviu passos e vozes, mas achou que era sonho. Tentou gritar e não conseguiu. Continuou a cantar e a falar com Deus. Notou que a fresta de luz ficava maior. A mente, entorpecida por dor, fome e desidratação, não entendeu o que acontecia. Subitamente, não havia mais nada em cima dela. Ouviu muitos gritos:

– Está viva! Isso é um milagre! Tragam uma maca, rápido!

Mãos fortes, cuidadosas e bondosas a pegaram. Entendeu que alguém ia tirá-la da prisão. Continuou a cantar, e começou a agradecer a Deus. Viu muitos homens. Alguns aplaudiam, outros choravam. Não entendeu o motivo de tanta emoção e continuou a cantoria incompreensível.

Quando a colocaram sobre a prancha de madeira, voltou a sentir muita dor. Foi levada até um lugar onde havia um toldo branco. Um médico bondoso a examinou, falou com ela, que não entendeu uma palavra sequer. Não sabia se estava dormindo, se era sonho ou realidade.

Puseram a prancha no chão, não havia outro lugar. Lá ela ficou, dormindo e acordando. Via João, os filhos, os netos, mas achava que era sonho. Pouco a pouco foi recuperando as forças e a consciência e ficou sabendo de tudo: um terremoto destruíra a cidade. Falou logo:

– A cruz azul da Catedral ficou em pé. Eu vi.

Chorou ao saber que a médica bonita de olhos azuis morrera. Precisava de cirurgia na perna e teria que esperar, porque o hospital também desabara.

Ana via a preocupação da família, e repetia que Deus poupara a vida dela nos escombros e que iria cuidar dela sempre. De fato, poucos dias depois chegou um navio hospital, enviado pelos Estados Unidos e ela foi operada. A recuperação foi lenta, ela ficou com uma sequela na perna, que a fazia mancar e obrigava a usar muletas.

Não perdeu um segundo se lamentando. Só lamentava a morte da médica. Retomou suas atividades, e dizia, com humor:

– Sou muito mais forte do que Jonas. Fiquei uma semana embaixo de uma Catedral inteira. Três dias na barriga do peixe é muito fácil!

E ria, alegre, o que fazia todos à sua volta rirem também.

NOTA FINAL: A Dra. Zilda Arns morreu quando a Catedral de Port au Prince, no Haiti, desabou, no violento terremoto do início de 2010. Ela fazia uma palestra. Perda imensa para a humanidade! Anna Ziti foi resgatada dos escombros uma semana depois, colocada sobre uma prancha de madeira cantando e agradecendo a Deus. Homens que a resgataram não resistiram à emoção e foram às lágrimas. A fratura no fêmur requeria uma cirurgia que o hospital improvisado não tinha condições de realizar. O filho de Anna, em entrevista à CNN, contou que a família tinha permanecido a semana inteira reunida, pedindo a Deus pela vida dela e que nunca perdera a esperança de encontrá-la com vida. Esses são os fatos, amplamente divulgados. Todo o restante é o jeito como vejo as coisas que acontecem por aí…